Política

Longe da escala 6×1, brasileiros na Europa descrevem nova relação com o trabalho

Na França, brasileiros descobrem que tempo livre também é direito, um contraste que expõe o atraso brasileiro na discussão sobre a escala 6×1

Longe da escala 6×1, brasileiros na Europa descrevem nova relação com o trabalho
Longe da escala 6×1, brasileiros na Europa descrevem nova relação com o trabalho
(Foto: Danilo Queiroz)
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Lyon, França – O debate sobre o fim da escala 6×1 no Brasil voltou à pauta, mas ainda avança lentamente. Enquanto isso, para alguns trabalhadores, esperar por uma jornada menos exaustiva deixou de parecer uma opção.

Cansados de longas jornadas, deslocamentos intermináveis e da sensação permanente de que parar é um risco, muitos brasileiros já fizeram as malas. Em comum, não mencionam apenas salários ou oportunidades: falam de tempo e da falta dele.

Após o auge da pandemia e a reabertura dos aeroportos, há cinco anos, Marcos, doutor em Ciências Biomédicas pela USP, decidiu deixar o emprego de assessor científico em uma multinacional farmacêutica em São Paulo. A rotina era um retrato do desgaste: seis dias por semana, saindo de Pirituba até o escritório na região do Ibirapuera, além de viagens frequentes para treinamentos e fiscalizações. “No Brasil, você trabalha para não ser mandado embora. Existe uma cultura de que você não pode estar cansado, não pode parar”, diz.

A mudança para a França não foi planejada como fuga, mas como oportunidade. Marcos recebeu um convite de transferência e aceitou. Hoje, atua com pesquisa e desenvolvimento em um dos maiores centros de produção de vacinas da Europa, lidando com imunizantes ainda em fase de testes e com controle de qualidade microbiológico, dos estudos clínicos à produção comercial.

A diferença na rotina é direta. Com uma jornada semanal menor e morando a poucos minutos do trabalho, ele reorganizou o cotidiano .“Aqui é libertador. Eu sinto uma paz porque sei que meu trabalho pode ter erros — e isso faz parte da função”, afirma.

Em Lyon, terceira maior cidade da França, o pesquisador dedica três dias ao lazer e à família. O domingo, segundo ele, é “literalmente sagrado”, reservado para atividades na igreja, hábito que já mantinha no Brasil, quando frequentava uma Igreja Batista na Água Branca, Zona Oeste de São Paulo.

A legislação francesa, que estabelece a jornada de 35 horas semanais, ajuda a moldar esse ritmo, mas não explica tudo. Há também práticas culturais que delimitam melhor o tempo de trabalho e o tempo de viver: comércio com horários mais restritos, regras sobre a venda de álcool em determinados períodos e até a organização escolar, como as quartas-feiras em que muitas crianças saem mais cedo da escola, impactando diretamente a rotina das famílias e dos próprios trabalhadores.

Na Alemanha e na Espanha, por exemplo, a carga horária também tende a ser menor do que no Brasil, com regras mais claras sobre descanso, férias e horas extras. Além disso, os salários mínimos são mais elevados: na França, o piso mensal gira em torno de 1 mil euros brutos, enquanto na Alemanha, calculado por hora, ultrapassa 2 mil euros em jornadas integrais, o que reduz a necessidade de múltiplos empregos ou jornadas prolongadas.

No Brasil, por outro lado, a jornada legal pode chegar a 44 horas semanais, e a escala 6×1 segue comum em diversos setores. Com um salário mínimo significativamente mais baixo e menos mecanismos efetivos de controle sobre o tempo de trabalho, a tendência é de maior sobrecarga e menor previsibilidade na rotina.

(Foto: Danilo Queiroz)

‘Sei que não sou rica aqui, mas tenho tempo e incentivo para estudar’

A acreana Gabriela chegou à França em agosto de 2024, com um visto de au pair, agora perto de vencer, e convive com incertezas sobre a renovação.

No Brasil, dividia o tempo entre aulas particulares de idiomas e turnos em redes de fast food. “Era uma conta que nunca fechava. Eu trabalhava o tempo todo e ainda assim parecia insuficiente”, lembra.

Na França, a rotina continua exigente, mas ganhou previsibilidade. Às quartas-feiras, por exemplo, Gabriela busca a criança mais cedo na escola — algo já incorporado à organização da semana. “Não vira um problema, porque o resto é equilibrado.” No tempo livre, começou a estudar terapia ABA – voltada a pacientes do espectro autista – e planeja seguir carreira na área. “Eu sei que não sou rica aqui, mas tenho tempo e incentivo para estudar. Isso muda tudo.”

Entre brasileiros na cidade, há também quem mantenha vínculos profissionais com o Brasil, trabalhando remotamente, e estudantes que conciliam cursos com empregos de meio período. Em comum, aparece a percepção de que o descanso deixou de ser um intervalo improvável e passou a fazer parte legítima da rotina.

