Política
Os fatos que reabrem suspeita sobre acidente que matou JK
Relatório a ser votado na Comissão de Desaparecidos Políticos conclui que ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado. Veja o que se sabe sobre acidente que vitimou político em 1976
Um novo relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), elaborado pela relatora e historiadora Maria Cecília Adão, concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK) foi assassinado pela ditadura militar. O documento será votado pelo colegiado e, se aprovado, pode reformular as certidões de óbito de JK e de seu amigo e motorista, Geraldo Ribeiro.
As informações são da Folha de S. Paulo. Segundo o jornal, o relatório baseia-se em perícias recentes que apontam contradições em relação a investigações anteriores, além da análise do contexto político da época. Uma comissão externa da Câmara dos Deputados, em 2001, e a Comissão Nacional da Verdade, em 2014, haviam acatado outra tese, a de que a morte ocorreu por um acidente. O mesmo veredito foi dado por uma reabertura do caso conduzida pela polícia em 1996.
“A relatora tem trabalhado de forma articulada com pesquisadores do tema a fim de oferecer um relatório sobre o caso tendo comunicado aos familiares que o caso estava em análise”, afirmou o CEMDP em nota divulgada nesta sexta-feira 8. O texto foi apresentado ao colegiado em 1º de abril, mas a votação foi adiada “diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações”.
A polêmica sobre a morte de JK
JK morreu em agosto de 1976, há quase 50 anos, em um acidente no km 165 da Via Dutra. O Opala em que estava, conduzido pelo amigo Geraldo Ribeiro, saiu da pista, atravessou o canteiro central, invadiu a via oposta e trafegou por 50 metros na contramão antes de colidir frontalmente com uma carreta.
Desde então, o motivo da perda de controle do veículo alimenta diferentes perspectivas sobre o caso.
A investigação conduzida por autoridades da ditadura, em 1976, sustentou que o Opala havia tocado em um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem, o que teria provocado o descontrole.
Já o novo relatório retoma uma tese defendida por pesquisadores da Faculdade de Direito da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, produzida em parceria com as Comissões Estaduais da Verdade de São Paulo, Minas Gerais e do município de São Paulo.
Os pesquisadores argumentam que o descontrole do veículo decorreu de causa externa — como uma sabotagem mecânica — ou até de um mal súbito provocado por envenenamento do motorista.
Diferentemente de colegiados anteriores, o novo relatório também incorpora uma análise do Ministério Público Federal (MPF), produzida entre 2013 e 2019 e divulgada apenas em 2021, portanto após as conclusões da Comissão da Verdade. Segundo a CEMDP, o documento da relatora se baseia em provas já públicas dispostas neste inquérito.
A CEMDP havia sido encerrada em 2022, no governo Bolsonaro, e reaberta por Lula dois anos depois. Criada em 1995 por Fernando Henrique Cardoso, atravessou quase oito mandatos com a missão de reconhecer mortes e desaparecimentos políticos e promover reparação às famílias.
Em fevereiro de 2025, a comissão decidiu revisitar o caso e voltou a ouvir familiares de JK e de Geraldo Ribeiro. Um manifesto de membros da extinta Comissão da Verdade de São Paulo cobrava uma nova análise federal. O colegiado estadual havia sugerido que a morte foi resultado de atentado político.
Leia abaixo o que de fato se sabe sobre o acidente que vitimou JK e Geraldo Ribeiro.
Colisão entre ônibus e Opala
O inquérito produzido pelo MPF já havia ganhado publicidade em 2025, quando a CEMDP decidiu reabrir o caso.
Os laudos policiais de 1976 afirmavam ter encontrado vestígios de impacto e transferência de tinta no flanco direito do ônibus, além de marcas no paralama traseiro esquerdo do Opala. Fotos da época registram esses danos no veículo de JK.
A investigação do MPF, porém, descartou a tese de colisão. Para os técnicos, não há elementos que expliquem a perda de controle do carro.
O órgão identificou erros graves e contradições nos laudos produzidos em 1976 pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE). Entre eles, a constatação de que o enrugamento do paralama, apontado como prova do choque com a Viação Cometa, teria sido provocado, na verdade, pela colisão frontal. Ao comparar imagens do local do acidente com fotos feitas após a remoção do veículo, o MPF ainda concluiu que outros danos na traseira do Opala ocorreram após o guinchamento.
