Justiça

Alta de 6,4% na letalidade policial atinge majoritariamente negros e bate recorde em 4 estados

Foram 4.330 óbitos ocorridos neste contexto nas nove unidades federativas monitoradas, com mais da metade das vítimas sendo jovens e negras, aponta o relatório ‘Pele Alvo’

Alta de 6,4% na letalidade policial atinge majoritariamente negros e bate recorde em 4 estados
Alta de 6,4% na letalidade policial atinge majoritariamente negros e bate recorde em 4 estados
Bahia. Os índices de homicídios e de letalidade policial figuram entre os maiores do Brasil – Imagem: iStockphoto
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Nos discursos oficiais, a segurança pública brasileira vive um momento de recuperação. Governos estaduais têm destacado a queda de homicídios, roubos e outros crimes violentos como evidência da eficácia de investimentos em inteligência, tecnologia e repressão ao crime organizado. Os números da letalidade policial, porém, contam uma história diferente.

Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança aponta que as mortes provocadas por policiais cresceram 6,4% no Brasil em 2025 e atingiram o maior número já registrado em quatro estados. Foram 4.330 óbitos ocorridos no contexto de ação das forças de segurança brasileiras nas nove unidades federativas monitoradas, com mais da metade das vítimas sendo jovens e negras.

O estudo, intitulado Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã, divulgado nesta quarta-feira 1º, mostra que o perfil das vítimas permanece praticamente inalterado ao longo dos últimos sete anos, início da série histórica do levantamento.

Entre aqueles cuja raça ou cor foi identificada, 86,3% eram negros, o equivalente a 3.104 pessoas. Jovens de até 29 anos representaram 64,8% dos mortos, enquanto crianças e adolescentes responderam por outras 312 vítimas apenas em 2025. Os dados revelam que, apesar das diferenças entre os estados, a letalidade policial continua incidindo principalmente sobre homens jovens, negros e moradores das periferias, reforçando um padrão que se repete desde o início da série histórica.

São Paulo liderou em números absolutos entre os estados monitorados, com 834 mortes provocadas por policiais em 2025, alta de 2,7% em relação ao ano anterior. O Rio de Janeiro aparece em seguida, com 800 vítimas, crescimento de 13,8%. O Pará registrou 632 mortes, também recorde da série histórica, enquanto o Maranhão apresentou o maior aumento proporcional do País: alta de 86,8%, passando de 76 para 142 mortes em apenas um ano.

Embora tenha reduzido os registros em comparação com 2024, a Bahia permaneceu como o estado mais letal do levantamento. Foram 1.570 mortes provocadas por agentes de segurança em 2025, mantendo o estado acima da marca de mil vítimas pelo quinto ano consecutivo. Em sete anos de monitoramento, as forças de segurança baianas acumularam 8.743 mortes, o maior total entre todas as unidades federativas analisadas.

Além do volume de ocorrências, o estado governado por Jerônimo Rodrigues também apresentou forte desigualdade racial. Embora pessoas negras representem cerca de 80% da população estadual, elas corresponderam a 93,9% das vítimas registradas no último ano.

No Ceará, o levantamento registrou 200 mortes decorrentes de intervenção policial, o maior número desde o início da série histórica em 2019. Jovens negros tiveram três vezes mais risco de morrer em ações policiais do que jovens brancos.

O estudo também chama atenção para a mudança promovida pelo governo Elmano de Freitas (PT) na classificação das ocorrências, que passaram a ser registradas como “homicídio decorrente de oposição à intervenção policial”, alteração considerada pelos pesquisadores como um fator que pode dificultar a transparência sobre a atuação das forças de segurança.

Em Pernambuco, as mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 30,9%, mesmo diante da redução das Mortes Violentas Intencionais divulgada pela gestão Raquel Lyra (PSD). O levantamento contabilizou 89 vítimas em 2025, das quais 94,4% eram negras. Jovens de até 29 anos responderam por quase três quartos dos mortos.

Governado pelo petista Rafael Fonteles, o Piauí foi o único estado monitorado a registrar queda da letalidade policial. Foram 20 mortes em 2025, redução de 16,7% em relação ao ano anterior e o menor número desde o início da série histórica. Ainda assim, pessoas negras continuaram representando a ampla maioria das vítimas.

No Amazonas, o número de mortes permaneceu estável, com 43 registros, repetindo o resultado de 2024. Apesar da estabilidade, o estudo aponta um processo de interiorização da violência policial: pela primeira vez, o interior concentrou mais mortes do que a capital. O estado também apresentou a maior proporção de vítimas negras entre todos os monitorados: 96%.

Embora os números variem entre os estados, os pesquisadores identificam um padrão comum. A combinação entre a concentração das vítimas entre jovens negros, o avanço da letalidade em parte das unidades da federação e a permanência de políticas de segurança baseadas no confronto reforça, segundo o estudo, que o aumento das mortes provocadas por policiais não pode ser explicado apenas pelo comportamento da criminalidade.

Para Jonas Pacheco, membro da equipe responsável pelo levantamento, o crescimento de 6,4% registrado em 2025 ocorre em um contexto distinto daquele observado para os homicídios dolosos. Segundo ele, embora diversos estados tenham registrado redução desse indicador, isso não significa que a violência estatal tenha seguido a mesma trajetória.

“São fenômenos distintos. Os homicídios estão em tendência de queda no país todo nos últimos anos. Algumas hipóteses ajudam a explicar esse movimento, como a mudança demográfica, com o envelhecimento da população, a estabilidade econômica e até programas de transferência de renda”, afirma o cientista social, em entrevista a CartaCapital. “Além disso, uma parcela importante dos homicídios está relacionada à atuação de grupos armados, que tendem a controlar esse tipo de crime. Já as mortes provocadas pelas polícias são muito sensíveis à conjuntura política dos estados e à disputa territorial entre grupos armados”.

Na avaliação do pesquisador, o aumento da letalidade policial também acende um alerta em um ano em que a segurança pública deve ocupar espaço central no debate eleitoral. “É um ponto de atenção que deve ser considerado. Os discursos de enfrentamento com base na força podem ganhar ainda mais adesão como preferência eleitoral”, diz Pacheco, que defende o fortalecimento dos mecanismos de controle da atividade policial e a integração entre as instituições do sistema de Justiça.

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