Pantagruélicas
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Pantagruélicas
O Estreito de Ormuz e o prato do brasileiro
O impasse do conflito no Irã ameaça o suprimento global de fertilizantes, expondo a dependência brasileira de importações e a urgência de solucionar o alto custo do gás natural doméstico
Em 2025, as importações brasileiras de fertilizantes bateram recorde e chegaram a 45,5 milhões de toneladas, com as compras lideradas por produtores de Mato Grosso, Paraná e São Paulo. Entre os principais produtos importados estão milhares de sacos de ureia. Dentro deles, nitrogênio, o que permite que o arroz, o milho, a cana e o feijão tornem o Brasil líder mundial na agroenergia e um dos maiores importadores de fertilizantes do planeta. O nitrogênio compõe 78% da atmosfera. Está em toda parte e, ao mesmo tempo, inacessível às plantas, que não conseguem absorvê-lo diretamente do ar.
A guerra no Irã poderá provocar aumento de preços em vários itens e aprofundar as desigualdades sobre a alimentação no mundo. O conflito, que se arrasta há pouco mais de dois meses, expõe a fragilidade da cadeia mundial de fertilizantes: 40% das exportações mundiais de ureia, 30% de amônia e 25% de fosfatos passam pelo Estreito de Ormuz, por onde circula 20% do petróleo e do gás natural.
A aplicação de ureia, amônia e fosfatos na agricultura moderna é fundamental para suprir os três macronutrientes primários das plantas: Nitrogênio (N), Fósforo (P) e Potássio (K). O Brasil é um dos maiores produtores de agroenergia no mundo, mas é dependente da importação de fertilizantes: 85% do que usa para enriquecer o solo vem de fora.
No passado, o País gastou mais de 15 bilhões de dólares em compras desses produtos. O Oriente Médio respondeu por 15% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil em 2025. A demanda tem sido alta: entre 2014 e 2023, tem crescido 3,8% em média ao ano no Brasil, bem superior à taxa mundial de 0,8%, segundo dados da International Fertilizer Association (IFA).
Os efeitos nas feiras e nas gôndolas ainda não foram sentidos no País porque boa parte das compras de fertilizantes foi feita antes do conflito. A safra de cana-de-açúcar, iniciada em abril, foi feita com produtos comprados em boa parte no fim do ano passado. Mas muitos países já sentem os reflexos do fechamento do Estreito de Ormuz.
O Financial Times chamou a situação atual de “a iminente crise alimentar global”. O preço dos fertilizantes saltou cerca de 20% desde o início da guerra e, nos Estados Unidos, 70% dos agricultores afirmam não ter recursos para adquirir a quantidade necessária. No total, os custos de produção para os produtores de alimentos subiram 7,9% em abril. Embora leve tempo para que esses preços cheguem aos consumidores, no Reino Unido o alerta é de uma inflação de alimentos de 10% neste ano.
Os alertas são globais e podem piorar um quadro drástico. Um aviso é da World Food Program (WFP), a a maior organização humanitária do mundo e o braço da ONU voltado ao combate à fome. No ano passado, o órgão informou a ocorrência de fomes simultâneas em duas regiões: Gaza e partes do Sudão. No Sudão, o conflito civil persistente criou a maior crise de deslocamento e fome do planeta. Em Gaza, a paralisia total dos sistemas produtivos e o bloqueio de ajuda levaram a níveis inéditos de insegurança alimentar aguda.
O WFP fez um aviso recente sobre essa situação. Em todo o mundo, 45 milhões a mais de pessoas podem passar à lista de situação de fome aguda por causa de interrupções em operações de ajuda humanitária, se o conflito se arrastar até junho deste ano. Ou seja, o segundo semestre teria 345 milhões de pessoas famintas.
A conturbada geopolítica internacional, que ainda contempla a guerra entre Ucrânia e Rússia, se soma à expectativa da proximidade de El Niño, fenômeno climático que aquece temporariamente o planeta a cada poucos anos e gera um ciclo de secas e inundações em escala global. Em recente matéria, a britânica The Economist destaca que, embora os efeitos mais amenos de El Niño fora dos trópicos possam beneficiar os agricultores nessas regiões, em locais mais pobres as consequências são, com frequência, nefastas. O “super” El Niño de 2015-16 causou uma queda de até dois terços na produção de safras alimentares em alguns países do sul da África. O último El Niño, em 2023-24, trouxe à região como um todo a pior seca em 100 anos. A real intensidade de El Niño neste ano não ficará clara até o verão no hemisfério norte.
Líder em produção agrícola e na importação de fertilizantes, o Brasil discute há décadas o desenvolvimento de uma cadeia interna de agroquímicos. Um dos nós é o gás natural, cujo preço baixo no Oriente Médio levou a região a atrair investimentos em petroquímicos. Desde a quebra do monopólio da Petrobras em 1997, busca-se reduzir o preço do gás natural e aumentar a sua oferta. A Petrobras reduziu sua presença na área, novas empresas chegaram, mas problemas persistem.
Em quase três décadas desde o monopólio, o setor continua nessa trajetória. Convive com duas leis de gás, uma de 2009 (segundo governo Lula), outra de 2021 (governo Jair Bolsonaro), mas os preços continuam entre os mais altos do mundo. Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que, em 2024, o preço ao consumidor industrial no Brasil foi de 18,96 dólares por MMBtu, cinco vezes superior ao dos Estados Unidos (3,75 dólares por MMBtu).
Evitar que a fome ganhe espaço no Brasil e no mundo será um dos temas urgentes. As saídas não são simples, mas se tornam ainda mais complexas com países desenvolvidos e em desenvolvimento com dívidas recordes e espaço nos orçamentos cada vez menores.
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