“Jamais a avaria na extremidade do para-lama traseiro esquerdo e na respectiva lanterna poderia ter sido considerada como prova da hipotética e não comprovada colisão com suposto ‘terceiro veículo’, pois simplesmente não existia no momento imediato após a colisão, o que é mais uma das graves falhas técnicas dos laudos do ICCE”, diz o MPF.
O MPF ainda produziu uma reconstrução 3D do acidente, com base nos laudos e em depoimentos de testemunhas. Nela, não há qualquer contato entre o ônibus e o carro. Segundo os peritos, naquelas condições, seria fisicamente impossível que um choque do ônibus no carro causasse tal desvio de rota.
“O estudo da velocidade crítica de derrapagem de veículos leves e pesados na curva que precede o local dos fatos, juntamente com o estudo das avarias do Opala, possibilitam afirmar categoricamente que ele não foi atingido pelo ônibus”.
O relatório registra que o motorista do ônibus, Josias Oliveira, foi inocentado em processo por homicídio culposo. Ele sempre negou a primeira colisão, afirmando que o Opala cruzou sua frente em alta velocidade. Passageiros ouvidos pela Comissão da Verdade de São Paulo também relataram não ter sentido ou ouvido qualquer impacto no trajeto.
Marcas de frenagem e carro “mexido”
As perícias destacam que não havia marcas de frenagem na pista, o que seria esperado caso o motorista tivesse tentado evitar a colisão. Na conclusão do MPF, o engenheiro Sérgio Ejzenberg afirmou que a hipótese de sabotagem não poderia ser descartada.
O acidente ocorreu pouco mais de dois quilômetros após o Hotel Villa-Forte, de onde JK havia saído minutos antes após reunião com o filho do brigadeiro Newton Villa-Forte. Segundo depoimento do filho de Newton, o motorista Geraldo Ribeiro reclamou, antes de partir, que alguém havia “mexido no carro”. É notório que as autoridades à época não realizaram perícia em busca de alterações nos componentes mecânicos do carro.
Também foi concluído que o Opala não trafegava acima da velocidade permitida e acelerou a 100 km/h apenas segundos antes do impacto. “O Opala não frenou durante a rota de colisão, nem mesmo diante da iminente batida frontal. Pelo contrário, manteve velocidade elevada até o choque. […] O condutor não realizou nenhuma manobra evasiva”, diz o relatório.
A hipótese de envenenamento do motorista foi considerada possível, mas prejudicada devido à ausência de exames toxicológicos na época. Outras teorias afirmam que Geraldo teria tido um mal súbito por causas naturais.
Socorro policial e aparato militar
Outro fato comprovado até o momento foi a demora do socorro policial. O motorista do ônibus, Josias, parou o veículo após testemunhar o acidente e constatou que uma das vítimas seria JK. Ao seguir viagem, informou o ocorrido a um posto policial. O agente, porém, seguiu primeiro à Academia Militar das Agulhas Negras.
Testemunhas afirmam que diversos militares chegaram ao local antes mesmo da Polícia Rodoviária Federal. Segundo o jornalista Ivan Barros, que reportou o caso, foram eles que assumiram o controle da situação e usaram um guincho para levantar os escombros do veículo antes mesmo da chegada da perícia. O Opala foi posteriormente totalmente desmantelado, impedindo a revisão do caso, em 1996.
Contexto político é levado em consideração
Em 1976, JK ascendia como uma das principais lideranças da resistência à ditadura, por meio da Frente Ampla.
O relatório do MPF cita documentos da Operação Condor, aliança entre ditaduras sul-americanas para coordenar perseguições e desaparecimentos, que tratavam o ex-presidente como uma ameaça.
Entre os elementos dispostos está uma carta do coronel Manuel Contreras, da inteligência chilena, a João Figueiredo, antes de se tornar presidente do Brasil, em que sugere ações contra a ascensão do diplomata chileno Orlando Letelier e de Kubitschek. Quase um ano após a correspondência, ambos morreram — Letelier em uma explosão de seu veículo.
A decisão da subprocuradoria-Geral da República em 2019, porém, foi a de arquivar o caso, já que, assim como não se poderia comprovar a teoria do acidente, também não haveria elementos de prova suficientes para se abrir uma ação criminal por homicídio.
Segundo a Folha de S.Paulo, a conclusão da historiadora Maria Cecília Adão vai além ao entender que, em casos como este, quando há dúvida, a decisão é favorável à vítima. Se a Comissão acatar essa perspectiva, o Estado poderá emitir novas certidões de óbito de JK e Geraldo Ribeiro como vítimas da ditadura.
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