Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

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O medo mudou de lado: por que isso pode ser bom para Lula?

Novo levantamento Atlas evidencia impactos do racha entre Flávio e Michele Bolsonaro à medida que expõe o medo do brasileiro como oportunidade para o atual presidente

O medo mudou de lado: por que isso pode ser bom para Lula?
O medo mudou de lado: por que isso pode ser bom para Lula?
O presidente Lula (PT), durante coletiva de imprensa nos Estados Unidos (Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP)
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Eleições 2026

A pesquisa recente da Atlas/Bloomberg concentrou atenções por ser a primeira a refletir a polêmica mais recente envolvendo o racha entre Flávio e Michele Bolsonaro. Ela mostra o presidente Lula quase sete pontos à frente do rival; o que, numa eleição que promete ser apertada, é uma dianteira considerável.

Por outro lado, a corrida eleitoral deste ano parece, paradoxalmente, ainda mais instável que a anterior, em que Jair Bolsonaro já dava sinais claros do que pretendia mais de um ano antes do pleito: um golpe (que para eles era um “contragolpe”) caso perdesse a eleição. Este ano, a impressão que temos é que qualquer revelação ou evento inesperado poderia mudar, de forma repentina e radical, o resultado eleitoral.

Por mais que o horizonte até outubro prometa ser de fato bastante confuso, podemos buscar indícios mais estruturais do rumo geral que as coisas estão tomando, por detrás da névoa mental que tomou conta da política. Um dado do levantamento Atlas/Bloomberg ao qual não foi dada muita atenção me pareceu significativo nesse sentido: 48,8% dos brasileiros declararam ter “medo ou preocupação” com a eleição de Flávio Bolsonaro, enquanto 42,4% receiam a eleição de Lula.

Curiosamente, é uma inversão cravada dos números da intenção de voto em segundo turno na mesma pesquisa (48,8% para Lula, e 42,3% para Flávio). A curva longitudinal das duas perguntas segue em sincronia próxima desde o início do ano, tendo sofrido a inversão a favor de Lula apenas recentemente.

Várias especulações podem ser feitas a partir da pergunta que foi colocada aos eleitores: “Pensando no futuro do País no contexto das eleições presidenciais deste ano, quais dos seguintes resultados possíveis te causa mais medo ou preocupação?” Sobretudo, muitos brasileiros parecem estar votando com base mais em medo do que em esperança: é sobre evitar o pior, mais do que chancelar o melhor.

É claro que expectativas de futuro sempre foram importantes em eleições. Porém, o nível de radicalidade – oito, ou oitenta – e peso desse fator parece ter ganhado contornos tecnopolíticos próprios na medida em que a política eleitoral foi sendo plataformizada.

Nos estudos sobre mídias digitais, está bem estabelecido que o que move os usuários, na política e em qualquer outra esfera, tem sido menos o pensamento consciente e reflexivo – o que o senso comum chama de racionalidade – do que as atitudes afetivas – o que entendemos como emoções, intuição ou impulso. Isso não é fortuito: os algoritmos são máquinas desenhadas para interpelar humanos, precisamente, na sua camada existencial afetiva – aquela que, por compartilharmos com outros animais, é chamada vulgarmente de “cérebro reptiliano”.

Este é o modo mental que acionamos em situações anormais, que envolvem maior insegurança – o que Daniel Kahneman popularizou como pensamento rápido e devagar. A temporalidade hiperacelerada de redes sociais e outras plataformas, onde tudo acontece em tempo real, o ambiente é sempre instável e a distribuição de conteúdo é controlada por algoritmos e não pelos usuários, leva a mente humana a ficar presa nesse “modo crise”. A apreensão constante, junto com o viés de confirmação também característico desses algoritmos, leva a uma deformação “extremizante” na nossa forma de apreender o real.

Assim, nos cenários pintados pelas redes sociais, as ruas das cidades brasileiras estão repletas de perigos a cada esquina: bandidos, pessoas em situação de rua, traficantes de crianças. A escola tornou-se um lugar inseguro para os filhos: mamadeira erótica, professores doutrinadores e outras encarnações fantasiosas do “método Paulo Freire”. Vacinas não protegem; pelo contrário, causam autismo, problemas vasculares e até a morte. A saúde tornou-se fonte de ansiedade constante: influenciadores, humanos e robóticos, disputam a atenção dos usuários alertando sobre riscos, tratamentos alternativos, alimentos, suplementos. Em suma, quando a realidade é deformada pelo viés extremizante dos algoritmos, as pessoas não têm um minuto de paz.

Um dos efeitos sistêmicos dessa situação é, naturalmente, o medo. O medo é um afeto primário que antecede evidências factuais; como costuma ilustrar o cientista político Eric Oliver usando o exemplo do seu filho: “se não tem um monstro no armário, por que estou com medo?”. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, é o medo que leva à raiva, ódio e repulsa que vemos na política e em comunidades extremistas. Como animais acuados, é porque estão com medo – do PT, do feminismo, do judeu internacional, da substituição da raça branca – que pessoas radicalizadas reagem de forma defensiva, agressiva e preemptiva.

O medo também é relevante por nos dar uma medida de como as pessoas veem o horizonte de futuro, independente do que esteja acontecendo hoje. É por isso, por exemplo, que não importa o que dizem os dados e estatísticas da economia; o que interessa não é o que está acontecendo hoje, mas o que poderá acontecer amanhã, caso nada seja feito hoje para impedir. É como se, a partir de agora, cada eleição fosse uma encruzilhada existencial irreversível, ou slippery slope: se o Brasil tomará o rumo da ordem, segurança e prosperidade; ou pelo contrário, do caos, crise e degeneração.

Por isso, o medo é, hoje, um afeto dos mais relevantes a serem medidos e compreendidos em análises políticas. E é também por isso que os números da Atlas são boas notícias para o presidente Lula. Seja pela desconfiança gerada junto a Flávio Bolsonaro no caso Master e no racha com Michele, seja pela sombra ameaçadora que sua subserviência ao presidente Trump colocou à nossa soberania, o fato é que o jogo virou: hoje, os brasileiros estão mais receosos e preocupados com um futuro governo Flávio Bolsonaro do que com um quarto governo Lula. Este é um indício possivelmente mais importante, pois mais afetivo e portanto mais resiliente, do que a própria intenção consciente de voto.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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