Pantagruélicas

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A ascensão do Chablis no Brasil

A região francesa de vinhos conquista o paladar nacional, impulsionada pelo público feminino e pela busca por uma pureza que desafia a indústria global

A ascensão do Chablis no Brasil
A ascensão do Chablis no Brasil
Foto: Roberto Rockmann
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O romance de Tolstói Anna Karenina começa com uma das frases mais famosas da literatura. “Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” O autor russo escreveu o livro cuja trama percorre sobre adultério, culpa e a impossibilidade de viver segundo as próprias regras num mundo cujas regras são maiores.

Na primeira parte do livro, em meio ao triângulo amoroso que envolve Anna, uma aristocrata casada, seu marido frio e burocrata Alexei Karenin, e o jovem oficial Conde Vronsky, dois personagens se sentam em um restaurante em Moscou. Um é da aristocracia, o outro, do campo. O garçom tártaro anuncia que tinham chegado ostras frescas.

Stepan “Stiva” Oblonsky, irmão de Anna e epítome do bon vivant, não hesita: ordena três dúzias e, após considerar um tinto, opta por um “Chablis clássico”. Tolstói compreendia o que a gastronomia francesa já consagrara: a simbiose entre o Chablis e as ostras é absoluta. Era o vinho preferido de Alice B. Toklas, cujo livro de receitas é um dos mais famosos e históricos do mundo.

Quase 150 anos depois, o brasileiro também tem aderido cada vez mais aos vinhos de Chablis, uma região situada ao norte da Borgonha, terra da uva branca chardonnay, fruto de solos antigos, resultado de conchas e demais restos marinhos que lá viveram. Os vinhos brancos e de Chablis estão ganhando a preferência do brasileiro.

O consumo de vinhos brancos e espumantes no Brasil atingiu 30% de participação de mercado, alta de dez pontos percentuais em relação a 2019, segundo relatório da Ideal Bi Consultoria. Uma das razões é a maior presença feminina nas escolhas: as mulheres representam 53% do mercado consumidor em 2024, seis pontos a mais do que em 2019. Os sommeliers que trabalham nas casas de frutos do mar de São Paulo e do Rio sabem o que isso significa na prática: a garrafa de branco, que antes ficava parada na adega, vende antes do fim da semana. E, com frequência crescente, a garrafa é de Chablis.

A região responde por um quarto de todos os vinhos de Borgonha importados pelo Brasil, segundo Anne Moreau, diretora de comunicação e marketing do Bureau Interprofissional dos Vinhos da Borgonha (BIVB), que visitou o país no ano passado. A Borgonha, por sua vez, representa um quarto dos rótulos franceses que chegam ao Brasil em valor. Ou seja: Chablis é um quarto de um quarto. Os dados de importação da consultoria Ideal Bi mostram aceleração ainda mais abrupta entre 2024 e 2025: crescimento de 56% em volume e 62% em valor para Chablis.

O que o comprador brasileiro está buscando, muitas vezes sem saber nomear, é o que a tradição chama de mineralidade (apesar de a literatura enológica disputar esse termo) e a acidez. A origem dessa qualidade é geológica, embora o mecanismo exato ainda seja disputado entre enólogos e geoquímicos. O solo predominante nas melhores parcelas de Chablis é o Kimmeridgiano, formado há mais de 150 milhões de anos quando um mar raso e morno cobria aquela parte da Europa. Jacques Fanet escreveu em Les terroirs du vin: “Os vinhedos da região de Chablis têm apenas uma religião: o Kimmeridgiano.”

Se terroir, o conceito de que o solo em que a uva é plantada é a essência de um vinho e é algo inexplicável para a ciência, Chablis personifica este conceito como nenhum outro território. Os fósseis marinhos “teoricamente” seriam responsáveis pela tal mineralidade. O clima frio realça a acidez vibrante e os sabores frutados delicados que tornam os vinhos de Chablis tão singularmente puros e concentrados. O vinho da região foi copiado em boa parte do mundo – produtores espanhóis vendiam garrafas com esse nome, até a legislação europeia ter proibido, protegendo a denominação de origem francesa.

É o lugar da Borgonha (uma região com alto ibope entre os enófilos) onde a vinificação em aço inoxidável é regra e não exceção — e onde a passagem por madeira nova continua sendo controversa entre os produtores. Combina com frutos do mar, salmão defumado, peixes grelhados ou cozidos. A versatilidade à mesa também permite que, com anos de adega, seja parceiro também de aves e cogumelos.

No Brasil, há uma ampla variedade de Chablis disponíveis em supermercados e importadoras, de preços e estilos diferentes. São todos bons? Não. Para quem quiser conhecer rótulos mais artesanais, vale a pena buscar os rótulos de entrada da cooperativa La Chablisienne (importados pela Clarets) e os do pequeno produtor Alain Gautheron (vindos ao Brasil pela Delacroix), assim como os Domaine Gueguen (importadora Nova Fazendinha).

A popularidade atual do Chablis no Brasil é um sinal de que o mercado pode estar amadurecendo. Mais do que uma tendência de consumo mapeada por consultorias, é a reafirmação de que o verdadeiro luxo reside na pureza de um território que, tal como a grande literatura, não precisa de artifícios para se fazer entender.

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