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A nova cloroquina

Os patriotas saem da toca e descobrem mil e uma utilidades para o detergente Ypê

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Patrimônio nacional. Hang cantou e dançou. Nikolas Ferreira descobriu uma conspiração. A Anvisa só fez o seu trabalho – Imagem: Redes Sociais e Renato Luiz Ferreira/ChatGPT
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O GIGANTE ACORDOU. A turma da mamadeira de piroca, do chip na vacina, da prece ao pneu de caminhão, do pedido de socorro a alienígenas e da cloroquina saiu da letargia. Está em estado de alerta e em pé de guerra na defesa de um produto de limpeza, o detergente Ypê, novo símbolo da resistência à “ditadura comunista”. Bastou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária suspender um lote da marca, por falhas no processo de produção na fábrica de Amparo, interior de São Paulo, e risco de contaminação bacteriana, para os patriotas voltarem à trincheira ideológica. As fotos das condições da unidade fabril não deixam dúvida sobre a burla às normas de higiene.

No sábado 9, o vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo, do PL, postou um vídeo nas redes a erguer um frasco de detergente Ypê como se fosse uma espada. “Aqui em casa, gente, é só produto Ypê.” Na pia do político, a espuma ganhou lado. “Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo”, engatou, antes de convocar os seguidores a defender a empresa, notória apoiadora de Jair Bolsonaro. “Vamos aos supermercados, vamos comprar produtos Ypê. Vamos mostrar a nossa força.”

A convocação não tardou a surtir efeito. No fim de semana, bolsonaristas inundaram as redes com suas próprias versões. Tomaram banho, beberam detergente, higienizaram o frango do almoço. Maurício Valverde foi um deles. Descreve-se como policial, pai dedicado, conservador e cristão, que vive “a extraordinária vida de um homem comum”. No Instagram, reproduziu o vídeo de um sujeito que descobriu mil e uma utilidades para o produto. O destemido tomou banho, escovou os dentes, fez do detergente uma espécie de mostarda no pão, lavou o carro e, menos importante, enxaguou a louça acumulada na pia. Valverde acrescentou um comentário: “Eu ao saber que a Ypê apoia Bolsonaro”.

As fotos do maquinário revelam a falta de higiene na fábrica. Os agentes sanitários viram risco à saúde, a turma, perseguição

Esse talvez seja outro detalhe curioso da história. Muita gente só soube agora, em meio ao imbróglio do detergente, que os irmãos Waldir, Jorge e Ricardo Beira, responsáveis pela Química Amparo, dona da marca Ypê, doaram perto de 1,5 milhão de reais à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022.

Memes também passaram a circular aos montes, satirizando a situação. Em um vídeo produzido por Inteligência Artificial, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro aparece dando banho em Bolsonaro com detergente Ypê. A piada não surgiu do nada. Poucos dias antes de o caso ganhar as redes, Michelle havia publicado um texto choroso a respeito dos cuidados com o marido, em prisão domiciliar. “Talvez eu não tenha, ao meu lado, um companheiro que um dia cuide de mim assim, que me dê banho, seque minhas pernas, me ajude a vestir o pijama, cuide do meu cabelo para que eu não me deite com ele molhado”, escreveu.

A ex-primeira-dama fez questão de mergulhar na espuma ideológica em torno da marca. Não confirmou se tem dado banho com detergente em Bolsonaro, mas apareceu nos stories do Instagram com o produto, acompanhado da legenda “Por aqui só usamos Ypê”.

O empresário Luciano Hang também surfou a onda. Em vídeo publicado no Instagram, dançou diante da pia, enquanto adaptava um velho samba: “Lava louça todo dia, o Ypê é minha companhia”. Também assumidamente bolsonarista, Helder Oliver, influenciador com mais de 30 mil seguidores que dedica boa parte de seus vídeos a defender a extrema-direita e atacar o presidente Lula, gravou em um supermercado a busca minuciosa por bactérias ou por consumidores doentes. Entre palavrões dirigidos a petistas, afirmou que tudo não passa de perseguição política contra uma empresa “que não gosta deles”. E avisou: “Não quero saber se incha, maltrata ou mata. Eu vou comprar e que se dane o Minuano”.

Lavar louça é o de menos. Dá para tomar banho e rechear o pão

Essa parte, caro leitor, merece esclarecimento. O influenciador de extrema-direita não se referia, obviamente, a este humilde jornalista, autor destas linhas, que, por acaso, também carrega Minuano no sobrenome. E antes que algum conspirador levante suspeitas sobre a minha imparcialidade, esclareço: não tenho qualquer ligação com a marca concorrente. Quiçá não baste. Se neste Brasil polarizado até detergente perdeu a neutralidade, imagine eu.

Nikolas Ferreira talvez seja o mentor por trás das ideias de Oliver. Após incentivar o boicote à marca de chinelos Havaianas, o deputado do PL mira agora na concorrente da Ypê, a marca Minuano, que, segundo ele, teria motivado a decisão da Anvisa.

Ao alardear nas redes que a Minuano e a JBS têm ligação direta, por integrarem o mesmo grupo empresarial, a J&F, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, Ferreira insinua: “É só a ponta do iceberg”.

O senador Ciro Nogueira, líder do PP, até recentemente cotado para vice na chapa de Flávio Bolsonaro, só tem a agradecer. Enquanto bolsonaristas comem, bebem e se lavam com Ypê, o escândalo do Banco Master, que tem Nogueira e outros tantos bolsonaristas no centro, escorre pelo ralo. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A nova cloroquina’

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