Mundo
Ambições desmedidas
Trump e Netanyahu incendeiam o paiol no Golfo Pérsico
Uma semana depois do início, no sábado 28, da guerra movida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, os líderes dos dois países agressores ainda não tinham chegado a um consenso sobre qual o motivo do conflito, tampouco sobre seus objetivos. Enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, fornecia uma explicação, Donald Trump dava outra, oposta. Segundo Rubio, Washington foi arrastado pelo parceiro preferencial para a guerra. Na versão do secretário de Estado, os norte-americanos se viram obrigados a entrar no conflito quando souberam da determinação de Tel-Aviv de atacar o Irã, que, por sua vez, retaliaria contra bases dos EUA instaladas nos demais países do Golfo Pérsico. Trump declarou, no entanto, que ele iniciou o conflito e arrastou consigo os israelenses.
Em sete dias, não apenas as causas do conflito mudaram, de maneira nebulosa. Houve uma singular mudança de objetivo, do desmantelamento do programa atômico iraniano para a mudança de regime, antes de passar pela obliteração das capacidades militares iranianas, a liberação do Estreito de Ormuz e a anulação dos mísseis com os quais Teerã poderia um dia alcançar o território europeu ou norte-americano. A cada dia, uma nova causa e um novo objetivo têm sido proclamados pelos Estados Unidos para embalar a justificativa sobre uma ação intempestiva, feita à margem do direito internacional, sem consulta ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e sob a resistência completa, como no caso da Espanha, ou sob uma crítica relutante, como no caso da França. A Europa, refém do escudo protetor dos EUA, busca ainda um posicionamento próprio e coerente em relação a toda essa crise.
A rigor, as retaliações iranianas contra bases norte-americanas instaladas em países do Oriente Médio poderiam justificar a evocação da cláusula de autodefesa mútua dos países da Otan, o que daria caráter ainda mais global ao conflito. Os parceiros da aliança têm, no entanto, mantido uma postura de engajamento defensivo, deslocando embarcações para a região e reforçando defesas antiaéreas para áreas fustigadas, como o Chipre, que é parte da União Europeia e teve o território atacado por drones. Essa movimentação europeia, que inclui até mesmo o envio do porta-aviões nuclear francês Charles de Gaulle para a zona de guerra, não tem, porém, caráter ofensivo. Ou seja, o discurso da Europa ainda era, até o fechamento desta edição, o de salvaguardar seus territórios e áreas aliadas, sem se engajar em bombardeios diretos contra o Irã.
A morte de Khamenei não produziu, até agora, o efeito desejado pelos EUA de derrubar o regime
Enquanto os parceiros da Otan buscavam se posicionar em relação ao conflito, em Tel-Aviv o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, insistia na tese de que o Irã estava a ponto de fabricar uma ogiva nuclear, informação negada taxativamente pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Mariano Grossi, que na quarta-feira 4 publicou mensagem na qual afirma não haver “evidências de que os iranianos estivessem construindo uma bomba atômica”, ainda que a resistência do país em cumprir com as salvaguardas propostas pela agência impeça a conclusão de que esse programa seja totalmente pacífico, nas palavras do inspetor.
A recusa iraniana à inspeção remonta a dois fatos pregressos. A ruptura, em 2018, por Trump, do acordo nuclear firmado em 2015 por Barack Obama com anuência dos cinco integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, mais a Alemanha, e os bombardeios contra as usinas nucleares no meio do ano passado. Do ponto de vista de Teerã, não havia mais sentido em manter unilateralmente a cooperação, depois dos dois eventos, enquanto, do ponto de vista israelense e norte-americano, essa recusa está ligada, na verdade, ao plano atribuído ao regime dos aiatolás de construir armas atômicas e de acabar com Israel, uma vez que o país professa abertamente sua oposição ao sionismo.
Todo esse emaranhado de motivos, justificativas e discursos seria finalmente desatado no momento em que o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, fosse morto. Era essa ao menos a ilusão de Trump, que estimulava há meses as manifestações de rua contra o regime, e que esperava que, uma vez eliminado o aiatolá, a população simplesmente se ocuparia de fazer o resto: pôr fim ao regime que vigora desde 1979 e estabelecer um novo governo, mais alinhado aos interesses da Casa Branca. Khamenei foi morto em um bombardeio logo nos primeiros lances da campanha militar, mas, em vez de as ruas de Teerã serem tomadas por uma população ávida por mudar o regime, aconteceu o contrário. Milhares participaram de demonstrações de luto pelo líder e de revolta com a guerra. A comemoração foi mais da diáspora iraniana, cidadãos que deixaram o país ao longo dos anos por não suportar mais um regime que controla as liberdades individuais a ponto de dizer como as mulheres devem se vestir. Para esses, Khamenei vai tarde, ainda que sua morte não tenha levado a uma mudança imediata de regime.
