Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Jantares surrealistas
Os livros de receitas e de vinhos de Salvador Dalí, que usou a mesa como forma de chamar a atenção para sua arte
Na noite de 2 de setembro de 1941, os convidados do Hotel Del Monte, na Califórnia, entraram em um salão e se depararam com um carro destruído no centro da pista de dança. Dentro do veículo havia uma mulher nua, imóvel, simulando estar morta. Do carro emergiram dois dançarinos com os corpos cobertos por bandagens ensopadas em tinta vermelha. Era um lembrete de que acidentes automobilísticos integravam a história dos Estados Unidos.
No salão, vários animais selvagens – um porco-espinho, um filhote de leão; apenas o pedido de cessão da girafa tinha sido negado pelo diretor do zoológico, por considerá-la delicada demais para participar do jantar que Salvador Dalí estava realizando. Animais exóticos eram um hábito.
O evento chamava-se Uma Noite Surrealista numa Floresta Encantada e havia sido concebido como beneficente – os recursos iriam apoiar artistas europeus refugiados da guerra. O cardápio era inusitado: peixes foram servidos em sapatos de salto, sapos vivos pulavam dos pratos (uma cena do jantar pode ser vista aqui). As cenas chamavam a atenção dos convidados, muitos deles personalidades, como o comediante Bob Hope e o cineasta Alfred Hitchcock.
O jantar chamou a atenção da imprensa e da sociedade americana. Foi uma das muitas refeições que Dalí promoveu. Não assustou Hitchcock, que quatro anos depois convidou o artista para participar de seu filme Quando Fala o Coração, estrelado por Ingrid Bergman e Gregory Peck. O cineasta achava que Dalí poderia dar o visual mais adequado à representação dos sonhos. “Eu queria Dalí por causa da nitidez arquitetônica de seu trabalho”, declarou o diretor em entrevista sobre sua obra para François Truffaut em 1967. “Mas Dalí tinha algumas ideias estranhas.”
Dalí chegou a Hollywood com dezenas de esboços e pinturas para filmagem. Queria estátuas que se partissem como cascas de ovos, com formigas emergindo por baixo, e a estrela do filme, Ingrid Bergman, deitada embaixo, coberta por centenas de formigas. “Simplesmente não era possível”, admitiu Hitchcock. Sua colaboração direta com diretores de Hollywood encontrava seus limites.
Mas sua maneira de fazer arte não parou. Gastronomia, vinhos, arte e jantares inusitados ganharam espaço. A filosofia alimentar era baseada em uma frase: “só gosto de comer o que possui uma forma clara e inteligível. Se odeio esse vegetal detestável e degradante chamado espinafre, é porque ele é informe, como a liberdade”. Não pensava o mesmo da couve-flor. A precisão geométrica da sua espiral lhe chamava a atenção. Em dezembro de 1955, encheu um Rolls Royce com 500 kg do vegetal e dirigiu de Espanha a Paris.
Nos anos 1960, quando ia a restaurantes, levava a tiracolo uma jaguatirica, seu animal doméstico. Quando uma comensal se alarmou com a fera à sua mesa, Dalí respondeu com serenidade: era um gato doméstico que ele havia “pintado em design op art”.
Gastronomia e vinhos foram paixões bem além de surpreender os olhares alheios. Em 1973, lançou Os jantares de Gala, trocadilho e referência à sua mulher, Gala Diakonova. Na introdução, escreveu: “O primeiro instrumento filosófico por excelência do homem é a tomada de consciência do real por meio das mandíbulas”. Em meio às suas artes que ilustram o livro, o volume traz mais de 130 receitas, boa parte delas feitas para um livro de arte, não de culinária.
O momento era especial. O ano de 1973 foi marcante, por representar o início da nouvelle cuisine dos Troisgros, que começava a varrer o excesso da mesa francesa, trazendo leveza, precisão, porções menores, respeito ao ingrediente. Dalí publicou seu monumento ao exagero exatamente quando o exagero estava sendo enterrado.
Quatro anos depois, veio outro livro, Os vinhos de Gala, escrito com Max Gérard e o agrônomo Louis Orizet e ilustrado com mais de 140 obras do próprio Dalí. O livro ganhou, décadas depois, em sua reedição pela Taschen, o Gourmand World Cookbook Award de 2018, prêmio mais respeitável da literatura gastronômica, entregue ao único livro de vinhos que classifica o Porto como “delicioso companheiro para ver televisão”.
Seus livros permanecem como obras de arte provocativas. No banquete surrealista, o espectador era o convidado e a caça. Apreciar é o que resta.
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