Pantagruélicas

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Grande sertão, 70

Na obra-prima de Guimarães Rosa, que celebra 70 anos de seu lançamento, comer e amar usam as mesmas direções 

Grande sertão, 70
Grande sertão, 70
Frases de Guimarães Rosa tomam as ruas de Andrequicé (MG). Foto: Léo Rodrigues/Agência Brasil
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Um dos maiores clássicos da literatura brasileira completa 70 anos de seu lançamento. Chegou às livrarias em maio de 1956, mas a gestação de Grande Sertão, Veredas se deu ao longo de muitos anos. Em 1945, Guimarães Rosa escreveu ao pai anunciando uma excursão pelo interior de Minas com um amigo. Médico, diplomata, já autor de Sagarana, descreveu a viagem que faria como um escritor em busca de um grande tema. 

Escreveu que iria “de cadernos abertos e lápis em punho, para anotar tudo o que possa valer”. O pitoresco, o jeito de falar dos personagens, a geografia eram coisas muito importantes para ele. Traziam vida ao texto. 

Outras viagens e destinos vieram, o hábito de anotar em cadernos ficou, assim como o desejo de trazer novos ares à literatura nacional. Em 1947, Rosa escreveu ao tio e também escritor Vicente Guimarães que pretendia fazer algo diferente com a língua portuguesa. Achava que tinha chegado a hora, por haver “empobrecimento de vocabulário, rigidez de fórmulas e formas, estratificação de lugares-comuns, como caroços num angu ralo, vulgaridade, falta de sentido de beleza”.

A solução que propunha tinha a textura de receita culinária: “É preciso refundi-la no tacho, mexendo muitas horas. Derretê-la, e trabalhá-la, em estado líquido e gasoso”. O tacho é onde se fazem doce de leite, rapadura, goiabada, a cozinha mineira de fogo lento que Rosa carregava na memória desde Cordisburgo. O frango com quiabo funcionava para o escritor como a madeleine de Proust: um atalho direto para a cozinha da mãe Chiquitinha, para a venda do pai Florduardo onde os tropeiros contavam causos. Adorava alho e pimenta na comida e detestava quando eles não estavam presentes entre os temperos.

Em 1952, veio a viagem que tanto queria fazer: conhecer o sertão de Minas participando de uma boiada, com caderno e caneta em mãos. Em maio, Rosa saiu da Fazenda Sirga, a 20 quilômetros do município de Três Marias. À sua frente seguiam 600 cabeças de gado e oito vaqueiros comandados por Manuelzão, protagonista de uma das histórias integrantes de Corpo de Baile

O percurso foi de 240 quilômetros até Araçaí, dez dias de marcha pelo sertão mineiro, dormindo em fazendas, bebendo café coado no bule sem garrafa térmica, comendo o que havia: feijão de manhã cedo, carne seca, toucinho, arroz, farinha. Em algumas fazendas, pequi. Era o que a pesquisadora Ursulina Maria Silva Santana, em tese de doutorado pela PUC-SP, chama de “cozinha de fora” — o cardápio das andanças, alimentos que não precisam de cozinha fixa, que viajam na garupa e duram dias sem estragar: mandioca, carne seca, farinha. Em contraposição, a “cozinha de dentro” era a das fazendas, feita por “mão de mulher”, o guisado lento, o frango com quiabo, o angu que Riobaldo lembrava com saudade durante as guerras. 

Manuelzão descreveria a viagem, anos depois, em depoimento ao Instituto Moreira Salles:

“João Rosa comia bem. Qualquer coisa que fizesse pra ele tava bom. No primeiro dia sofreu, porque ele tinha costume de almoçar de tarde, almoçar uma hora, uma hora e meia era o almoço. No primeiro dia que nós andou a cavalo, de manhã cedo… Ele deitava tarde e levantava tarde. No primeiro dia levantou cedo. Nós tava juntando um gado pra poder levar pra Sete Lagoas. Ele queria ajudar. Nós comia uma feijoada de manhã cedo, bebia um gole de pinga. A patroa fez um café com leite de manhã cedo, ele bebeu, comeu uns dois biscoitinhos, e não quis comer mais. Ela foi e falou comigo: ‘Leva um requeijão, que às vezes você chega na beira de uma vereda, ele resolve é comer. Vocês vão chegar aqui é tarde pra ele almoçar e aquele biscoito com aquele copinho de leite não deu pra ele não’”.

