Justiça

Com quase 200 clássicos no período, torcida única completa 10 anos em São Paulo

Torcedores de Palmeiras, Santos, São Paulo e Corinthians são impedidos de assistir a jogos na casa do adversário; medida não impediu guerra entre as torcidas

Com quase 200 clássicos no período, torcida única completa 10 anos em São Paulo
Com quase 200 clássicos no período, torcida única completa 10 anos em São Paulo
A torcida do Palmeiras, que há 10 anos não sabe o que é ver um clássico na casa de um rival. Foto: Nelson Almeida/AFP
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A política de torcida única nos clássicos paulistas completa dez anos neste mês de abril em meio a um cenário de debate, pressões por mudança e um histórico de partidas disputadas sob restrição. Desde a adoção da medida, em abril de 2016, após episódios de violência ligados a um Palmeiras x Corinthians no Pacaembu, e anunciada à época pelo então secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, os quatro grandes clubes do estado protagonizaram 197 clássicos oficiais, quase sempre com apenas torcedores do time mandante nas arquibancadas (com duas exceções fora do estado).

O levantamento considera confrontos entre Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos desde 4 de abril de 2016 até o início de 2026 – incluindo os nove clássicos já realizados neste ano – e não contempla o dérbi campineiro entre Guarani e Ponte Preta, que também passou a adotar torcida única posteriormente.

Histórico dos confrontos

Ao longo desse período, o calendário do futebol brasileiro moldou a frequência dos encontros. A maior parte dos jogos ocorreu pelo Campeonato Brasileiro, responsável por 117 clássicos até aqui. Como a Série A mantém o formato de pontos corridos, com jogos de ida e volta entre todos os clubes, a competição garante uma base fixa anual de confrontos. Com os nove clássicos ainda a serem disputados em 2026, esse número chegará a 126 partidas ao fim da temporada.

O Campeonato Paulista aparece como o segundo principal palco das rivalidades, com 62 jogos no período. Já os torneios de mata-mata nacional e continental têm participação menor, mas ainda relevante. Foram 12 clássicos pela Copa do Brasil e cinco pela Copa Libertadores da América ao longo desses dez anos. A lista se completa com um confronto pela Supercopa do Brasil, disputada em 2024.

Apesar dos quase 200 jogos, a regra da torcida única foi praticamente absoluta. Apenas duas exceções escaparam desse padrão no período.

A primeira ocorreu no Rio de Janeiro, num contexto totalmente extraordinário. A final da Copa Libertadores de 2020, entre Palmeiras e Santos, foi disputada no Maracanã, em meio às restrições impostas pela pandemia de Covid-19, em janeiro de 2021. Embora o protocolo previsse estádio vazio, a Conmebol distribuiu ingressos a convidados, patrocinadores, dirigentes, empresários e sócios dos clubes, o que levou cerca de mil pessoas ao estádio.

A segunda exceção, a Supercopa do Brasil de 2024, entre Palmeiras e São Paulo, foi disputada no Mineirão, em Belo Horizonte, e, por se tratar de campo neutro, contou com a presença das duas torcidas nas arquibancadas sob a responsabilidade da polícia mineira.

A torcida única

Desde sua implementação, a política de torcida única não apenas foi mantida como também ampliada. Inicialmente restrita aos confrontos entre os quatro grandes paulistas, a medida passou a alcançar outros clássicos regionais ao longo dos anos. A recomendação parte do Ministério Público de São Paulo e é acatada pela Federação Paulista de Futebol a cada temporada.

A justificativa central segue sendo a segurança pública. Autoridades apontam que, antes de 2016, os clássicos paulistas estavam entre os eventos esportivos com maior índice de violência no País, especialmente nos arredores dos estádios e nos deslocamentos de torcedores. Dados divulgados nos primeiros anos após a implementação indicaram redução significativa nos incidentes graves e também no efetivo policial necessário para a realização das partidas.

Segundo o 2º Batalhão do Choque da Polícia Militar de São Paulo, houve 12 brigas de torcidas em 2018, contra 21 em 2016 – esses são os dados mais recentes.

Mesmo assim, a medida nunca deixou de ser contestada. Ao longo da última década, torcedores, dirigentes e especialistas passaram a questionar sua eficácia no combate à violência fora dos estádios e seus impactos sobre a experiência do futebol. Para muitos, a ausência da torcida visitante esvazia parte da atmosfera dos clássicos, tradicionalmente marcada pelo confronto de cores, cantos e provocações entre rivais.

A última partida com torcidas dos dois times em clássicos realizados em São Paulo foi em 3 de abril de 2016, em um Palmeiras x Corinthians no Pacaembu, em São Paulo. Na foto, a torcida do Corinthians. Foto: Sérgio Lima/AFP

Nos últimos meses, o debate ganhou novo fôlego com a atuação de grupos que defendem a revisão da política de torcida única. À frente do movimento está a Anatorg (Associação Nacional das Torcidas Organizadas), que passou a articular propostas e buscar diálogo direto com autoridades.

Representantes do grupo se reuniram recentemente com integrantes da Polícia Civil, da DRADE (Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva), do Ministério Público e da OAB. A avaliação é que, após anos de resistência, houve uma abertura inicial para discutir o tema.

A principal proposta apresentada prevê um retorno gradual das torcidas visitantes, com jogos-teste e presença limitada – cerca de 10% da capacidade dos estádios. O acesso seria controlado por cadastro prévio, com identificação dos torcedores.

O plano também aposta no uso de tecnologia, como reconhecimento facial, monitoramento por câmeras e integração com bancos de dados, para permitir a identificação de infratores e substituir o modelo atual de restrição coletiva por responsabilização individual.

Apesar do avanço nas conversas, autoridades ainda tratam o tema com cautela e avaliam que qualquer mudança deve ocorrer de forma lenta e controlada.

Guerra persiste

Mesmo após uma década de clássicos disputados com torcida única, episódios de violência entre torcedores seguem ocorrendo fora dos estádios. Em 2026, ao menos três mortes já foram registradas em confrontos ligados a brigas entre torcidas no estado de São Paulo, evidenciando que a restrição não eliminou os conflitos.

As ocorrências, em geral, acontecem em locais distantes das arenas, como estações de transporte público, ruas e pontos de encontro previamente combinados, o que reforça a ideia de que a medida atua sobre o ambiente do jogo, mas não atinge diretamente a dinâmica da violência organizada.

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