Economia
Ciro Nogueira reapresenta proposta que entrou na mira da PF no Caso Master
Conhecida como ’emenda Master’, a matéria eleva o teto do FGC
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) protocolou nesta terça-feira 12 um projeto de lei complementar para aumentar de 250 mil para 1 milhão de reais o teto do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC. A decisão ocorre cinco dias depois de o ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL) ser alvo da Polícia Federal em uma operação contra o escândalo liderado pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Um dos elementos reunidos pela PF contra Ciro era exatamente uma emenda apresentada por ele em 2024 para elevar o limite do FGC a 1 milhão de reais. Seria uma medida potencialmente destrutiva para o fundo, mas positiva para o Master.
Segundo a PF, o conteúdo da proposta foi elaborado pela própria assessoria do Master, encaminhado a Vorcaro, impresso e entregue em um envelope endereçado a “Ciro”, no endereço residencial do senador.
A polícia informou também que o teor da versão entregue foi “reproduzido de forma integral pelo parlamentar” e que Vorcaro declarou, logo após a publicação da emenda, que o ato legislativo “saiu exatamente como mandei”. Ato contínuo, interlocutores do banco registraram que a medida “sextuplicaria” o negócio do Master e provocaria uma “hecatombe” no mercado.
Em seu novo projeto, Ciro também defende que o Conselho Monetário Nacional revise no mínimo a cada quatro anos o teto do FGC, “observada a preservação do poder real de compra da garantia, podendo ser elevado a qualquer tempo em função da evolução do Sistema Financeiro Nacional e da suficiência patrimonial do Fundo”.
O passo a passo da ’emenda Master’
Ciro protocolou em 13 de agosto de 2024 uma emenda — sugestão de alteração no texto — à PEC que busca turbinar a autonomia do Banco Central. A ideia do senador era elevar de 250 mil para 1 milhão de reais por CPF ou CNPJ o montante coberto pelo FGC. O plano, contudo, não prosperou. Leia o documento na íntegra.
Na justificativa, o senador escreveu que sua sugestão “demonstra seriedade nacional de equiparar o valor da moeda (moeda nacional vs. moeda estrangeira) e a segurança dos investimentos”, em uma comparação com o que ocorre nos Estados Unidos.
Uma estratégia reconhecida do Master em sua ascensão meteórica envolvia oferecer rendimentos acima da média da concorrência, com a garantia do FGC.
Não à toa, em uma conversa via WhatsApp com a então namorada, Vorcaro afirmou: “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes! Está todo mundo louco. Se fosse filme não teria tantos desdobramentos loucos”.
O banqueiro celebrou a emenda menos de duas horas depois de o senador apresentá-la.
O FGC é uma espécie de seguro para o investidor: se o banco no qual você aportou recursos quebrar, poderá reaver seu dinheiro, respeitado o teto que Ciro buscava esticar. Os próprios bancos são responsáveis por financiar o fundo, com depósitos mensais.
A emenda de Ciro Nogueira seria profundamente negativa para a saúde do FGC, afirmam especialistas consultados por CartaCapital. Segundo Giuliano Contento, professor da Universidade Estadual de Campinas (SP), elevar excessivamente a cobertura reforçaria um clássico risco das finanças: os ganhos seguem privados em períodos de expansão, enquanto as potenciais perdas são “socializadas” por mecanismos coletivos do sistema financeiro.
O esgarçamento do teto, avalia, poderia incentivar instituições financeiras a adotar estratégias mais agressivas de captação, uma vez que uma parcela muito maior dos aportes estaria protegida por um mecanismo coletivo. Do lado dos investidores, diminuiria o incentivo para avaliar a solidez das instituições antes de aplicar dinheiro.
Economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, Gustavo Cavarzan adverte que o reajuste para 1 milhão de reais no FGC também agravaria os desfalques no fundo e criaria incentivos para futuros esquemas semelhantes ao do Master.
O FGC surgiu para fazer frente a cenários excepcionais no sistema bancário, explicou Cavarzan, mas servia ao Master como peça de propaganda para vender CDBs arriscados e sem transparência. Era, ao fim e ao cabo, uma garantia. “Se a cobertura aumentasse para 1 milhão de reais, esse desvirtuamento de finalidade do FGC poderia ser utilizado em escala ampliada, causando um rombo ainda maior.”
Segundo ele, a recomposição do fundo após o baque provocado por Vorcaro e companhia se traduzirá em aumento de juros e spreads bancários, devido à antecipação de parcelas por parte das instituições financeiras e ao aumento de alíquotas de contribuição — as quais, de acordo com o economista, impactarão os clientes finais.
Em nota, a defesa de Ciro Nogueira afirmou repudiar “qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. Disse também reiterar “o comprometimento do senador em contribuir com a Justiça, a fim de esclarecer que não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados, colocando-se à disposição para esclarecimentos”.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Relator fecha as portas para nova versão da emenda de Ciro Nogueira que entrou na mira da PF
Por Leonardo Miazzo
PL ainda quer Ciro Nogueira no palanque de Flávio Bolsonaro
Por CartaCapital
Reunião com Trump, Desenrola 2.0 e investigação sobre Ciro Nogueira dão fôlego ao governo
Por Josué Medeiros



