Política

Sozinho contra a direita, Lula calcula o risco dos debates na TV

A campanha petista avalia com cautela a presença do presidente nos confrontos de TV e pretende compensar eventuais ausências com sabatinas e entrevistas

Sozinho contra a direita, Lula calcula o risco dos debates na TV
Sozinho contra a direita, Lula calcula o risco dos debates na TV
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante debate na Band. Foto: Ricardo Stuckert
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Eleições 2026

Os principais nomes da corrida ao Planalto já operam em modo campanha. Com a aproximação do calendário eleitoral, os partidos começam a enfrentar decisões menos retóricas e mais práticas. Uma delas é central para a estratégia de exposição dos candidatos: quem vai aos debates, quantas vezes e em quais condições.

Os debates já não têm o peso que tiveram em outras eleições, quando a televisão organizava boa parte da conversa pública. Mas estão longe de ser irrelevantes. Pesquisa Datafolha de março de 2026 mostrou que TV e redes sociais seguem como os principais meios de informação política no País: entre eleitores de Lula, a televisão foi citada por 66%, enquanto, entre eleitores de Jair Bolsonaro, as redes sociais lideraram, com 61%.

O dado ajuda a explicar o novo cálculo das campanhas. Agora, o debate importa menos como evento isolado de televisão e mais como matéria-prima para cortes, ataques, memes e enquadramentos que circulam depois em Instagram, TikTok e outras redes sociais.

Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se dedica a buscar exposição para se firmar na corrida, no PT e no governo, ainda não há uma decisão sobre a quais debates o presidente Lula deverá comparecer.

A pré-campanha de Lula não pretende repetir a estratégia de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em sua reeleição, em 1998, quando o tucano não foi a qualquer debate. Tampouco deseja reeditar a postura do próprio Lula em 2006, ignorando todos os encontros do primeiro turno.

A intenção agora é encontrar o ponto de equilíbrio entre preservar o presidente de embates considerados improdutivos e evitar a pecha de “fugir da briga”.

As tevês já definiram as datas de pelo menos três encontros entre os candidatos: 16 de agosto, na Band14 de setembro, em um pool entre CNN Brasil, Exame, Metrópoles, Nova Brasil FM, Rádio Itatiaia, RedeTV!, Rede Vida, SBT, SBT News, Terra e VEJA+TV; e 27 de setembro, na RecordTV. Deve haver também um debate na Globo, às vésperas do primeiro turno, em data ainda indefinida.

A campanha de Lula já iniciou conversas com os canais e trabalha, neste momento, com a possibilidade de o presidente participar de apenas dois ou três debates no primeiro turno. A definição, no entanto, dependerá da evolução das pesquisas eleitorais e do clima na opinião pública.

A decisão deve ocorrer em meados de julho. Já em relação a um eventual segundo turno, ainda não há discussão.

Essa estratégia prevê compensar uma presença mais seletiva nos debates com uma participação mais constante em sabatinas e entrevistas. A orientação é aceitar o maior número possível de convites deste tipo, mirando um ambiente mais favorável para aprofundar propostas e explorar temas de interesse da campanha.

A estratégia resulta, entre outros fatores, da tendência de Lula ser o único candidato fora da direita a receber convite para os debates. Assim, ele seria o alvo principal de pelo menos três candidatos à direita: Flávio, Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) — que, ao menos por ora, não se afasta da órbita bolsonarista. É obrigatório chamar postulantes de partidos que tenham eleito mais de cinco representantes para o Congresso Nacional em 2022.

Na eleição de 2022, por exemplo, Simone Tebet (então no PSB), Soraya Thronicke (então no União) e Ciro Gomes (então no PDT) serviam como um contraponto mais consistente à extrema-direita. Agora, o papel recairia exclusivamente ao petista.

Ao menos oficialmente, porém, o PT não admite preocupação com o isolamento de Lula nesses encontros. Secretário nacional de Comunicação do PT e futuro integrante da coordenação da campanha à reeleição, Eden Valadares afirmou a CartaCapital que o partido busca aglutinar as “forças democráticas” em torno de Lula já no primeiro turno. Se um efeito colateral será a solidão nos debates, paciência.

“Será a sétima candidatura dele. A performance do presidente Lula em debate, em qualquer espaço e com qualquer candidato, não é — modéstia à parte — motivo de preocupação, avalia Valadares. “Lula é a maior liderança política do País. Não faz diferença para nós se é um contra um, dois contra um ou três contra um.”

Valadares admite que os debates, embora ainda relevantes, tem impacto é consideravelmente menor que em pleitos anteriores, como o de 1989, ano em que Lula perdeu para Fernando Collor. “Famílias brasileiras se reuniam em torno de um televisor. Hoje, a televisão virou a segunda tela em nossas vidas.”

Entre os temas que mais preocupam a campanha está a segurança pública, especialmente em relação às facções criminosas. O diagnóstico interno é que este continuará a ser um dos pontos mais sensíveis para o governo na disputa. Assim, para enfrentá-lo, a ordem é calibrar o discurso e levar a discussão para a defesa da soberania nacional.

A ideia é que Lula explore assuntos como o tarifaço trumpista, as ameaças ao Pix e a tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. A aposta é na associação direta entre Flávio Bolsonaro e seu pai, Jair Bolsonaro, a fim de tachar o senador de “poste” do ex-capitão — tática semelhante à que os bolsonaristas empregaram em 2018 contra Fernando Haddad.

Histórico 

Desde a redemocratização, o peso dos debates presidenciais variou conforme o contexto político e a estratégia dos candidatos mais competitivos.

Em 1989, primeira eleição direta para o Palácio do Planalto após a ditadura, houve oito encontros. Fernando Collor (então no PRN), líder das pesquisas, não participou de qualquer confronto no primeiro turno e encarou Lula apenas nos debates finais do segundo turno – quando a edição do programa na TV Globo foi amplamente favorável ao suposto “caçador de marajás.

Cinco anos depois, Lula e FHC se encontraram apenas uma vez. Em 1998, não houve qualquer debate entre presidenciáveis. Líder isolado nas pesquisas e candidato à reeleição, Fernando Henrique se recusou a participar dos programas, que acabaram cancelados.

A eleição de 2002, primeira vitória de Lula, registrou apenas quatro debates. Quatro anos mais tarde, já na condição de presidente e favorito à reeleição, o petista faltou a todos os encontros do primeiro turno e participou de três na segunda rodada contra seu atual vice-presidente Geraldo Alckmin (à época no PSDB).

O auge dos debates remonta a 2010. A disputa que elegeu Dilma Rousseff (PT) teve 13 confrontos, um recorde desde a redemocratização: foram nove no primeiro turno e quatro no segundo. Em 2014, quando a presidenta derrotou Aécio Neves (PSDB), houve nove.

A marca do pleito de 2018 foi a ausência dos dois protagonistas. Jair Bolsonaro (então no PSL) deixou de comparecer aos debates após sofrer uma facada em Juiz de Fora (MG), enquanto Lula estava preso e impedido de concorrer devido a condenações que o Supremo Tribunal Federal anularia em 2021, ao reconhecer a incompetência e a parcialidade de Sergio Moro na Lava Jato.

Já em 2022 ocorreu o primeiro confronto direto entre Lula e Bolsonaro em debates presidenciais. Houve três encontros no primeiro turno, promovidos por Band, SBT e Globo, além de dois embates no segundo turno, na Band e na Globo.

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