CartaCapital
Erro de cálculo?
O Irã não é a Líbia ou o Iraque, muito menos a Palestina
A eclosão da guerra criminosa contra o Irã, movida pela superpotência delinquente, os Estados Unidos, e pelo Estado genocida de Israel, trará perdas e prejuízos incalculáveis, não só para os países diretamente envolvidos, mas para a maior parte do resto do mundo.
Começo com as crianças, lembrando o bombardeio estarrecedor de uma escola de meninas no Irã, que matou mais de 160 delas. Do sofrimento das crianças, escreveu Dostoievski, pode-se derivar o absurdo de toda a realidade histórica. Apesar de tudo, ele acreditava em Deus. Nos Estilhaços, eu fui mais longe, dizendo que “o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo”.
Nos dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamim Netanyahu. O tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de cálculo. O Irã não é a Palestina indefesa, submetida a destruição e massacre pela covardia israelense. Não é a Síria, despedaçada por uma agressão dos EUA, de Israel e da Turquia. Nem é uma Líbia. Nem um Iraque. Não é uma Venezuela, subjugada com facilidade por uma intervenção relâmpago.
O Irã é uma potência militar que tem conseguido impor pesadas perdas aos agressores, inclusive aos aliados e satélites árabes dos Estados Unidos e Israel no Golfo Pérsico. Esses países árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Bahrein) abrigam grandes bases militares norte-americanas em seu território e dependem enormemente da passagem pelo Estreito de Ormuz para escoar suas exportações de petróleo e gás (com exceção da Arábia Saudita, que conta com canais alternativos). O Irã fechou esse Estreito cirurgicamente, excetuando apenas os navios dos seus aliados estratégicos, Rússia e, sobretudo, China. Os outros navios que tentam passar estão sendo bombardeados.
O Irã, leitor ou leitora, é uma civilização milenar. Trata-se de um país orgulhoso de suas tradições. Nunca foi uma colônia, embora tenha sido submetido a uma relação semicolonial em certos períodos por potências estrangeiras, principalmente Inglaterra e Estados Unidos. O Irã não estava agredindo ninguém nem se preparava para fazê-lo. São mais de 90 milhões de habitantes, vivendo num território maior do que a soma da França, Espanha, Alemanha e Itália. Não é a minúscula Palestina, vítima do genocídio e da limpeza étnica praticados por Israel. Não será varrido do mapa.
O Irã tem se preparado há décadas para este enfrentamento. Apesar das sanções aplicadas pelos Estados Unidos durante mais de 40 anos, com a colaboração de outras nações do Ocidente coletivo, o Irã acumulou grande capacidade de retaliação, como vemos agora. A consciência iraniana de que essa preparação era necessária remonta a 1980, quando o país foi atacado pelo Iraque de Saddam Hussein (sim, ele mesmo!), armado e incentivado pelos Estados Unidos e por Israel. O Irã foi pego de surpresa e se deu conta das suas vulnerabilidades militares. E tirou a lição correta, transformando-se numa potência militar.
A resistência iraniana e a coesão interna só aumentaram com a decisão verdadeiramente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei, transformado em mártir e símbolo da resistência iraniana à ameaça existencial que o país enfrenta. Portou-se como um herói. Nunca será esquecido.
Os Estados Unidos e Israel são sociedades profundamente doentes. Trump e Netanyahu expressam essa doença. E esses dois países se converteram em ameaça para os demais.
O que pretende a dupla diabólica? Os Estados Unidos buscam escapar do declínio e naufrágio civilizacional do Ocidente. E estão dispostos a tudo. Querem retomar à força a hegemonia mundial, crescentemente contestada. O alvo último é a China, “o país mais poderoso relativamente a nós desde o século XIX”, como destacou o documento de estratégia de defesa nacional dos EUA, divulgado agora em janeiro.
Israel, por seu turno, quer levar adiante o projeto de domínio do Oriente Médio. Apenas dois países de peso se opõem a esse projeto, Irã e Turquia. Se o Irã sucumbir, a Turquia será provavelmente a próxima vítima.
Os iranianos se preparam há décadas para este confronto
E o Brasil? Somos um país vulnerável. Há muito tempo. Essa vulnerabilidade remonta ao menos à década de 1980, quando passamos por uma transição pacifista e antimilitar. Basta lembrar, leitor e leitora, que os constituintes introduziram na Constituição de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de defesa, como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra. Depois veio o entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero procônsul do Império, e aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Em oito anos na Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional? Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto político implementado pela corja tucana.
Depois vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma 2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? O que fizeram os ministros da Defesa desses governos? Parece que tomaram ou tentaram tomar iniciativas importantes, mas não nos retiraram da condição de vulnerabilidade militar.
Com Michel Temer e, depois, Jair Bolsonaro, meros fantoches do Império, a nossa situação piorou. Bolsonaro, em especial, um imitador servil e ignorante de Trump, só fez agravar a fragilidade militar nacional, intensificando a cooperação em matéria de defesa com os Estados Unidos e chegando a ponto de inscrever o Brasil como aliado extra da Otan, designação adotada por Washington para aliados militares não integrantes da organização.
Por essas e várias outras razões, devemos considerar a eleição de 2026 como a mais importante da nossa História. Lula, com todas as suas limitações, ainda mantém certa resistência ao projeto colonial e assassino comandado por Trump e Netanyahu. O governo condenou o genocídio em Gaza, recusou-se a aderir às sanções contra a Rússia, manteve relações estratégicas com a China e condenou também o ataque ao Irã.
Se cair nos braços de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficará reduzido à posição subordinada da Argentina de Javier Milei. No atual ambiente internacional, isso significará a destruição da soberania brasileira. •
*Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelo BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países.
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Erro de cálculo?’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



