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Sol inclemente

Em mais um verão de calor extremo, os mortos passam de mil

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Medidas paliativas. Na França, os banhos em fontes e no Rio Senna estão liberados. Em outros países, as fontes de água são uma alternativa à desidratação – Imagem: Dimitar Dilkoff/AFP e Andreas Solaro/AFP
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Para qualquer brasileiro, a informação de que os termômetros passam dos 40 graus Celsius durante o verão não chega a ser novidade, mas, quando acontece em países nos quais a temperatura média gira historicamente em torno dos 9 aos 11 graus, como na Eslováquia ou na Hungria, o resultado é um caos quase tão perturbador quanto aquele da pandemia da Covid-19. No mês de julho, a Europa enfrenta uma onda de calor extremo que sobrecarrega os serviços hospitalares, fecha escolas, cancela eventos públicos e faz disparar o número de mortes, sobretudo entre idosos e pacientes com comorbidade. Em algumas localidades, governos impuseram um regime de racionamento de água, temendo o que possa ocorrer daqui até o fim da estação mais seca do ano. Os húngaros estão proibidos de trocar a água das piscinas ou de regar jardins. Em outros contextos, o medo é dos incêndios fora de controle. Na França, 72 departamentos dos 101 existentes estão em “alerta vermelho”, gradação usada para designar fenômenos meteorológicos de natureza excepcional e histórica, e seis lidam com alertas máximos para o risco de incêndios.

Ondas de calor como esta não são uma novidade completa na Europa. Na verdade, elas se tornaram cada vez mais recorrentes, duradouras e intensas, confirmando a previsão de especialistas que alertam para os riscos existenciais que a humanidade enfrenta ao começar a lidar com esse quadro como se ele fosse um novo normal. Em todo o continente, mais de 130 milhões de moradores convivem neste momento com temperaturas acima dos 35 graus. Na Espanha, os termômetros ultrapassaram os 45 e, na França, chegaram perto dos 44. As mortes somam 1,3 mil e a temporada de verão está longe do fim e ainda não atingiu o ápice.

Nos meios de comunicação não faltam especialistas traçando paralelos entre a pandemia de 2020 a 2023 e os efeitos perturbadores das mudanças climáticas na Europa. Um desses estudiosos é Julien Dossier, fundador de uma organização privada francesa chamada Gabinete de Aconselhamento sobre a Transição Ecológica Quattrolibri, que trata a perturbação atual como “análoga à da Covid-19”. Segundo ele, assim como na pandemia, os governos europeus padecem hoje da mesma espécie de “alienação diante de um evento que se impõe de maneira brutal ao conjunto da população sem que haja preparação”. A adoção de políticas públicas robustas para esse assunto, defende, deveria ser um “imperativo categórico”. Entretanto, as mudanças climáticas e os eventos extremos que as acompanham ainda são tratados como uma “hipótese probabilística” ligada a um futuro incerto. O especialista lançou a seguinte provocação, em entrevista ao jornal Le Monde: “Não é melhor investir para que a sociedade possa lidar com 43 graus de temperatura do que investir na redução de déficits no orçamento público?”

A pergunta tem razão de ser, especialmente num país como a França, no qual metrô, ônibus e até hospitais não têm ar-condicionado, muitas vezes nem sequer ventiladores ou janelas que abram completamente. Em junho, o primeiro-ministro francês, Sebastien Lecornu, anunciou a aquisição de 30 mil climatizadores para hospitais de todo o país. A compra foi classificada como “prioridade absoluta” por um governo que acionou um protocolo chamado Orsan, nome dado à Organização da Resposta do Sistema de Saúde em Situações Sanitárias Excepcionais, para lidar com um aumento de 50% nos acionamentos aos serviços de ambulâncias, nos atendimentos de pronto-socorro e nas internações. Além do afluxo atípico de pacientes, provocado pelo aumento das temperaturas, as tempestades provocam estragos. Ao menos 6,7 mil domicílios de Paris ficaram sem energia elétrica ao mesmo tempo na última semana de junho. O apagão atingiu especialmente o distrito financeiro da capital francesa, onde fica a Bolsa de Valores.

Os serviços hospitalares estão sobrecarregados. Eventos foram cancelados

Cada país europeu se adapta como pode. Além do fechamento de escolas, do racionamento de água e do cancelamento de eventos esportivos e outras atividades coletivas, governantes apostam em medidas mais heterodoxas, como a ordem francesa de manter 550 parques abertos 24 horas, para que os cidadãos possam se refrescar ao ar livre, mesmo durante a madrugada. A França liberou ainda os banhos em cursos urbanos de água, como o Canal Saint-Martin, que corta o centro da capital francesa, no horário em que as temperaturas são mais extremas, entre 15 e 21 horas. A Hungria decretou jornada completa em home ­office, incentivando empresas privadas a fechar as portas e deixar os funcionários livres de cobrança por presença física. Além disso, as igrejas do país e instalações públicas que tenham ar-condicionado foram obrigadas a abrir as portas para receber a população.

Ao contrário de países como o Brasil, nos quais os habitantes estão mais acostumados com o calor, usam roupas leves, se hidratam e frequentam locais normalmente climatizados ou nos quais a arquitetura é pensada para favorecer o arejamento e o resfriamento, na Europa, ao contrário, os veículos, as edificações, as vestimentas e o estilo de vida são normalmente pensados para uma realidade na qual o calor extremo costumava ser episódico, pontual, de curta duração e nunca tão intenso quanto agora. Essa inadaptação, somada a uma brutal variação térmica em curto espaço de tempo, explica não apenas o desconforto que o calor provoca, mas os gravíssimos problemas de saúde que acompanham as ondas extremas.

Nas cidades europeias, as casas costumam ter janelas estreitas e o transporte público muitas vezes não tem mais do que pequenas ventoinhas basculantes para a entrada de ar. A intenção dessa arquitetura é justamente conter o calor no inverno, o que se torna fatal no verão. Por consequência, um motorista bateu o ônibus em uma árvore, em 25 de junho, no 16º distrito de Paris, depois de desmaiar enquanto conduzia o veículo. O sindicato da categoria exigiu a instalação de climatizadores nos ônibus, onde as temperaturas podem chegar a 50 graus. “A climatização deve ser utilizada para os mais vulneráveis, como em hospitais e escolas, mas não pode ser o começo e o fim das políticas de adaptação”, disse Dossier. Para ele, são necessárias mudanças rápidas e profundas, como a substituição dos combustíveis fósseis que contribuem para o efeito estufa e investimentos em agricultura orgânica e no comércio de proximidade, que emite menos poluentes ao longo da cadeia de comercialização. É preciso ainda adaptar as cidades, apostando em arborização e ventilação dos espaços fechados. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sol inclemente’

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