De Brasília, o assistente educacional Daniel também reorganizou a própria vida a partir dessa lógica. Antes de chegar à França, passou por São Paulo e pela Paraíba e diz que, mesmo fora dos grandes centros, a sensação de excesso de trabalho persistia. “Eu morava perto da praia, mas trabalhava muito para ter o lazer que eu queria.”

Há dez anos na Europa, após uma breve passagem pela Suíça, ele afirma que ainda se surpreende com o contraste. “Eu não consigo acreditar que no Brasil as pessoas achem saudável trabalhar seis dias por semana. Isso transforma o nosso corpo em apenas trabalho.” Na França, sua rotina gira em torno de 26 horas semanais, com as sextas-feiras livres. “Eu não lembro a última vez que trabalhei mais de quatro dias por semana. Não é só descanso, é otimização. Eu tenho tempo para estudar, viajar, não fazer nada, que também é importante.”

Daniel reconhece as diferenças de custo de vida e as dificuldades iniciais. “No começo, em muitas cidades da França, tive dias em que não conseguia pagar todas as contas. Mas isso passou. Hoje não vivo com muito, mas vivo com o suficiente.” Para ele, essa é uma mudança difícil de imaginar no Brasil: “A gente não consegue nem pensar que dá para viver com o básico.”

Se, para alguns, a mudança está ligada à busca por equilíbrio, para outros ela passa por estratégia financeira, ainda que cercada de contradições. Samuel chegou a Lyon influenciado pela família, que atua com serviços automotivos e decidiu dividir as operações entre Brasil e França. “Não vou mentir: nunca foi um sonho morar aqui”, diz.

Ao lado do pai, da mãe, de um irmão e de um tio, ele mantém o negócio ativo nos dois países. O trabalho garante demanda constante, mas o ritmo oscila. “No verão, as pessoas viajam, então diminui. No Brasil também sempre tem serviço.” A principal diferença, segundo ele, não está apenas no volume, mas na pressão. “Aqui, a gente não tem cobrança externa, porque trabalha por conta. Mas existe uma cobrança interna, como eu já tinha no Brasil.”

Apesar da estabilidade financeira, a adaptação não é simples. “Nem sempre o dinheiro compensa. A cultura faz falta, o calor das pessoas.” Ele relata que já viu casos próximos de brasileiros que desistiram, mesmo ganhando em euro. “Soube de um rapaz que trabalhava em uma empresa parceira do meu pai e decidiu vender o celular e voltar para o Brasil. A distância da família pesou mais.”

Para quem nasceu e cresceu na França, a lógica de trabalho brasileira causa estranhamento. Professora em um colégio primário em Villeurbanne, cidade vizinha a Lyon, Delphine considera a jornada de 35 horas semanais um equilíbrio suficiente. “Eu até gostaria de trabalhar menos, mas sei que meu salário é proporcional”, afirma.

Ao ser questionada sobre a possibilidade de ampliar essa carga, a reação é imediata: “Não consigo imaginar dar mais cinco ou dez horas da minha vida para o trabalho.” A hipótese de se mudar para o Brasil também é descartada diante da perspectiva de jornadas mais longas. Para ela, o tempo livre não é um benefício, é parte essencial da vida.

Quem também observa o contexto brasileiro com estranhamento é Mahdi, estudante de Psicologia na Universidade de Lyon. Recentemente aprovado para um intercâmbio na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele vem economizando há cerca de um ano, desde que deixou o Marrocos para estudar na França.

Para se manter, Mahdi trabalha em um sistema conhecido como “missions”: candidaturas pontuais para trabalhos de curta duração, comuns entre estudantes. “O dirham marroquino vale menos que o real, que por sua vez vale menos que o euro. Por isso, decidi trabalhar uma ou duas vezes por semana, mesmo que isso afete um pouco meus estudos”, explica. Em geral, são jornadas curtas, em atividades como venda de alimentos e bebidas em estádios, cuidado de animais ou recepção em eventos e espetáculos.

Enquanto isso, no Brasil, o fim da escala 6×1 entrou em uma fase mais concreta de disputa no Congresso. Na Câmara, duas PECs que reduzem a jornada para 36 horas semanais já tiveram a admissibilidade aprovada na CCJ e passaram a ser analisadas por uma comissão especial instalada em 29 de abril de 2026.

Em paralelo, o governo Lula enviou ao Congresso o PL 1.838/2026, com urgência constitucional, propondo jornada máxima de 40 horas semanais, dois dias de descanso remunerado e proibição de redução salarial.

No Senado, a PEC 148/2015, que também prevê redução gradual da jornada de 44 para 36 horas, já passou pela CCJ e aguarda votação em plenário.

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