Economia

O cálculo eleitoral da jornada reduzida

Com potencial para beneficiar 37 milhões de trabalhadores, a proposta tem alcance muito superior ao da isenção do IR

O cálculo eleitoral da jornada reduzida
O cálculo eleitoral da jornada reduzida
O presidente Lula em 27 de maio de 2026. Foto: Michael Dantas/AFP
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Eleições 2026

A redução da jornada de trabalho tem mais potencial para render dividendos eleitorais ao presidente Lula do que a isenção de Imposto de Renda em vigor desde janeiro. É o que sugerem os números de pessoas diretamente beneficiadas pelas duas medidas. Entre governistas, há quem faça até um cálculo: o petista poderia tirar proveito caso a votação da redução da jornada no Senado não ocorra antes da eleição.

A isenção total de Imposto de Renda para salários de até 5 mil reais por mês favorece 10 milhões de brasileiros. A parcial, para quem recebe até 7,5 mil reais, alcança outros 5 milhões, segundo o governo. São números modestos diante de um eleitorado de 158 milhões de pessoas: equivalem a 9% do total.

Essa é uma possível explicação para o fato de a popularidade presidencial e a intenção de voto em Lula não terem subido como os governistas imaginavam após a isenção, ainda que a medida também beneficie indiretamente familiares dos contemplados. O salário médio no País era de 3,7 mil reais mensais em abril, conforme dados divulgados nesta quinta-feira 28 pelo IBGE.

Havia 102 milhões de trabalhadores em abril, de acordo com o instituto. O governo estima que 37 milhões deles cumpram jornada semanal de 44 horas e seriam beneficiados pela redução para 40 horas, caso a mudança constitucional seja aprovada em definitivo pelo Congresso. O contingente equivale a 23% dos eleitores, mais que o dobro dos atendidos diretamente pela isenção do IR.

Os assalariados dividem-se entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Entre os trabalhadores com carteira assinada, o petista vence por 36% a 33% no primeiro turno e perde por 47% a 41% no segundo, conforme pesquisa recente do Datafolha. Entre os sem carteira, o presidente se sai melhor: ganha por 44% a 30% no turno inicial e por 50% a 37% no final.

Entre os que se declaram “empresários”, o quadro muda: Flávio marca 51% a 20% no primeiro turno e 68% a 25% no segundo. Entre autônomos e profissionais liberais, o senador também aparece à frente e com rejeição menor.

Essas três categorias — assalariados, empresários e autônomos/profissionais liberais — somam metade da amostra pesquisada pelo Datafolha. A outra metade é composta de servidores públicos, desempregados, aposentados, donas de casa e estudantes. Nesses estratos, Lula vence em todos.

No levantamento, divulgado em 22 de maio, antes da aprovação da redução da jornada na Câmara dos Deputados, Lula derrotava Flávio por 40% a 31% no primeiro turno e por 47% a 43% no segundo.

Pelo texto aprovado na Câmara, a redução da jornada passará a valer 60 dias após a promulgação. O Legislativo entrará em recesso em meados de julho, como de costume. Em 2026, ano eleitoral, a presença parlamentar em Brasília será esporádica até outubro. Assim, a aprovação do fim da escala 6 por 1 antes da eleição teria mais chances de ocorrer até o recesso, o que empurraria a vigência para setembro, na reta final das campanhas.

Mesmo que a medida não entre em vigor antes da eleição, Lula deverá colher dividendos por tê-la abraçado como bandeira político-eleitoral. Ele a tremulou nos pronunciamentos do Natal passado e do 1º de Maio. Há algumas semanas, enviou ao Congresso um projeto de lei para encurtar a jornada, movimento que acabou por impulsionar a aprovação de outras duas propostas, ambas de emenda constitucional, de autoria dos deputados Erika Hilton (PSOL-SP) e Reginaldo Lopes (PT-MG).

Valdemar Costa Neto, comandante do PL, comentou publicamente na antevéspera da votação na Câmara: “Se não aprovarmos, o Lula ganha as eleições”. Por essa razão, há governistas convencidos de que um eventual boicote do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), poderia até ser vantajoso para Lula do ponto de vista eleitoral.

Há negociações em curso para que Lula e Alcolumbre conversem pessoalmente nos próximos dias. Os dois estão em guerra fria desde a derrota, em abril, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

O senador mandou ao petista, por meio de emissários, o recado de que aceita uma reunião. Seus interlocutores dizem que ele reconhece ter exagerado ao articular contra a indicação de Messias.

Segundo um governista a par das negociações, Lula deverá pedir a Alcolumbre, no encontro, a aprovação da jornada menor. Ou arranca apoio do senador ou volta a se colocar em posição antagônica ao Congresso, o Poder mais mal avaliado pelos brasileiros. Por esse cálculo, a aprovação célere da medida no Senado seria pior para o presidente: tiraria dele a possibilidade de arrastar militantes às ruas durante a campanha em defesa da votação.

É uma conta arriscada. A aprovação folgada no plenário da Câmara só ocorreu porque a eleição se aproxima e os deputados, em sua maioria permeáveis às causas patronais, temeram perder votos na busca pela reeleição. “É só em ano de eleição que essa turma vota a favor do trabalhador, com medo de levar um pé na bunda e não voltar nunca mais para esta Casa”, disse o deputado André Janones (Avante-MG) durante a votação na comissão especial.

Abandonados pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), os empresários contrários à mudança na jornada apostam em Alcolumbre para segurar a votação antes da eleição — e barrá-la depois. Uma comitiva liderada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, foi ao senador na véspera da votação na Câmara para apelar nesse sentido.

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