O assassinato de Khamenei não levou à queda do regime dos aiatolás. O primeiro-ministro israelense e o presidente dos EUA não afinaram o discurso – Imagem: Kobi Gideon/GPO-Israel e Atta Kenare/AFP
Se, em janeiro, na Venezuela os EUA triunfaram logo após tirar do poder Nicolás Maduro, no Irã o enredo foi o inverso. A morte de Khamenei não encerrou, mas iniciou o conflito, que passou a se alastrar pelos países vizinhos, à medida que as forças iranianas lançaram seu arsenal de mísseis, foguetes e drones contra as bases que os Estados Unidos instalaram ao longo dos anos ao redor. Assim como em julho do ano passado, Israel foi castigado com uma chuva de mísseis, muitos dos quais superaram o sistema de defesa antiaérea e chegaram a atingir Jerusalém e Tel-Aviv, enquanto em Teerã, mísseis israelenses destruíram, na terça-feira 3, o local da reunião da Assembleia de Especialistas, onde os clérigos xiitas decidiriam quem substituiria Khamenei. Na sequência, Trump declarou que todas as figuras proeminentes do regime que os Estados Unidos tinham considerado para fazer uma transição haviam sido mortos.
A estratégia de aniquilação total das cadeias de comando não impediu que os iranianos mantivessem uma resposta coordenada e efetiva, a ponto de impor perdas valiosas tanto aos Estados Unidos quanto a Israel. Essa capacidade parece estar ligada ao alto grau de autonomia conferido às diversas células militares que compõem a política de defesa do Irã, o que faz com que sua máquina militar possa funcionar de maneira relativamente ágil e independente, mesmo quando a estrutura formal de comando sofre perdas.
A demonstração mais audaz dessa capacidade tem sido o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% de toda a produção mundial de petróleo. Com isso, os iranianos ampliaram o alcance de suas ações para além dos territórios efetivamente atingidos por sua artilharia, e passaram a impingir danos a atores tão importantes e distantes quanto a China, maior importador mundial da commodity, cujos fornecedores principais estão justamente na zona bloqueada. Pequim não deu sinais de que pretenda se interpor militarmente entre os aliados iranianos e seus inimigos, mas emitiu declarações taxativas, classificando a guerra em si, e, especialmente, o assassinato de Khamenei como “inaceitáveis”.
O ataque elevou o preço do petróleo e as incertezas na economia global
Uma das consequências imediatas do bloqueio do Estreito de Ormuz foi o aumento no preço do combustível. Na terça-feira 3, o preço do barril do petróleo Brent chegou a 80 dólares, maior cotação desde janeiro de 2025. O pico de alta dessa variedade de óleo, que serve de referência mundial para os preços nas Bolsas de Londres, chegou a 9%. Na primeira semana do conflito, a alta acumulada foi de 13%.
O cenário econômico trouxe uma oportunidade e um risco para o Brasil. Por um lado, a escassez de petróleo pode favorecer as exportações da Petrobras, pois o país representa uma alternativa de suprimento estável e seguro de um produto cuja demanda permanece alta no mercado. Essa oportunidade foi logo detectada por investidores, que fizeram as ações da companhia subirem 5% logo na segunda-feira 2, primeiro dia útil após o início da guerra. Por outro lado, o aumento mundial no preço do petróleo deve puxar para cima o valor do frete, causando um efeito inflacionário dominó em todos os setores da economia. Diante desse cenário, o governo pode ser levado a intervir para amortizar o aumento do preço dos combustíveis na bomba, especialmente em ano eleitoral. Ambos os panoramas, de aumento de exportações da Petrobras e de salto na inflação, estão atrelados às hipóteses de duração do conflito.
Em Brasília, o assessor especial do presidente Lula para assuntos internacionais, Celso Amorim, lançou uma advertência sombria, dizendo que “devemos nos preparar para o pior”. Questionado sobre o que seria isso, fez referência ao “grande potencial de alastramento para grupos xiitas que estão em outros países, além de grupos radicais”. A declaração do diplomata parece dizer respeito em alguma medida à hipótese de que atentados terroristas comecem a emergir, como retaliação pelas ações contra o Irã. Outra possibilidade é que esse alastramento diga respeito ao maior engajamento de grupos como o Hezbollah, que, ao longo da semana, voltou a disparar foguetes contra o norte de Israel, atingindo o porto de Haifa.
O bloqueio do Estreito de Ormuz cria dificuldades ao comércio mundial. Embaixadas dos EUA estão sob ataque e a Guarda Revolucionária manteve o poder no Irã – Imagem: Giuseppe Cacace/AFP, Morteja Wikoubazl/NurPhoto/AFP e AFP
A entrada do Hezbollah na guerra reacendeu um front que os israelenses consideravam ter suplantado depois das operações realizadas no fim de 2025, cujo efeito proclamado tinha sido justamente a obliteração das capacidades do grupo xiita. Desta vez, as ações do Hezbollah obrigaram Israel a evacuar de novo as cidades que fazem fronteira com o Líbano, ensejando respostas muito mais violentas que aquelas do ano passado. Netanyahu invadiu o território libanês com tropas israelenses e lançou mísseis até mesmo contra a capital, Beirute, fazendo com que a população civil fugisse em massa.
As estimativas sobre o número de vítimas são incertas e pouco confiáveis, uma vez que a guerra se espalha por fronts distantes e diversos. Só no Irã, o Crescente Vermelho falava em quase 800 mortos nas 153 cidades atingidas pelos bombardeios, em menos de uma semana, enquanto os Estados Unidos contavam menos de dez militares mortos, número semelhante ao de Israel e inferior aos do Líbano, onde 50 cidadãos tinham perdido a vida no mesmo período. •
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ambições desmedidas’
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