Política
A nova abolição
A despeito da pressão empresarial, a Câmara aprova o fim da escala 6×1. O Senado tende a corroborar
O fim do trabalho escravo no Brasil, último país a abolir a prática, foi seguido por cerca de quatro décadas de expedientes laborais inclementes: 12 horas diárias, 14 horas, 16 horas. Getúlio Vargas, nos anos 1930 e 1940, impôs limites: 8 horas por dia e 48 por semana. Era o início da chamada escala 6 por 1. Passaram-se mais quatro, cinco décadas e a Constituição que enterrou a ditadura reduziu a carga semanal para 44 horas. E agora, 38 anos depois, o Brasil está à beira de outro passo histórico para dar mais tempo livre àqueles que o carregam nas costas. Os deputados acabam de aprovar a jornada de 40 horas por semana, realidade na Europa desde o século passado, sem corte de salário. Basta o endosso dos senadores, e as pistas indicam que eles não vão nadar contra a maré, para a mudança constitucional entrar em vigor de forma escalonada: 42 horas em 60 dias e 40 horas, em um ano. Será a abolição da escala 6 por 1.
A menos de seis meses das eleições, a aprovação na Câmara foi um passeio, apesar do “terrorismo patronal”, para usar as palavras do secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, e do festival de hipocrisia do PL, o partido dos Bolsonaro e empresários. Placares finais: 471 a 22 na primeira votação e 461 a 19, na segunda. “É um momento único, de vitória efetiva da classe trabalhadora. Uma conquista sem concessão para o outro lado. Fizemos história”, diz o deputado Alencar Santana, do PT paulista, presidente da comissão especial que preparou o texto. “Nossa elite patronal é predatória (…) Eles compraram a imprensa, pagaram comentaristas para pregarem a destruição da nossa economia se o trabalhador tivesse direito de descansar dois dias na semana sem diminuição do salário”, afirmou o deputado Otoni de Paula, bolsonarista arrependido do PSD do Rio de Janeiro, durante a deliberação na comissão.
Ao longo da discussão, a autodenominada mídia profissional deu voz e destaque a análises catastrofistas sobre as consequências da jornada menor. O argumento é basicamente um só, a redução obrigará as empresas a contratar mais trabalhadores, para manter o nível de negócios e de lucro, as admissões significarão custos mais altos e estes serão repassados aos preços, ou seja, virá inflação. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, foi explícito a respeito. A Confederação Nacional do Comércio traduziu o alegado desastre com a cifra de 122 bilhões de reais em perdas no setor. A Folha de S.Paulo estampou em fevereiro que o impacto no PIB será negativo em 6%.
“É um momento único, de vitória efetiva da classe trabalhadora”, comemora o deputado Alencar Santana
O terrorismo, note-se, sempre acompanha avanços civilizacionais e trabalhistas no Brasil. Recorde-se a manchete de O Globo na época da criação do 13°, no golpeado governo de João Goulart, em 1962: “Considerado desastroso para o país um 13º mês de salário”.
Segundo a Unicamp, a redução da jornada é capaz de levar à abertura de 4,5 milhões de vagas. Seria a quantidade necessária para preservar o nível da atividade empresarial. O desemprego está nos menores patamares, 5,8%, ou 6,3 milhões de trabalhadores, daí os sindicatos acumularem força para reivindicar aumento salarial. Dos 102 milhões de empregados, 37 milhões cumprem jornada de 44 horas por semana e serão favorecidos, conforme o governo. O alívio tem potencial para proporcionar a Lula mais dividendos eleitorais do que a isenção do Imposto de Renda a salários de até 5 mil reais. Aqueles 37 milhões de trabalhadores correspondem a 23% do eleitorado. A isenção total de imposto beneficiou 10 milhões e a parcial (salários de 5 mil a 7,5 mil), 5 milhões. Eis a razão do impacto diminuto da medida até aqui na popularidade presidencial. Pouca gente foi premiada, 9% dos eleitores.
Entre os assalariados, Lula não tem larga vantagem sobre Flávio Bolsonaro em intenção de voto. No grupo com carteira assinada, vence por 36% a 33% no primeiro turno e perde de 47% a 41% no segundo, de acordo com uma pesquisa recente do Datafolha. No caso dos sem-carteira, sai-se melhor: ganha por 44% a 30% no turno inicial e de 50% a 37%, na volta seguinte. Entre os que se declaram “empresários”, muda tudo: 51% a 20% para o filho de Bolsonaro no primeiro turno e 68% a 25% depois. Entre os autônomos e profissionais liberais, o senador também é o preferido e conta com rejeição inferior. Essas três categorias (empresários, assalariados e autônomos) somam metade da amostra do Datafolha. A outra metade é composta de servidores públicos, desempregados, aposentados, donas de casa e estudantes. Nesses estratos, Lula triunfa em todos.
