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Os números do Desenrola
A nova etapa do programa prevê beneficiar mais de 20 milhões de devedores
O governo federal lançou na segunda-feira 4 o Novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas voltado a aliviar o orçamento de famílias, estudantes, agricultores familiares, MEIs e micro e pequenas empresas. A iniciativa mira principalmente devedores com renda de até cinco salários mínimos, ou 8.105 reais, com débitos atrasados em modalidades como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado. O programa também inclui frentes específicas para renegociação do Fies, do crédito consignado e de dívidas rurais e empresariais.
A projeção divulgada pelo governo e por analistas é beneficiar até 20 milhões de brasileiros no Desenrola Famílias. No Fies, a meta é atender mais de 1 milhão de estudantes. No Desenrola Rural, a nova etapa pode chegar a mais de 800 mil agricultores, somando em torno de 1,3 milhão de beneficiados quando considerados os produtores já atendidos. No caso das empresas, a Casa Civil informa que o Desenrola Empresas poderá beneficiar mais de 2 milhões de negócios, por meio de mudanças em linhas como ProCred e Pronampe.
O programa prevê descontos de 30% a 90%, juros máximos de 1,99% ao mês, prazo de até 48 meses e possibilidade de uso de parte do saldo do Fundo de Garantia para abatimento de dívidas. A regra permite utilizar 20% do saldo do FGTS ou até mil reais, o que for maior, com teto estimado em torno de 8,2 bilhões de reais para saques no programa. A renegociação mira um mercado potencial elevado de dívidas caras, que pode chegar a 100 bilhões de reais, mas o valor efetivamente renegociado dependerá da adesão de consumidores, empresas e instituições financeiras.
Varejo em alta
As últimas leituras do IAV-IDV, Índice Antecedente de Vendas do Instituto para Desenvolvimento do Varejo, mostram crescimento, ainda que em ritmo moderado. O índice registrou alta nominal em torno de 2% a 3% nas vendas em fevereiro, na comparação anual, e projeta expansão mais robusta para os meses seguintes, com avanços próximos a 7% em março e taxas positivas, embora mais contidas, em abril e maio. Esse desenho indica um setor que segue em recuperação lenta, sem colapso de demanda, mas pressionado por inflação, crédito caro e endividamento das famílias. O cenário é de continuidade, não de euforia. O IAV-IDV é o instrumento para antecipar em cerca de 30 dias o comportamento do comércio varejista a partir de dados de faturamento de grandes redes associadas. Essas empresas representam uma fatia relevante do varejo formal e os números são ponderados com base na estrutura da pesquisa oficial do IBGE, o que amplia a aderência do indicador à realidade do setor.
Bola da vez
Analistas veem o Brasil atravessando um dos períodos mais favoráveis da década para o capital estrangeiro, pela combinação de juros reais elevados, Bolsa ainda subvalorizada e um ambiente global que empurra recursos aos emergentes. Relatórios de bancos como JP Morgan e Bank of America destacam que investidores buscam diversificação fora dos Estados Unidos e enxergam o País como “novo ouro” entre emergentes, graças à liquidez do mercado, exposição a commodities e perspectiva de o PIB recolocar o Brasil entre as dez maiores economias do mundo. Os números sustentam o discurso. O investimento estrangeiro direto somou 84,1 bilhões de dólares entre janeiro e novembro de 2025, maior nível em dez anos, e fechou o ano em cerca de 77 bilhões de dólares, alta sobre 2024. Em janeiro último, as entradas chegaram a 8,2 bilhões de dólares, 22% acima de um ano antes. Na Bolsa, estrangeiros alocaram dezenas de bilhões em ações desde 2025, ajudando o Ibovespa a renovar recordes e respondendo por mais da metade do volume negociado.
Adeus, ursinhos
Dona dos icônicos “ursinhos de ouro”, a alemã Haribo vai encerrar a produção no Brasil e fechar a fábrica em Bauru, interior de São Paulo, única unidade industrial da marca na América Latina. Fundada em 1920, em Bonn, a empresa é hoje um dos maiores grupos de balas de gelatina do mundo, com presença em cerca de 120 países, 16 fábricas e mais de 7 mil funcionários globalmente. No Brasil, a operação fabril foi inaugurada em 2016, com a estratégia de abastecer o mercado local e exportar para a região. A companhia confirmou que a decisão é definitiva e deve afetar perto de 150 trabalhadores, com a planta operando apenas até julho, dentro de um cronograma de desmobilização. Oficialmente, a Haribo não detalhou razões econômicas, mas informou que seguirá atendendo o mercado brasileiro por meio de estoques e de um novo planejamento comercial, o que indica migração para um modelo baseado em importação. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os números do Desenrola’
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