Aldo Fornazieri

Cientista político, autor de 'Liderança e Poder'

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Sobre a guerra

Há diferenças entre os conflitos diretos e as intervenções militares. Sob essa ótica, insisto: os EUA não vencem uma contenda desde 1945

Sobre a guerra
Sobre a guerra
Israel ampliou a guerra no Oriente Médio e passou a atacar o Líbano. Na foto, um bombardeio ao sul de Beirute, a capital do país. Foto: AFP
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No artigo Maus perdedores, de 15 dias atrás, afirmei que os Estados Unidos não venceram nenhum conflito depois da Segunda Guerra Mundial. Afirmação que mereceu críticas de alguns amigos e leitores. Indiquei o empate na guerra das Coreias e as derrotas no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão.

Os críticos afirmaram que os Estados Unidos venceram a guerra do Iraque e também conflitos como na ex-Iugoslávia e na Líbia. Não mencionei esses países ou outros por considerar que se tratou de intervenções militares e não de guerras. Diferentemente das Coreias, do Vietnã, do Iraque e do Afeganistão, os especialistas consideram que na ex-Iugoslávia aconteceu, entre 1991 e 2001, um conjunto de guerras civis e de independência com uma intervenção militar estrangeira efetivada pela Otan, com a participação dos Estados Unidos. Na Líbia, no contexto da derrubada de Muammar Kadhafi, também aconteceu uma guerra civil com intervenção militar externa.

Essa diferenciação se justifica porque os conceitos de guerra e de intervenção militar são distintos em se tratando de relações entre Estados. A guerra se define por um conflito armado, geralmente declarado, e organizado entre Estados. Nas guerras há o uso de contingentes militares significativos e de recursos em armas com grande poder destrutivo. O objetivo consiste em derrotar o inimigo, visando a rendição ou um acordo de paz que lhes seja desvantajoso.

A intervenção militar caracteriza-se também pelo uso de força de um país ou grupo de países em território de outro para resolver conflitos civis, crises e para conduzir o desfecho político em determinada direção ou mediar uma solução negociada. Na guerra, o objetivo consiste em infringir pesadas perdas militares e de infraestrutura ao inimigo. Na intervenção, o objetivo é mais limitado e localizado.

Não há dúvida de que na guerra das Coreias ocorreu um empate, sem vencedores definidos. Há acordo também de que no Vietnã e no Afeganistão os norte-americanos saíram derrotados. As observações críticas se referiram à afirmação de que os Estados Unidos saíram derrotados também no Iraque. Essa controvérsia remete à análise do conceito de natureza da guerra.

Quando se discute a natureza da guerra, a primeira polêmica diz respeito a se ela é inata à natureza humana ou algo artificial, imbricada com a existência do Estado. Nos dois grupos existem, no entanto, estudiosos e analistas que sustentam que, a partir do surgimento das cidades-Estados, impérios antigos e dos Estados modernos, a guerra tornou-se política, ou seja, assumiu uma natureza política.

O principal teórico, na modernidade, que sustenta a natureza política da guerra é, sem dúvida, Carl von Clausewitz. Não que a guerra se reduza à determinação política, mas este é o aspecto preeminente. Para ele, “a guerra não é meramente um ato político, mas verdadeiramente um instrumento político, uma continuação do intercâmbio político, conduzido por outros meios”. Resultou dessa afirmação a famosa máxima de que a guerra é a continuidade da política por outros meios.

O ponto de partida do autor de Da ­Guerra é que os conflitos são eventos entre Estados. Assim, a guerra não pode ser pensada como algo autônomo, de natureza militar, mas sempre como um instrumento da política. “A política permeará todas as operações militares e terá uma influência contínua sobre elas”, diz. No fim do século XX e início do século XXI, vários teóricos afirmaram a superação do pensamento de Clausewitz, mas o colapso da Ordem Internacional e do multilateralismo reafirmou com contundência as suas teses.

Dessa forma, o critério de julgamento último de uma guerra é político, não militar, embora o aspecto militar deva ser considerado. Os Estados Unidos alcançaram uma rápida vitória militar na guerra contra o Iraque, mas hoje há um amplo reconhecimento de que fracassaram nos objetivos políticos.

Os objetivos estratégicos planejados não foram alcançados: estabelecimento de uma democracia estável, neutralização do Irã, segurança e estabilidade regional e eliminação das armas de destruição em massa, justificativa falsa para a incursão. O Iraque hoje é política e militarmente instável, com o crescimento da influência do Irã. Além dos altos custos humanos e materiais do conflito, houve uma gestão ineficiente da reconstrução, uma desestruturação do Estado, uma dissolução do exército e o surgimento de grupos de resistência e insurgentes. A reputação internacional dos Estados Unidos foi fortemente abalada.

As conclusões sobre o desfecho da guerra do Iraque apontam para os limites do poder militar para promover mudanças políticas e sociais. Por estas e outras razões, a guerra do Iraque é ­computada como fracasso, uma derrota dos Estados Unidos. •

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sobre a guerra’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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