Rosa proibiu-os de chamarem-no de dr. João, mas de “João Rosa”, e queria ouvir mais do que falar. “Ele queria gente que tocasse viola, violão, contador de história. E Deus me ajudou que lá tinha uma família muito amiga e tinha uns velhos que a gente combinou com eles de ir pra lá”, relembrou-se Manuelzão.  Anotava. Cada frase ouvida, cada história recordada, cada planta – a sucupira com flor roxa e flor amarelada, a diferença entre as duas registrada na caderneta. Rosa usaria sete ao longo da viagem.

Outra parte da influência à obra do autor veio da sua juventude. Dos 10 a 22 anos, do colégio à faculdade, viveu em Belo Horizonte em um período marcado por histórias de jagunços e de violentas disputas políticas no interior de Minas Gerais. É nesse período que jornais dão notícia dos batalhões enviados pelo governo para “pacificar o sertão” e de embates locais com a Coluna Prestes no norte de Minas.

Com bolo e café frio, o que ele sempre gostava de comer ao escrever, transformou as anotações de viagens e sua experiência em um livro que, ao chegar às livrarias em 1956, não foi unanimidade. Em julho de 1956, Fernando Sabino escreveu a Clarice Lispector sobre o livro: “No princípio, dez primeiras páginas, é meio assim-assim, custa um pouco a engrenar, mas de repente a gente se embala no ritmo dele e não larga mais.” 

Clarice respondeu:

“Estou lendo o livro de Guimarães Rosa, e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente – e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade. Que mais se pode querer? Fico até aflita de tanto gostar.”

Nem todos pensaram assim. O cerne da polêmica girava em torno de suas inovações estilísticas e linguísticas, de suas “experimentações no plano da língua literária”, “criação de uma linguagem nova”, destaca o caderno de literatura do Instituto Moreira Salles sobre o escritor, publicado em 2015. Depois das divergências, veio o mergulho na redação do sertão.

A comida tem papel no livro. Em Curralinho, o jovem Riobaldo é hospedado na casa de seo Assis Wababa, comerciante de origem árabe, e come pela primeira vez pratos que nunca tinha visto: “carne moída com semente de trigo, outros guisados, recheio bom em abobrinha ou em folha de uva, e aquela moda de azedar o quiabo — supimpas iguarias.” 

A saudade que Riobaldo sente de Diadorim, anos depois, no meio das guerras, se manifesta como saudade de um prato — o frango com quiabo que aparece na mesma passagem em que Diadorim vem consolá-lo.  “A saudade minha maior era de uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abóbora d’água e caldo, um refogado de caruru com ofa de angu. Senti padecida falta do São Gregório — bem que minha vidinha lá era mestra. Diadorim notou meus males. Me disse consolo: — ‘Riobaldo, tem tempos melhores. Por ora, estamos acuados em buraco…’ Assistir com Diadorim, e ouvir uma palavrinha dele, me abastava aninhado.”

Em 16 de novembro de 1967, Rosa tomou posse na Academia Brasileira de Letras. Tinha adiado a cerimônia por quatro anos. Dizia que a emoção o mataria. Quando o momento chegou, repetiu no discurso de posse a frase dita nos anos 1920 em um enterro de um colega do curso de Medicina e que tinha ficado na memória do médico e também escritor Pedro Nava: “As pessoas não morrem, ficam encantadas.” 

Três dias depois, sofreu um enfarte fulminante. Encantou-se aos 59 anos. O livro está nas livrarias de vários países e idiomas. O sertão universalizou-se. A última palavra, depois de quase quinhentas páginas, é uma só: travessia. O romance não é sobre guerra, jagunços, um amor impossível. É sobre o que todo homem faz entre o nascimento e a morte: atravessar a vida, com fome, com medo, com saudade, sem saber para onde vai e se o diabo existe ou se foi inventado para ter com quem negociar a coragem. 

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