Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Na cozinha com Virginia Woolf
Um boeuf en daube preparado por três dias, uma mesa reunida pela última vez e os mortos da Primeira Guerra Mundial marcam ‘Ao Farol’, um dos principais romances de Virginia Woolf, que morreu há 85 anos
A receita do prato era de família. Tinha passado de avó para neta. Era francesa — ou melhor, tinha de ser. Na visão da matriarca, o que se passava por culinária na Inglaterra no início do século XX era uma abominação, qualificada como “assar a carne até que ficasse como couro”. Era a obra-prima de Mildred, a empregada da família Ramsay. Levava três dias para ficar pronta. Exigia sincronia: do cozimento perfeito do ensopado de carne a que todos estivessem presentes quando a travessa marrom de barro chegasse à mesa e fosse descoberta.
E, justamente naquela noite, os convidados haviam saído por horas, chegado tarde. O prato podia estar inteiramente arruinado. A aflição só cessou quando o aroma de azeitonas, do azeite e do caldo da carne subiu da travessa marrom enquanto sua tampa era retirada.
Quando o boeuf en daube (um ensopado de carne à maneira provençal) foi servido aos dez integrantes da família Ramsay e seus convidados da casa de verão nas ilhas da Escócia, Mrs. Ramsay respirou aliviada. Sentiu-se em paz. O sucesso sinalizava que ela tinha conseguido, com perfeição, unir todos à mesa e celebrar o noivado de dois convidados. Em um fluxo interno de consciência, Virginia Woolf ressaltou a cena com o prato em maiúsculo e entre parêntesis: “(o BOEUF EN DAUBE estava um triunfo)”.
É o único momento em que todos os personagens estão juntos no livro Ao Farol, considerado pelos críticos como um dos mais autobiográficos da autora. Mrs. Ramsay serve o prato, ouve a conversa e pela primeira vez relaxa. Observa o número gravado no relógio do marido: a raiz quadrada de 1.253. A banalidade do momento prevalece sobre as preocupações. A emoção de Mrs. Ramsay contrasta com a rigidez do marido.
Em uma passagem, Lily Briscoe, pintora e uma das convidadas dos Ramsays, pergunta a Andrew Ramsay o que o pai dele faz. “Pense em uma mesa de cozinha quando você não está lá”. Enquanto Mrs. Ramsay se esforça para que a mesa da cozinha seja o centro de reunião, o marido se dedica à abstração de uma mesa vazia.
Na segunda parte do livro, o foco é a casa, que fica abandonada por dez anos pelos Ramsays. Apenas uma empregada fica ali para revirar a poeira. Não é desleixo. O mundo atravessou a primeira grande guerra. E os mortos chegam entre colchetes, como telegramas às famílias:
[Sr. Ramsay, cambaleando por um corredor em uma manhã escura, estendeu os braços; mas, tendo Mrs. Ramsay morrido subitamente na noite anterior, seus braços, embora estendidos, permaneceram vazios.]
[Prue Ramsay morreu naquele verão de alguma enfermidade relacionada ao parto, o que foi de fato uma tragédia, diziam as pessoas; tudo, diziam elas, prometia tão bem.]
[Uma granada explodiu. Vinte ou trinta rapazes foram implodidos na França, entre eles Andrew Ramsay, cuja morte, mercenariamente, foi instantânea.]
Os colchetes registram a morte sem dramatizá-la. Talvez porque é o que a guerra faz com os mortos: transforma todos em notas de rodapé.
Na terceira parte do livro, dez anos depois do jantar, a pintora Lily Briscoe volta à casa e tenta terminar o quadro que não havia conseguido concluir antes da guerra. Enquanto pensa no ocorrido nesse intervalo de tempo, questiona-se: “Qual é o sentido da vida? Era apenas isso — uma pergunta simples; uma que tendia a se fechar sobre alguém com o passar dos anos. A grande revelação nunca viera. Em vez disso, havia pequenos milagres diários, iluminações, fósforos riscados inesperadamente no escuro.”
Virginia Woolf terminou o livro em 1927. Em março de 1941, com a Segunda Guerra destruindo Londres e o manuscrito de seu último romance recém-entregue ao editor, escreveu ao marido, Leonard. Voltava a não se se sentir bem e conviver com os fantasmas que a tinham levado a enfrentar depressões e internações. “Sinto que não podemos passar por outro daqueles tempos terríveis. Começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Você me deu a maior felicidade possível.”
