Justiça
Os vazamentos do Master e a tensão no Supremo
O conteúdo dos celulares de Daniel Vorcaro, em posse da PF, da PGR e da defesa do banqueiro, continua a provocar apreensão dentro da Corte
É praticamente unânime no Supremo Tribunal Federal a preocupação com os desdobramentos do caso Banco Master. Nos bastidores da Corte, ministros demonstram apreensão não apenas com a repercussão dos vazamentos já tornados públicos, mas sobretudo com aquilo que ainda pode emergir das investigações.
A avaliação interna é de que as notícias envolvendo Moraes provocaram um impacto maior do que as acusações dirigidas a Dias Toffoli, que acabou deixando a relatoria do caso após pressão de colegas. Relutante, o ministro só abriu mão do processo depois da divulgação de que uma empresa ligada à sua família — da qual é sócio — teria vendido parte do resort Tayayá a um fundo associado ao banco.
A diferença, segundo ministros ouvidos reservadamente, estaria na gravidade potencial das suspeitas. A colunista Malu Gaspar, de O Globo, diz que anotações registradas no bloco de notas do celular de Vorcaro teriam sido enviadas ao ministro por meio de mensagem de visualização única no WhatsApphoras antes da prisão de Vorcaro, no aeroporto de Guarulhos, em novembro do ano passado. “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, diz um trecho supostamente encaminhado. O ministro, em nota distribuída pela assessoria do STF na noite de sexta-feira 6, negou ser o destinatário destas mensagens. O jornal manteve a apuração, sustentando, em nota, que as mensagens e o envio foram periciados pela Polícia Federal.
O relatório da PF com os registros das conversas de Vorcaro está em posse da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e da defesa do banqueiro. A CPMI do INSS, por sua vez, obteve acesso a arquivos do celular que estavam na nuvem — os diálogos de WhatsApp não compõem esse material. Ou seja, a comissão tem uma série de anotações no bloco digital, sem, porém, uma indicação clara dos destinatários.
Esta leva de documentos, obtidos por CartaCapital indica ao menos oito menções ao nome “Alexandre”. Em duas delas, o banqueiro diz à então namorada que iria encontrar “Alexandre Moraes” em sua residência. Também há um print da frase atribuída pelo Globo à conversa entre Vorcaro e Moraes, mas sem destinatário endereçado. Outros celulares apreendidos com Vorcaro ainda aguardam perícia.
Por isso, na avaliação de parte dos magistrados, as circunstâncias que envolvem Moraes são particularmente delicadas. A contratação de uma assessoria de comunicação por ele e por sua esposa é vista por interlocutores como sinal de preocupação com possíveis novos desdobramentos das investigações. “Ele costuma ser muito autossuficiente”, resume um aliado.
Nesta segunda 9, a advogada Viviane Barci, esposa de Moraes, falou pela primeira vez sobre os serviços prestados por seu escritório de advocacia ao Master. No fim do ano passado, havia vindo a público a existência de um contrato de 129 milhões de reais entre o banco e banca. A nota do Barci de Moraes não menciona valores, mas afirma que o escritório participou de 94 reuniões de trabalho e produzido 36 pareceres e opiniões legais durante a vigência do contrato, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando foi decretada a liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central.
Divisões internas
Moraes não perdeu, porém, os apoios que consolidou ao longo dos anos na Corte. Gilmar Mendes, Nunes Marques, Dias Toffoli e Flávio Dino mantém respaldo firme ao colega.
Em menor quórum, Edson Fachin, Cármen Lúcia e André Mendonça aparecem entre os mais críticos. Interlocutores do Supremo afirmam, sob reserva, que Mendonça aceitou assumir a relatoria do caso Master também como forma de ampliar seu capital político dentro da Corte. Internamente, o ministro conta com pouco apoio, o que pode deixá-lo isolado em decisões mais sensíveis.
Já Fachin, atual presidente do Supremo, é descrito por colegas como alguém de ‘mãos atadas’. O cargo impõe limites institucionais: cabe a ele organizar a pauta de julgamentos e distribuir processos, mas não tomar decisões mais drásticas sobre o caso. A interpretação dominante no tribunal é que eventuais investigações sobre a conduta de ministros competem à Procuradoria-Geral da República.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



