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JK: a verdade dignifica a Nação

O ex-presidente foi assassinado porque significava, após a humilhante derrota da ditadura nas eleições ao Senado de 1974, uma via para a democracia

JK: a verdade dignifica a Nação
JK: a verdade dignifica a Nação
JK em discurso de comemoração da vitória para governador de Minas Gerais em 1951 — Foto: Memorial JK
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Em 22 de agosto de 1976, a notícia circulada na imprensa 15 dias antes tornara-se verdade: Juscelino Kubitschek morto em acidente de trânsito no percurso Rio-São Paulo.

O Brasil mobilizou-se para honrar o presidente, em manifestação gigantesca, destravando um nó na garganta que durava mais de uma década: a repulsa pela ditadura, sua violência, sua corrupção, sua prepotência, sua incompetência. Acima de tudo, sua pretensão em subtrair ao povo brasileiro a capacidade de decidir o próprio destino. Viver o luto pelo querido e sorridente JK significou abraçar, uma vez mais, a causa da democracia contra o autoritarismo, das luzes contra a escuridão.

A ditadura gestou sua morte durante muito tempo: desde 1955, os golpistas que tentaram impedir sua posse ou seu governo queriam-no silenciado, humilhado. Em 1968, o líder da revolta de Aragarças de uma década antes, o Brigadeiro João Paulo Burnier (um dos assassinos de Rubens Paiva), organizou dentro da Aeronáutica um esquadrão da morte para assassinar Juscelino, entre outros, e foi impedido pelo bravo Capitão Sérgio Carvalho.

Em 1972, a “cultura de morte a JK” levou a negarem pouso à aeronave, em pane, em que viajava, empurrando-o para um quase certo “acidente”. Em 1975, Figueiredo e Contreras, chefes das polícias de informação das ditaduras brasileira e chilena, combinam de assassinar adversários, dentre os quais Letelier e Kubitsckek.

Em 1976, pouco depois de Zuzu Angel sofrer um “acidente” no Rio de Janeiro, Juscelino quase foi atropelado, de maneira evidentemente intencional, no que seria mais um “acidente”. Pessoas ao seu redor relatam o constante clima de medo e ameaças. Sua esposa, Sarah Kubitschek, quando avisada da morte, duvidou: “Esse ano já mataram meu marido duas vezes.” Naquela noite, era verdade. O plano de anos, avisado a JK inclusive por elementos vinculados à ditadura, como Roberto Marinho, noticiado 15 dias antes, estava concretizado.

Para mentir sobre o ocorrido, a ditadura escalou o mesmo time que havia mentido sobre Zuzu Angel, quatro meses antes. As investigações foram uma farsa completa, assim como a de Zuzu Angel, Herzog, Rubens Paiva e tantos, tantos outros.

Mentiram sobre a hora da morte, furtaram provas, inventaram testemunhas, ignoraram o que testemunhas verdadeiras tinham a dizer, tentaram subornar para criar culpados, manipularam e adulteraram o local dos fatos, criaram hipóteses absurdas, cometeram erros gritantes de regra de três, atentaram contra as leis da física, não respeitaram procedimentos investigatórios básicos, não realizaram perguntas óbvias. Nunca buscaram a verdade: pelo contrário, produziram mentiras para ocultá-la.

Em sua versão mentirosa, o falso culpado foi um motorista de ônibus negro, transformado em uma caricatura social: carimbado como irresponsável, acusado de dirigir de modo perigoso, colocando em risco a vida dos passageiros e ocasionando uma tragédia que abalou o país. Josias de Oliveira, o motorista mentirosamente inculpado, foi mais uma vítima da ditadura, ao receber essa carga injusta e colossal nos ombros.

Essa mentira da ditadura foi encoberta por um método, praticado ao longo de anos: a coerção aos que buscaram a verdade, com ameaças a familiares e a pessoas próximas; a destruição sistemática e constante de provas sob a tutela do Estado; a deslegitimação da busca da verdade como “revanchismo”, “conspiracionismo” ou “romantismo”.

Comissões da Verdade, o Ministério Público Federal, pessoas próximas e a sociedade civil engajaram-se ao longo de décadas para que a mentira saísse de cena, para que o País pudesse se olhar de frente no espelho.

JK foi assassinado porque significava, após a humilhante derrota da ditadura nas eleições ao Senado de 1974, uma via para a democracia. JK foi assassinado porque representava as mais altas aspirações de nosso povo.

A verdade – agora sistematizada, revelada e tornada versão oficial do Estado brasileiro sobre o ocorrido no dia 22 de agosto de 1976 – é um patrimônio nacional. É mais um passo rumo ao país decente que concretizará a utopia de Juscelino Kubitschek: “Creio na vitória final e inexorável do Brasil como Nação.”

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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