Editorial
Já vimos esse filme
Como de hábito, a repulsa à corrupção serve a interesses eleitorais e ideológicos
No teatro da indignação calculada, há quem sinta saudades do velho bordão do apresentador Boris Casoy: “É preciso passar o Brasil a limpo”. Nos jornais, sites, tevês e redes sociais, os candidatos a porta-vozes do udenismo continuam, no entanto, disponíveis. Um velho guerrilheiro contra a ditadura propôs o fechamento do Supremo Tribunal Federal. O colunista imortal acordou as vivandeiras dos quartéis. Por ele o País foi informado da “inquietação” nas Forças Armadas, desmoralizadas pela omissão ou conivência com a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro e Walter Braga Netto, com o que consideram o êxito da impunidade na Corte. É um truque enfadonho, de tão manjado, as notícias apócrifas na mídia a respeito de um suposto incômodo dos generais em momentos de crise do poder civil, sejam reais ou fabricadas. Quanto ao mal-estar nas casernas e nos clubes militares, recomendam-se gotas de Luftal.
Os ministros José Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, claro, não estão acima dos demais mortais. São servidores públicos e a análise de suas condutas pessoais está longe de representar um ataque ao STF, como ambos insinuaram em mais de uma ocasião nas últimas semanas. Felizmente, os tempos do absolutismo ficaram no passado. Luís XIV era o Estado na França, mas o Supremo não é Toffoli nem Moraes. O primeiro, sócio de um resort que recebeu investimentos de fundos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, deveria ter se declarado impedido desde o momento da chegada do processo a seu gabinete. Embora a maioria de suas decisões tenha contemplado os pedidos da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal, a insistência em manter o caso sob sua asa arrastou o tribunal para o epicentro de um escândalo que não lhe dizia respeito. No caso de Moraes, o contrato da mulher, Viviane Barci, com o Banco Master, em torno de 3 milhões de reais por mês, é exorbitante mesmo para os padrões suntuosos das butiques advocatícias brasileiras. Vorcaro, sabe-se a esta altura, era extravagante e não fazia questão de economizar com festas, mulheres, amigos e acordos comerciais. Ainda assim…
Só falta reavivar o velho bordão de Boris Casoy: “É preciso passar o Brasil a limpo”
Os fatos não explicam nem justificam, porém, a obsessão do jornalismo em mirar a Corte e relegar a segundo plano os responsáveis por avalizar, de fato, as artimanhas do Master. Moraes foi empurrado a uma situação esdrúxula. Os vazamentos seletivos e incompletos de agentes da PF a uma certa banda do jornalismo lançam suspeitas sobre o magistrado, mas não permitem à opinião pública aferir a veracidade das informações. O ministro nega ter recebido as mensagens encontradas no bloco de notas do celular de Vorcaro, uma delas pergunta se o receptor conseguiria “barrar” um certo ato, e ter frequentado a casa do banqueiro em Trancoso, na Bahia. Por meio da imprensa, os delegados, anônimos, garantem que Alexandre é Alexandre mesmo, não outro Alexandre qualquer. Fica o dito pelo não dito e inverte-se o ônus da prova. Nesse meio tempo, um festival de mensagens íntimas e gastos milionários do investigado, sem qualquer relação com os crimes sob investigação, inundam o noticiário e criam o clima de “Sodoma e Gomorra”, a sensação de falência total das instituições e a necessidade, como esbravejaria Casoy, de “passar o Brasil a limpo”.
Entretidos com o linguajar infantil do suspeito e da namorada, deixamos o principal na sombra. Quem pede a cabeça de juízes e a intervenção na Corte Suprema se esquece do básico na apuração de malfeitos de colarinho branco: seguir o dinheiro. Seria instrutivo responder uma pergunta, formulada aqui de duas maneiras. Quais atos de ofício de Toffoli e Moraes facilitaram a vida de Vorcaro? Quais decisões do STF favoreceram o banqueiro? Enquanto o jornalismo “profissional” abre mão de perseguir essas respostas, ouvem-se em Brasília os ecos da Lava Jato. Nomeado, por sorteio, relator do inquérito, o bolsonarista e “terrivelmente evangélico” André Mendonça engendra uma dobradinha com a turma do Centrão no comando da CPI do INSS e com a porção da Polícia Federal viúva da República de Curitiba. Resultado: holofotes nos ministros do Supremo e em Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República.
Sansão. Cortaram a vasta cabeleira de Vorcaro e expuseram o feito – Imagem: Polícia Penal/GOVSP
Os confrades de Vorcaro só têm a agradecer. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, esteve diversas vezes com o banqueiro. Seu filho vendeu créditos ao Reag, fundo parceiro do Master e investigado por ligações com o PCC. E o BRB, banco público distrital, aceitou comprar a instituição financeira falimentar, operação abortada pela decisão do Banco Central de liquidar o conglomerado privado. Eis o arquétipo de causa e consequência. O senador Ciro Nogueira, do PP, propôs no Congresso uma lei para ampliar o valor do fundo garantidor de crédito que cairia como luva nos interesses do “amigo de vida”. Siga o dinheiro? Governadores bolsonaristas, entre eles Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, arriscaram a aposentadoria de funcionários públicos em aplicações de alto risco do banco. Siga o dinheiro? Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha, foi o maior doador individual das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022. Follow the money? Nikolas Ferreira, fiel da Lagoinha, usou aviões do banqueiro para fazer campanha quatro anos atrás. Apesar das claras relações do dono do Master com um determinado campo político, lê-se por aí que o escândalo envolve políticos da direita e da esquerda, em igual proporção.
O uso político, eleitoral e ideológico da justa repulsa à corrupção é de triste memória. Há uma década, o País embarcou em um projeto partidário disfarçado de campanha moralista, conduzido por um juiz parcial, que destruiu a economia, gestou a extrema-direita, abriu o caminho para uma tentativa de golpe e colocou à prova o arremedo de democracia. Sobrevivemos por muito pouco. Repete-se agora a mesma aliança deletéria com os mesmos objetivos. Resta saber se, desta vez, conseguiremos superar os estragos. No fundo, sem descuidar da necessária apuração dos fatos, é “preciso passar o lavajatismo a limpo”. Antes que seja tarde. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Já vimos esse filme’
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