Política
Mario Frias articulou encontro entre Jair Bolsonaro e Vorcaro, diz ‘Intercept’
Mensagens indicam que o parlamentar tentou organizar uma reunião na mansão do dono do Banco Master
O deputado federal Mario Frias (PL-SP) articulou, em março de 2025, um encontro entre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e investigado por fraudes ao sistema financeiro. Os diálogos apontando o contato do parlamentar com o banqueiro foram obtidos e publicados pelo Intercept nesta quinta-feira 14.
As mensagens indicam que a reunião ocorreria na mansão de Vorcaro em Brasília para uma exibição reservada de um documentário. Os diálogos não informam o nome do filme, mas, na época, Frias já atuava como produtor de A Colisão dos Destinos, um documentário de cerca de 70 minutos sobre a trajetória do ex-presidente, que estreia nos cinemas nesta quinta.
Segundo a sinopse oficial, a produção busca oferecer um “olhar de humanização e contextualização” sobre o ex-presidente, por meio de relatos de familiares, amigos e aliados. O documentário é dirigido por Doriel Francisco, com roteiro assinado por ele e William Alves.
A publicação afirma que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sabia do encontro, organizado um dia após o ex-presidente ter virado réu no Supremo Tribunal Federal por seu envolvimento na tentativa de golpe de estado em 2022. Seis meses depois, o ex-capitão foi condenado a 27 anos de prisão por liderar a intentona golpista.
Os registros mostram que partiu de Frias o pedido para que Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, fizesse a ponte com Vorcaro. Segundo os registros, o empresário sugeriu o encontro ao banqueiro por WhatsApp no dia 27 de março do ano passado. Miranda compartilhou com Vorcaro uma captura de tela de uma conversa com o deputado. Nesse print, o ex-secretário de Cultura na gestão Bolsonaro, afirma que o encontro “vai fazer mta diferença pro PR”, em referência ao seu ex-chefe.
O empresário, por sua vez, respondeu que estava em um evento, mas que trataria do assunto no dia seguinte. Às 9h13 daquele dia, Miranda encaminhou ao dono do Master uma captura de tela da sua conversa com Frias – e fez uma referência a Flávio Bolsonaro. “Flavio e Mario me pediram isso. Querem levar o presidente na sua casa para assistirem juntos com vc o documentário”.
Vorcaro respondeu de forma positiva, às 9h16: “Vamos marcar sim”. Na sequência, Miranda pediu ao banqueiro duas opções de data para a semana seguinte, conforme havia combinado com Frias – ou seja, a ideia era que o encontro ocorresse entre os dias 30 de março e 5 de abril, de acordo com a reportagem do Intercept.
Em nota ao Intercept, Flávio afirmou que “o referido encontro não aconteceu” e que não participou da organização da reunião. O senador disse, porém, que o “o objetivo da exibição do documentário era apresentar parte da história que deveria ser retratada no filme, sem qualquer outra finalidade política ou pessoal”.
Além disso, negou ter “papel na organização de qualquer exibição” e afirmou que sua “interlocução com o banqueiro teve única e exclusivamente a finalidade de buscar investimento para o filme sobre a história” do meu pai”.
Já Miranda disse ao site que a “ideia da proposta de encontro era apresentar ao investidor as linhas gerais do conteúdo do filme que é em parte a mesma história do documentário”. A defesa dele também destacou que seu cliente “não desempenhou qualquer função na produção, divulgação e estratégia de lançamento”.
Segundo o portal, essa reunião na residência do empresário era parte do plano para contar com o apoio de Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse, cinebiografia que conta a história de Bolsonaro. Nesta terça-feira, o site revelou um áudio em que Flávio negocia diretamente com o banqueiro a liberação dos valores.
O arranjo previa o pagamento de 24 milhões de dólares (cerca de 134 milhões de reais à época), dos quais ao menos 10,6 milhões de dólares (aproximadamente 61 milhões de reais) teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações.
Na gravação, o senador disse ao empresário que havia preocupação com atrasos nos pagamentos da produção. “Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um momento muito decisivo aqui do filme. E tem muita parcela para trás, e está todo mundo tenso e eu fico preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme, né?”. Em nota, Flávio confirmou o pedido de dinheiro, afirmou tratar-se de “patrocínio” e defendeu a CPI do Master.
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