Justiça
As versões (e o que falta explicar) sobre as supostas conversas entre Moraes e Vorcaro
Vazamentos fragmentados atiçam a opinião pública e dificultam a compreensão geral sobre conteúdos do celular do banqueiro
Com a saída de Dias Toffoli da relatoria do Caso Master, outro ministro do Supremo Tribunal Federal assumiu — contra sua vontade — os holofotes: Alexandre de Moraes. Responsável por conduzir nos últimos anos diversas investigações sobre a trama golpista de Jair Bolsonaro (PL) e companhia, o magistrado sofre pressão para explicar supostas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro.
No fim de 2025, já havia vindo à tona um suposto contrato de 129 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa de Moraes. Segundo reportagens, o acordo previa o pagamento de 3,6 milhões de reais por mês durante três anos e tinha por objeto a prestação de serviços de assessoria e consultoria jurídica. O contrato também atribuía ao escritório uma atuação “estratégica, consultiva e contenciosa” perante o Judiciário, o Ministério Público, o Legislativo e órgãos do Executivo, como Banco Central, PGFN, Cade e Receita Federal. Em nota divulgada em dezembro, Moraes afirmou que o escritório de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central.
Mais recentemente, em meio ao bombardeio de conteúdo vazado sobre o caso, o que pesa é a divulgação fragmentada de supostas conversas entre o ministro e Vorcaro no WhatsApp.
A colunista do jornal O Globo Malu Gaspar noticiou na quinta-feira 5 as supostas mensagens. Segundo ela, Moraes e Vorcaro conversaram entre 7h19 e 20h48 de 17 de novembro de 2025, dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez, no início da investigação sobre as fraudes financeiras capitaneadas pelo Master.
Na primeira interação daquele dia, Vorcaro teria relatado ao ministro a operação para vender o banco. Moraes teria respondido com mensagens de visualização única, cujo conteúdo já não estaria mais disponível.
O material vazado indica que o empresário costumava escrever mensagens em um aplicativo de notas, “printar” o texto e enviá-lo por WhatsApp. Ainda que a mensagem pudesse ser vista apenas uma vez por seu interlocutor, porém, os arquivos de texto “printados” ficavam armazenadas no celular.
De todo o conteúdo divulgado até a manhã deste sábado 7, a suposta mensagem mais controversa de Vorcaro para Moraes teria acontecido às 17h26 daquele 17 de novembro: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. O ministro do Supremo teria respondido cinco minutos depois, também em formato de visualização única.
Moraes nega veementemente ser o autor das mensagens atribuídas a ele. Ao Globo, o gabinete do ministro disse: “O ministro Alexandre de Moraes não recebeu essas mensagens referidas na matéria. Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal.”
Depois, na noite da sexta-feira 6, a Secretaria de Comunicação do STF divulgou nota afirmando que uma análise técnica realizada nos dados de Vorcaro oferecidos à CPMI teria constatado que as mensagens de visualização única enviadas por ele em 17 de novembro não conferem com os contatos de Moraes nos arquivos apreendidos.
O comunicado sustenta que os prints das mensagens estão ligados a pastas de outros contatos de Vorcaro. “A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes.”
Pouco depois de o Supremo divulgar a nota, o jornal O Globo replicou, afirmando que a Polícia Federal teria periciado as mensagens e comprovado o envio a Moraes a partir de um software que exibe conjuntamente as mensagens e os arquivos enviados, o que viabilizaria reverter a visualização única.
De acordo com o jornal, constariam do envio das mensagens o número e o nome de Alexandre e Moraes. O número do ministro, ainda segundo o jornal, respondeu quatro vezes às interações de Vorcaro com imagens de visualização única e teria enviado emojis de aprovação à primeira e à última mensagens do banqueiro.
O relatório da PF com os registros das conversas de Vorcaro está em posse da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e da defesa do banqueiro. A CPMI do INSS, por sua vez, obteve acesso a arquivos do celular que estavam na nuvem — os diálogos de WhatsApp não compõem esse material. Ou seja, a comissão tem uma série de anotações no bloco digital, sem, porém, uma indicação clara dos destinatários.
Questionada por CartaCapital ainda na última quarta-feira 4 se divulgaria a representação da PF que baseou a mais recente etapa da Operação Compliance Zero, a assessoria de imprensa do Supremo afirmou não haver previsão. Assim, com o vazamento a conta-gotas de arquivos em posse da CPMI e de trechos de conteúdos em poder da Polícia Federal, dificulta-se a compreensão sobre a existência e o contexto dos diálogos entre Vorcaro e Moraes, além de outras tantas conversas do banqueiro, especialmente nos momentos mais decisivos de sua corrida desenfreada para tentar vender o Master e evitar a prisão.
Relator do caso desde fevereiro, o ministro do STF André Mendonça determinou, nesta sexta-feira 6, a abertura de um inquérito da PF para investigar os vazamentos de dados dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Vorcaro. A decisão acolheu um pedido da defesa do banqueiro.
“A quebra do sigilo de dados relativos à pessoa investigada não autoriza o seu desvelamento”, escreveu Mendonça. “Enseja, pela autoridade que recebeu a informação de acesso restrito, a responsabilidade pela manutenção do sigilo. Isso porque, a toda evidência, a eventual quebra de sigilo não tornam públicas as informações acessadas.”
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