Périplo. As confederações empresariais tentam uma última cartada: convencer Alcolumbre a adiar a votação do projeto – Imagem: Pedro Gontijo/Agência Senado
O presidente foi decisivo para a aprovação da redução da jornada pelos deputados. Abraçou a bandeira e tremulou-a no pronunciamento do Natal passado e do 1° de Maio. Há algumas semanas, enviou ao Congresso uma lei destinada a encurtar a jornada. Esses lances dobraram o chefe da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, que inicialmente tinha má vontade com a ideia, por ser um aliado do empresariado. O presidente e o deputado reuniram-se na antevéspera da votação e acertaram os detalhes finais do texto, como a transição escalonada. Pelo que se ouve na Câmara, Motta dobrou-se por algumas razões. Estava em dívida com o governo após tirar das mãos de Lula e dar à oposição a Lei Antifacção e de comandar a aprovação de pena menor para golpistas condenados. Ele torce, no mínimo, pela neutralidade do petista na eleição ao Senado na Paraíba. Seu pai, Nabor Wanderley, quer uma das duas vagas, mas o PT inclina-se por rivais.
O texto aprovado na Câmara nasceu de uma proposta de 2019 do deputado Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais, e de outra de 2025 da deputada Erika Hilton, do PSOL de São Paulo. Ambas fixavam a jornada semanal em 36 horas e foram alteradas pelo relator, deputado Leo Prates, do Republicanos da Bahia. A jornada de 40 horas não valerá para quem recebe salário acima de duas vezes e meia o teto de aposentadoria do INSS (cerca de 21 mil reais). Há mais excepcionalidades. Funcionários terceirizados do setor público terão um ano para que seus contratos sejam renegociados. E uma lei futura terá de definir regras específicas para micro e pequenas empresas, a fim de atenuar o impacto. A nova jornada vai valer dois meses após a aprovação definitiva no Congresso. Como o recesso parlamentar começa em meados de julho, a expectativa é de vigência em setembro, reta final da campanha eleitoral.
Numa sinuca de bico diante de uma proposta de apelo popular tão perto da eleição, o PL deu um show de cinismo. O partido defende a remuneração por horas trabalhadas, lógica parecida com aquela do motorista de Uber. A medida foi proposta pelo deputado gaúcho Mauricio Marcon no ano passado e é defendida por Flávio Bolsonaro. Depois a legenda engrossou a tentativa de segurar por dez anos a redução da jornada, foi quem mais deu apoio a uma emenda apresentada pelo deputado gaúcho Sérgio Turra, do PP, que permitia em alguns casos expedientes de até 52 horas semanais. Por fim, o líder da bancada na Câmara, Sóstenes Cavalcante, do Rio, resolveu fazer o contrário: defender em plenário uma jornada ainda menor, de quatro dias de trabalho por semana. Queria constranger os governistas. Fez o anúncio ao mesmo tempo que o líder da legenda no Senado e coordenador da pré-campanha de Flávio, o potiguar Rogério Marinho, chamava de “muito ruim” e “desastre” o fim da escala 6 por 1.
No discurso, o PL se disse contra. Na votação…
Em desfaçatez ninguém superou, no entanto, o deputado mineiro Nikolas Ferreira. Ele encampou a alegação patronal de que a mudança na jornada quebrará o País, por isso dizia que era contra a redução, embora afirmasse, veja bem, ser a favor. No dia da votação, gravou um vídeo para as redes sociais, no qual proclamava ser este o mais importante da sua vida. Repetia os argumentos empresariais e terminava por declarar apoio à escala 4 por 3, pregava inclusive sua vigência imediata, sem carências. “Que a quebradeira comece antes das eleições”, comentou, “a gente quer mostrar que, quando der merda, a culpa é deles (governistas, petistas).”
E no Senado? Abandonados por Motta, os patrões fizeram lobby com Davi Alcolumbre, o presidente do Senado. Uma comitiva liderada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, foi ao senador do União Brasil do Amapá pedir que não haja a votação. A avaliação nos corredores da Casa é que a redução da jornada tem apelo popular demais para ser boicotada. Dois terços dos senadores ficam sem mandato neste ano, muitos tentarão renová-lo em outubro. Pouco antes da votação na Câmara, o senador-empresário Oriovisto Guimarães, do Podemos do Paraná, tinha dito na sessão plenária que a proposta era um “absurdo” e vai “provocar desemprego”. E rogava a Alcolumbre para não a colocar em votação. O discurso seguinte, de Cleitinho Azevedo, do Republicanos de Minas, cobrava o oposto. “Não é uma pauta ideológica”, afirmou, “vamos parar de hipocrisia.” O amapaense ficou quieto. Nos bastidores, as pistas são de que ele não criará dificuldade para a votação.
Lula está em guerra fria com Alcolumbre, após a fatídica derrota no Senado de um indicado para o Supremo Tribunal Federal, em abril. Os dois devem conversar nos próximos dias pela primeira vez desde aquele episódio, e o assunto será justamente a mudança na jornada laboral. O senador mandou ao petista, via emissários, o recado de que topa a reconciliação. Segundo um governista a par das negociações, o presidente da República só tem a ganhar com o papo. Ou arranca de Alcolumbre o apoio à jornada menor ou estará de novo numa posição antagônica ao Congresso, o poder mais mal avaliado nas pesquisas. A votação célere no Senado seria até pior para Lula, pois tiraria do petista a possibilidade de usar a bandeira para arrastar militantes às ruas na campanha. O chefe do PL, Valdemar Costa Neto, comentou publicamente na antevéspera da votação na Câmara: “Se não aprovarmos, o Lula ganha as eleições”. •
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A nova abolição’
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