Justiça
Líder do governo no Senado, Jaques Wagner é alvo da PF em fase da operação sobre o Caso Master
Decisão do STF aponta suspeitas de repasses, compra de imóvel e atuação em pautas de interesse do banco; senador negou irregularidades em fevereiro e afirmou que o PT da Bahia ‘não tem nada a temer’
O senador Jaques Wagner (PT-BA) é um dos alvos da nova etapa – a nona – da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. Segundo a decisão que autorizou as medidas cautelares nesta quinta-feira 18, a investigação apura possíveis crimes financeiros, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Na decisão, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça registra que a PF apura uma suposta relação ilícita entre Jaques Wagner, Vorcaro e o empresário Augusto Lima, apontado pelos investigadores como ex-sócio e gestor ligado ao Banco Master. Segundo a investigação, Augusto seria o principal interlocutor do senador junto ao grupo econômico e teria coordenado a entrega de supostas vantagens indevidas ao congressista e a pessoas de seu entorno.
De acordo com a Polícia Federal, as suspeitas contra Jaques Wagner estão concentradas em três frentes: a suposta aquisição, por meio de estruturas empresariais ligadas ao grupo investigado, de um apartamento de alto padrão em Salvador (BA); repasses financeiros à BN Financeira, empresa vinculada ao núcleo familiar do senador; e uma possível atuação no Senado em temas de interesse do Banco Master, como mudanças nas regras do crédito consignado, propostas relacionadas ao Fundo Garantidor de Créditos e discussões envolvendo a tentativa de aquisição do banco pelo BRB. A investigação também cita mensagens, chamadas telefônicas, viagens em aeronaves particulares e encontros entre Wagner e Augusto Lima como indícios da proximidade entre ambos.
Entre os elementos destacados pela PF está uma troca de mensagens de março de 2025 sobre a negociação para a venda do Banco Master ao BRB. Segundo a decisão do STF, ao explicar a operação ao senador, Augusto Ferreira Lima escreveu: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!” Para a Polícia Federal, a mensagem reforçaria a suspeita de que Jaques Wagner não era apenas um destinatário de informações, mas um interlocutor relevante em assuntos considerados estratégicos para o grupo econômico investigado. A avaliação foi reproduzida pelo ministro relator ao autorizar as medidas cautelares, mas ainda será objeto da investigação.
Os investigadores afirmam ainda que Augusto Lima teria recebido de Jaques Wagner informações sobre um apartamento no empreendimento Poème Horto, em Salvador, e repassado esses dados a operadores financeiros ligados ao grupo de Daniel Vorcaro para viabilizar a compra. A PF também sustenta que Augusto coordenou pagamentos destinados à BN Financeira, manteve interlocução frequente com o senador sobre assuntos de interesse do Banco Master e encaminhava informações sobre temas como a operação de venda da instituição ao BRB, propostas legislativas, requerimentos no Senado e a CPI do Banco Master.
A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa de Jaques Wagner e aguarda retorno. Em fevereiro, porém, o senador negou qualquer irregularidade envolvendo o caso. À época, afirmou que “o PT da Bahia não tem nada a temer” e disse que a relação com Augusto Lima teve origem na venda de uma rede de supermercados estatal da Bahia, quando o empresário atuava no setor de cartões de benefícios. “Os trambiques ou os malfeitos do Banco Master é lá com eles [com a oposição], não têm nada a ver com a compra que a gente fez aqui”, declarou. Wagner também afirmou que “quem estourou o escândalo foi o Banco Central, cujo presidente [Gabriel Galípolo] foi nomeado pelo presidente Lula”, acrescentando: “Estou muito tranquilo com isso”.
A PF cumpre 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. Os agentes atuam na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.
Inicialmente, a corporação informou que haveria monitoramento por tornozeleira eletrônica. Horas depois, retificou a informação e esclareceu que, nesta fase, as medidas cautelares incluem proibição de contato entre investigados e suspensão de passaportes. No caso de Jaques Wagner, porém, a decisão não determinou a suspensão do passaporte nem outras restrições pessoais além da proibição de contato com os demais investigados e com pessoas ligadas ao empreendimento imobiliário citado na investigação.
“Os fatos investigados podem caracterizar, em tese, os crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro”, afirmou a PF.
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