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Maus perdedores
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA insistem na força bruta e acumulam derrotas
Donald Trump sempre exalta o poderio dos EUA e classifica seus inimigos como perdedores. Já chamou os iranianos de loucos, bastardos e animais. Se tivesse senso crítico, perceberia que seu próprio país carrega um vexatório histórico de derrotas militares. Desde a Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos não venceram nenhuma guerra, mesmo com as tropas mais bem equipadas do planeta.
Na guerra das Coreias, os EUA não perderam nem venceram. Há um consenso, entre os especialistas, de que saíram derrotados do Vietnã. Não sabiam como travar um conflito não convencional. Os vietnamitas adotaram uma estratégia de desgaste, usando táticas de guerrilha, com emboscadas e armadilhas, contrabalançando o poderio dos norte-americanos.
Os vietnamitas tinham conhecimento do terreno, apoio popular e determinação política para se defender das potências agressoras. A trilha “Ho Chi Min” garantiu apoio logístico e abastecimento contínuo de armas e recursos do Norte para o Sul. As bandeiras da resistência e da unificação deram aos nativos grande vantagem, implicando desmoralização das tropas norte-americanas, que se retiraram em 1973.
Houve também uma humilhante e desmoralizadora retirada no Afeganistão em 2021, após 20 anos de guerra. O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, reconheceu que a campanha “foi um fracasso estratégico”, com o custo de mais de 2 trilhões de dólares e 5 mil norte-americanos mortos. A saída caótica de Cabul foi marcada pelo desespero, lembrando a queda de Saigon, no Vietnã.
No Iraque, os EUA travaram uma guerra convencional motivada pela mentirosa alegação de haver, por lá, “armas de destruição em massa”. Elas jamais foram encontradas. Sadam Hussein foi deposto, mas os norte-americanos saíram politicamente derrotados. Os EUA não conseguiram constituir um governo “democrático, estável e alinhado”, resultando em um caos interno que persiste até hoje.
Com o passar do tempo, o custo da intervenção ultrapassou 6 trilhões de dólares. Sem compreender a estrutura social e cultural iraquiana, a principal falha estratégica consistiu em não ter um planejamento pós-ocupação. O Iraque continua instável, com insurgências civis e crescente influência do Irã.
Além das evidências históricas, a tese de que os EUA são militarmente incompetentes leva em conta suas capacidades tecnológicas e financeiras. O país tem a maior receita de defesa do mundo, superando a soma dos orçamentos de todos as outras nações. Tem cerca de 800 bases militares espalhadas pelo planeta e uma capacidade ímpar de projeção de poder por porta-aviões e outros equipamentos.
A Heritage Foundation sustenta que a prontidão das forças norte-americanas é fraca e marginal, com dificuldade de vencer conflitos regionais importantes e, simultaneamente, manter a presença global. O esgotamento de estoques de armas é recorrente e vem se manifestando agora, contra o Irã.
O princípio orientador das forças armadas norte-americanas é o do uso da força bruta em detrimento da inteligência. A síntese desse paradoxo se expressa na afirmação: “Excelência operacional e incompetência estratégica”. No governo Trump, essa verdade encontrou sua plenitude.
No livro The Cost of Loyalty: Dishonesty, Hubris, and Failure in the U.S. Military (Bloomsbury, 2020), Tim Bakken faz uma crítica devastadora às forças armadas dos EUA. Os gastos militares são absurdos, a presença em 800 bases espalhadas por 70 países é injustificável e esse poder é sustentado por uma sociedade fechada e por um princípio de lealdade que gera derrotas, incompetência e massacre de inocentes. Ele propõe que as tropas norte-americanas sejam reintegradas à sociedade civil, que deve controlá-las.
No fim de março, Tobin Harshaw, editor sênior da Bloomberg Opinion, publicou um artigo resgatando um livro de 1976 de Norman Dixon, intitulado A Psicologia da Incompetência dos Militares, onde são analisados grandes desastres em campos de batalha da história britânica. A obra mostra que eles seguiram um padrão consistente e repetitivo de decisões ruins.Os homens que decidiam sobre as guerras tinham duas características: acreditavam que ela se resume à força bruta, não à inteligência, e eram anti-intelectuais radicais, contrários à educação acadêmica.
Pete Hegseth, atual secretário da Guerra dos EUA, e Trump têm essas características. São dois lunáticos, misóginos, egocêntricos, fanáticos, ignorantes, sem experiência de Estado e sem conhecimento de história política e militar. Hegseth sustenta que a campanha contra o Irã é uma cruzada, uma guerra santa. Ele associa o conflito ao Armagedon, ao fim dos tempos e ao retorno de Jesus. O grande perigo no momento é que o maior poderio militar do planeta está sob o comando de pessoas enlouquecidas. •
Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Maus perdedores’
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