Saiu de casa, foi até o rio Ouse, encheu os bolsos de pedras. Leonard escreveu a Vita Sackville-West, amiga e que tinha tido um romance com Virginia: “Ela tem estado realmente muito doente nestas últimas semanas e estava aterrorizada com a possibilidade de que estivesse enlouquecendo novamente. Foi, suponho, a tensão da guerra e a finalização de seu livro; ela não conseguia descansar nem comer. Hoje ela saiu para caminhar, deixando para trás uma carta dizendo que estava cometendo suicídio. Creio que ela se afogou, pois encontrei sua bengala flutuando no rio, mas não encontramos o corpo. (…) Ela passou pelo inferno nestes últimos dias.”
Tinha 59 anos. Havia escrito nove romances, volumes de ensaios e um diário de milhares de páginas em que a vida doméstica se mescla com grandes temas filosóficos.
Em Ao Farol, o prato não salvou ninguém. A guerra não faz distinções. Mas o jantar aconteceu. Todos estiveram à mesa por um momento. O boeuf en daube estava um triunfo.
Às vezes é o que resta.
***
Receita baseada no site Julia Child’s Recipes:
Ingredientes:
Para o Bouquet Garni (Sachê de temperos):
- Canela: 1 pau de canela (aprox. 7,5 cm).
- Casca de laranja: 2 tiras (cerca de 4 cm de largura por 6 cm de comprimento).
- Tomilho fresco: 2 ramos.
- Louro: 1 folha seca.
- Pimenta-do-reino: 1 colher de chá de grãos inteiros.
- Salsinha: 4 ramos frescos.
- Cravos-da-índia: 3 unidades inteiras.
- Folhas de salsão (aipo): As folhas reservadas de 1 talo.
Para o Ensopado:
- Carne bovina: aprox. 1,4 kg (3 lbs), cortada em cubos de 4 cm.
- Bacon magro: aprox. 230g (8 oz), picado em pedaços de 2,5 cm.
- Cebolas: 3 unidades fatiadas finamente.
- Cenouras: 3 unidades médias, descascadas e fatiadas em rodelas de 1,5 cm.
- Salsão (Aipo): 1 talo médio fatiado em rodelas de 1,5 cm.
- Alho: 3 dentes amassados e picados.
- Vinho tinto: 1 garrafa (750ml) de vinho tinto encorpado.
- Conhaque: 1/4 de xícara (60ml).
- Azeite de oliva extravirgem: 1/4 de xícara (60ml).
- Farinha de trigo: 1/3 de xícara.
- Caldo de carne: 3/4 de xícara (180ml).
- Azeitonas pretas (tipo Nicoise): 3/4 de xícara.
- Extrato de tomate: 1 colher de sopa.
- Sal: 1/2 colher de chá.
Para Acompanhar:
- Arroz Basmati: 1 e 1/2 xícara (ou o arroz de sua preferência).
- Salsinha fresca: 1/4 de xícara picada para decorar.
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Modo de Preparo:
- Prepare o Bouquet Garni: Coloque as cascas de laranja, a canela, o tomilho, o louro, a pimenta em grãos, os cravos, as folhas de salsão e os ramos de salsinha sobre um pedaço de morim (ou gaze limpa) e amarre bem para formar um sachê. Reserve.
- Marinar: Em um recipiente grande que não seja de alumínio, misture a carne, o salsão fatiado, o alho, as cebolas, as cenouras, o bacon e o bouquet garni. Despeje o conhaque e o vinho sobre a mistura. Cubra e leve à geladeira para marinar por cerca de 24 horas.
- Dourar a Carne: Pré-aqueça o forno a 165°C (325°F). Retire a carne da marinada e seque-a com papel toalha ou um pano de prato limpo. Em uma frigideira grande, aqueça o azeite em fogo médio. Passe os cubos de carne na farinha de trigo e frite até dourarem por todos os lados.
- Deglacear: Retire a carne da frigideira e, na mesma panela, adicione o extrato de tomate e o caldo de carne. Mexa bem, raspando o fundo da frigideira para soltar os pedaços tostados de carne.
- Cozimento (Braiser): Em uma panela que possa ir ao forno (como uma caçarola de ferro), misture o molho da frigideira, o sal, as azeitonas, a carne e toda a mistura da marinada (vegetais e vinho). Tampe a panela.
- No Forno: Leve ao forno por 2 a 3 horas, ou até que a carne esteja bem macia. Se preferir um molho mais espesso, retire a tampa da panela após as primeiras 2 horas de cozimento.
- Finalização: Prepare o arroz conforme as instruções da embalagem. Sirva o ensopado acompanhado pelo arroz e decorado com a salsinha picada
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