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Qual é a organização que levou Mário Frias para os EUA
Yes Brazil liderava as agendas de Jair Bolsonaro durante sua estadia nos EUA depois das eleições de 2022
Por Thiago Domenici
Desde 12 de maio de 2026, oficiais de Justiça tentam notificar o deputado federal Mário Frias (PL-SP) em uma ação que apura o repasse de emendas parlamentares a organizações não governamentais ligadas à produção do filme Dark Horse, obra que retrata a trajetória de Jair Bolsonaro. As tentativas frustradas de localizá-lo nos endereços funcionais em Brasília e em São Paulo se devem ao fato de que o parlamentar estava fora do Brasil.
O roteiro oficial de Frias, segundo ofício apresentado à Câmara dos Deputados, incluía uma passagem pelo Bahrein para discutir oportunidades de investimento e uma escala nos Estados Unidos. O destino americano, mais especificamente a cidade de Dallas, no Texas, teve como anfitrião o grupo Yes Brazil USA. Agora, a viagem, classificada como missão oficial, entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino determinou um prazo de 48 horas para que a Câmara explicasse a autorização, a duração e os custos do deslocamento.
Em entrevista nesta quarta-feira, 20 de maio, concedida ao SBT News, Mário Frias buscou afastar a ideia de fuga. Declarou estar em busca de investimentos na área de segurança pública e afirmou que retornaria. “Não devo nada. Estou pronto para prestar contas”, disse o parlamentar. A viagem ocorreu em meio a investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse e sobre o repasse de R$ 2 milhões em emendas parlamentares à Academia Nacional de Cultura, entidade presidida por uma empresária que também integra a produtora do longa. Frias negou irregularidades.
A fiscal Luciana Mazzaro e Jair Bolsonaro em evento em Orlando em 2023. Reprodução/Instagram
Yes Brazil USA: o que a Pública já investigou
O convite que levou o deputado aos Estados Unidos partiu de uma organização que, nos últimos anos, consolidou-se como elo entre políticos brasileiros e a comunidade conservadora no exterior. O Yes Brazil USA foi formalmente registrado como uma organização sem fins lucrativos no estado da Flórida em agosto de 2021. Na prática, o grupo já operava desde 2019. A estrutura tem Mário Martins como diretor-executivo e Larissa Martins como diretora financeira. De acordo com a página do Yes Brazil USA no Instagram, eles são um “grupo de direita que reúne cristãos comprometidos com um Brasil livre da ideologia comunista”.
Mário Martins, diretor-executivo, e Larissa Martins, diretora financeira da Yes Brazil. Reprodução/Instagram
Como organizadores, o casal já declarou que “as liberdades estão sendo tolhidas no Brasil” e que havia chegado a hora “de nós, que moramos no exterior, levantarmos a nossa voz e denunciarmos todas as atrocidades que estão acontecendo no nosso país”.
Nas últimas eleições presidenciais, o Yes Brazil USA e outros grupos aliados organizaram a inscrição de fiscais nas seções eleitorais do exterior. “Nós já começamos fazendo bastante barulho, porque, pela primeira vez nas eleições do Brasil, houve fiscais e delegados em todo o exterior. Vocês estão de parabéns”, afirmou Larissa à época.
A conta do grupo no Instagram tem milhares de seguidores e publica conteúdo desinformativo com frequência, sobretudo sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro. Ao tentar seguir o perfil, o Instagram avisa que “esta conta publicou repetidamente informações falsas que foram analisadas por verificadores de fatos independentes ou que eram contra nossas Diretrizes de Comunidade”.
A atuação da organização ganhou contornos mais definidos durante as eleições presidenciais de 2022. Nas redes sociais, o perfil do grupo passou a divulgar conteúdo sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro e sobre campanhas de arrecadação de fundos, tanto para Bolsonaro quanto para as famílias de presos por atos golpistas de 8 de janeiro.
A presença do grupo nas plataformas digitais foi limitada. O Instagram incluiu avisos de que a conta publicava informações consideradas falsas por verificadores independentes, o que limitou a realização de transmissões ao vivo. Uma das coordenadoras do grupo, Luciana Mazzaro da Costa Martins, que atuou como fiscal em uma seção eleitoral em Orlando, teve sua conta no Twitter suspensa por violação das regras da rede.
Urnas, Yes Brazil USA e Jair Bolsonaro
A relação do Yes Brazil USA com o ex-presidente Jair Bolsonaro se estreitou no início de 2023. Quando Bolsonaro viajou para Orlando antes da posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, a organização assumiu parte da articulação de sua agenda. O grupo promoveu encontros com apoiadores em Orlando e em Boca Raton. Em um desses eventos, realizados na Church of All Nations, os ingressos se esgotaram. Na ocasião, Bolsonaro referiu-se aos detidos pelos atos de 8 de janeiro como “presos políticos”.
Jair Bolsonaro em evento na Igreja de Todas as Nações, em Boca Raton. Reprodução/Redes Sociais
A organização de eventos não se restringiu aos Estados Unidos. Em parceria com o Institutum Veritas Liberat, o Yes Brazil USA promoveu seminários em cidades europeias como Roma, Novara, Zurique, Lisboa e Madrid. Os encontros serviram de palco para questionamentos sobre o sistema eleitoral. Em Zurique, o deputado federal e ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello (PL-RJ), discursou sobre a necessidade de apuração pública dos votos.
A participação de parlamentares brasileiros nesses eventos gerou custos ao Estado. Um levantamento da Agência Pública indicou que deputados e senadores utilizaram mais de R$ 127 mil em verbas públicas para passagens e diárias relacionadas a seminários na Europa.
A estrutura do Yes Brazil USA na Flórida, no entanto, apresenta contrastes. Em julho de 2023, repórteres da Pública visitaram dois endereços ligados a Larissa e Mário Martins no estado americano. Os locais estavam vazios, e funcionários do prédio onde a empresa está registrada afirmaram não conhecer o casal. As tentativas de contato com os responsáveis pela organização permaneceram sem resposta até a publicação das investigações sobre a Yes Brazil.
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