Cultura
Com ingressos já vendidos, teatro em Curitiba cancela peça satírica sobre o uso político da fé
Rafaela Azevedo diz que ‘A Igreja da Fran’ foi alvo de censura; empresa que administra o espaço alega “questão contratual”, mas não detalha o motivo
A experiência de assistir a A Igreja da Fran começa antes de soarem as campainhas. Na estreia da peça, acompanhada por CartaCapital no Teatro Frei Caneca, o público teve bolsas revistadas e passou por detectores de metal. Seguranças sem uniforme se espalhavam pela plateia e pelas imediações do palco.
Os 600 assentos estavam ocupados, quase todos por mulheres. A atriz Rafaela Azevedo, que dirigiu e comanda o monólogo, brincou com a cena: aquela plateia empolgada era típica de estreia; até o fim da turnê, talvez fosse preciso cercar o palco com ainda mais seguranças.
A previsão se cumpriu parcialmente. A apresentação marcada para 23 de agosto no Teatro Ópera de Arame, em Curitiba, foi cancelada depois que parte dos ingressos já havia sido vendida. Rafaela fala em censura. A DC Set Eventos Ltda., responsável pela gestão do espaço, diz que a decisão decorreu de uma “questão contratual” e nega qualquer relação com o conteúdo da peça.
Para Rafaela, porém, não é possível separar a decisão do conteúdo da obra. “É censura, isso nunca me aconteceu antes”, afirma. “E o teatro é um lugar democrático, né? Ou pelo menos deveria ser.”
A empresa não informou qual cláusula ou desacordo levou ao cancelamento. A Prefeitura de Curitiba afirmou que não administra o teatro, cuja operação foi transferida à DC Set em 2012. Em nota, a companhia disse que os procedimentos de reembolso foram divulgados pelos organizadores.
Ela observa ainda que a montagem não recebeu recursos públicos nem dependeu de edital: foi financiada por crowdfunding, que arrecadou pouco mais de 100 mil reais.
Rafaela criou a personagem Fran para falar, sobretudo, de desigualdades de gênero e das dificuldades modernas das relações entre homens e mulheres. Com vídeos curtos, humor corrosivo e uma linguagem deliberadamente exagerada, conquistou centenas de milhares de seguidores nas redes sociais. A personagem usa elementos típicos da palhaçaria, como exagero, constrangimento, humor corporal e inversão de papéis.
Rafaela Azevedo trabalha com a linguagem da palhaçaria, um campo cênico que usa o excesso, o ridículo e a quebra de etiqueta para expor convenções sociais – Foto: Celina Barbi
Em King Kong Fran, primeiro espetáculo da trilogia idealizada pela artista, homens eram colocados em situações de exposição e objetificação normalmente reservadas às mulheres. Já em A Igreja da Fran, a personagem mira a artilharia a outro campo de disputa: a religião e seu uso como instrumento de poder. A terceira parte da série deverá tratar diretamente da política.
A peça não busca sutileza. Em boa parte das cenas, Fran aparece vestida de papa, com barriga de grávida e calcinha fio dental. Em uma cena, simula uma masturbação ao som de um louvor. Em outra, reconta passagens bíblicas com referências chulas do humor de drag queens e à cultura pop. “É uma narrativa que tem muitas lacunas, né? Não precisa de muito para confrontar”, brinca.
Os alvos são pastores, padres, políticos, empresários e jogadores de futebol que defendem “Deus, Pátria e Família” enquanto aparecem envolvidos em abusos, corrupção, violência sexual ou exploração econômica dos fiéis. Rafaela sustenta que sua crítica não é dirigida à fé individual, mas às instituições que a transformam em mecanismo de controle.
“Eu não questiono a crença das pessoas, que é algo íntimo”, afirma. “Questiono como essas estruturas têm se valido de estratégias para manipular as pessoas.”
A peça parte da leitura de que a tradição religiosa ajudou a fixar regras sobre o corpo feminino, o desejo e a família. “A Igreja da Fran nasce do desejo de investigar como as crenças construídas influenciam diretamente na manutenção do sistema patriarcal”, diz Rafaela. “Como olhar para toda essa construção histórica e, com humor e inteligência, questionar narrativas que endossam a violência que o patriarcado exerce sobre as mulheres e a comunidade LGBTQIA+?”
Nos últimos anos, nudez, sexualidade e crítica religiosa foram convertidas em combustível para pânico moral, sobretudo nas redes sociais. O caso da exposição Queermuseu, cancelada em 2017 após pressão de grupos conservadores, e a reação à performance de Wagner Schwartz no MAM-Rio ajudaram a estabelecer esse repertório.
Rafaela diz ter sentido essa pressão antes mesmo da estreia. Ao publicar vídeos sobre o espetáculo, teve seu perfil derrubado do Instagram e suspeita de denúncias coordenadas. “Eu denuncio a manipulação religiosa em diferentes denominações cristãs”, diz. “O que quero é questionar esse lugar sacro da religião, cercado por casos de pedofilia, perseguições a minorias e manutenção de poder às custas de privilégios econômicos.”
Apesar do barulho, ela afirma ter recebido mensagens de espectadores cristãos que foram à peça e entenderam a separação entre crença e instrumentalização da fé. O espetáculo seguirá circulando pelas capitais brasileiras.
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