Psicodelicamente

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O corpo humano produz DMT no nascimento e na morte? Saiba o que diz a ciência

Especulação popular ganhou força nas redes, mas ainda não encontra respaldo científico sólido, afirma neurocientista; entenda o que é fato e o que ainda é hipótese.

O corpo humano produz DMT no nascimento e na morte? Saiba o que diz a ciência
O corpo humano produz DMT no nascimento e na morte? Saiba o que diz a ciência
Pesquisas analisam DMT para tratamento contra a depressão. Foto: Sérgio Ruschi
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Nunca se viu tantos especialistas em tantas coisas. No ambiente caótico das redes sociais, qualquer um se torna criador de conteúdo. Não é preciso procurar muito para encontrar de tudo, muitas vezes embalado e vendido como conteúdo jornalístico, mas sem qualquer tipo de apuração. É óbvio, não haveria de ser diferente com o campo psicodélico. Nesse ambiente de excesso, a desinformação sobre essas curiosas e controversas substâncias também encontra terreno fértil.

Quando o tema é ayahuasca, o excesso também é gritante. Outro dia, me deparei com o vídeo de uma jovem afirmando, com toda a convicção, que o DMT (N,N-dimetiltriptamina), uma das substâncias presentes na bebida amazônica, é produzido pelo organismo humano no momento do nascimento e da morte. Mas será que essa informação faz realmente algum sentido?

Historicamente permeado por mitos, confusões, preconceitos e desinformação de todos os tipos, o universo dos psicodélicos ainda carece de debate qualificado. Por isso, resolvi estrear aqui no blog da Psicodelicamente uma série de conteúdos voltados à checagem de informações.

Para esclarecer este primeiro tema, recorri a um especialista na área, o neurocientista Dráulio Araújo, do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). Seu grupo de pesquisa conduziu um dos maiores estudos já realizados sobre os efeitos da ayahuasca em pacientes com depressão resistente ao tratamento.

Segundo ele, a ideia de que a DMT seria produzida em momentos de nascimento e morte vem sendo especulada há tempos, especialmente porque a substância de fato é encontrada em pequenas quantidades no corpo humano, inclusive no cérebro e em outros tecidos. Contudo, trata-se de um tema que ainda carece de comprovação científica sólida.

Terapias com psicodélicos demandam uma equipe que precisa ficar em torno do paciente. Foto: Arquivo

“Estudos indicam que a DMT pode ser sintetizada pelo corpo humano, e há especulações de que esse processo estaria relacionado à glândula pineal [pequena estrutura localizada no centro do cérebro]”. No entanto, segundo ele, não existem dados consistentes que comprovem essa relação. “Da mesma forma, a afirmação de que a substância seria liberada em grandes quantidades durante o nascimento ou a morte segue sendo apenas uma hipótese”, prossegue o pesquisador.

Araújo explica que uma pesquisa com ratos observou um aumento dos níveis de DMT no cérebro em situações de hipóxia, ou seja, de falta de oxigênio, o que alimentou hipóteses sobre o que poderia ocorrer em humanos. Além disso, alguns estudos sugerem semelhanças entre relatos de experiências de quase-morte e experiências induzidas pelo DMT, a partir de questionários validados para medir esse tipo de vivência, como a Near-Death Experience Scale (NDE-Scale).

“Essa escala foi aplicada em voluntários sob o efeito de DMT, e os resultados mostraram que muitos participantes relataram vivências semelhantes às experiências de quase-morte, com pontuações próximas em diferentes dimensões, como sentimentos de transcendência, perda da noção de tempo e espaço e sensações de união com o universo”, detalha o pesquisador.

Para ele, esse achado sugere que a DMT pode induzir estados alterados de consciência que compartilham características com relatos de quase-morte, embora ainda não haja evidências diretas de que a substância seja liberada especificamente nesses momentos.

Ou seja, não há base científica suficiente para afirmar que o DMT seja produzido pelo organismo humano no momento do nascimento ou da morte. Trata-se de uma hipótese que ganhou circulação, mas que ainda carece de comprovação sólida.

Se você se deparou com alguma informação aparentemente duvidosa sobre psicodélicos, envie para a Psicodelicamente. Podemos ajudar a verificar se é fato, hipótese ou desinformação, sempre com base em fontes especializadas. O e-mail é redacao@psicodelicamente.com.br

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