Política
Reconexão neural
Com aval da Anvisa, testes clínicos abrem caminho para tratamento inovador de lesões na medula espinhal
Luiz Fernando Mozer e Diogo Barros não se conhecem. O primeiro, pintor automotivo, vive em Iconha, no Espírito Santo, a pouco mais de 300 quilômetros do segundo, vidraceiro e morador de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. As histórias de ambos se cruzam em torno de um único objetivo: a esperança de voltar a andar, depois de sofrerem um trauma na medula espinhal que os deixou paraplégicos. Essa esperança tem nome: polilaminina, proteína retirada da placenta que está sendo estudada como base para um medicamento capaz de regenerar as fibras do sistema nervoso, responsáveis por levar informações do cérebro a outras partes do corpo.
Em 5 de janeiro, a Anvisa autorizou a realização da primeira fase de um estudo clínico para avaliar a segurança do uso da polilaminina no tratamento do Trauma Raquimedular Agudo (TRM). A pesquisa vem sendo desenvolvida há quase 30 anos por cientistas da UFRJ, sob a coordenação da pesquisadora Tatiana Sampaio, e, desde 2019, conta com a parceria do laboratório Cristália, que terá exclusividade na fabricação do medicamento.
A descoberta representa um marco para a medicina e tem potencial para mudar a vida de milhares de pacientes com lesão medular, incluindo quadros de paraplegia e tetraplegia. Dados do Ministério da Saúde indicam que, no Brasil, surgem, em média, 8 mil novos casos de lesão medular por ano. Antes mesmo da autorização da Anvisa, a UFRJ realizou testes em oito voluntários, e seis deles voltaram a apresentar movimentos nos membros afetados. Paralelamente, pacientes têm recorrido à Justiça para obter acesso ao tratamento. Há, pelo menos, 14 liminares autorizando o uso da substância. Desses casos, dez pacientes já receberam o medicamento e apresentaram resultados favoráveis. São os casos de Mozer e Barros.
Pacientes têm recorrido à Justiça para ter acesso ao promissor medicamento
Internado desde 7 de dezembro, Mozer sofreu uma fratura na coluna durante uma corrida de motocross, após ser atingido pelas costas por outro piloto. Houve rompimento da medula na queda. No dia 13, ele passou por cirurgia para tratar o trauma e, dois dias depois, recebeu a polilaminina. Em menos de um mês, começou a recuperar a sensibilidade nos membros inferiores. “A expectativa é grande, essa é a única chance que tenho de não virar um cadeirante”, diz o pintor. Segundo ele, há um formigamento constante nas pernas. “Segundo os médicos, eu não deveria sentir nada. A lesão foi grave, então talvez a recuperação leve um pouco mais de tempo.”
O caso de Barros também foi grave. Ao tentar instalar vidraças em um apartamento no segundo andar, ele sofreu uma descarga elétrica de um poste próximo, caiu de uma altura superior a 6 metros e foi arremessado para a rua. O acidente aconteceu no início do mês passado e, pouco depois, Barros obteve uma liminar na Justiça para receber a polilaminina. Um mês após a cirurgia, passou a apresentar contração na coxa e já consegue movimentar os pés. “Tenho controle das pernas dobradas e consigo fazer movimentos de um lado para o outro. Já fico sentado sozinho na cama, vou para os lados, para a frente, para trás”, relata. “O médico não tinha expectativa alguma. Disse que nunca tinha visto nada igual, uma medula totalmente destruída. E agora eu ter algum tipo de movimento… é surpreendente.”
A pesquisadora Tatiana Sampaio destaca o caráter pioneiro do tratamento, já que até agora não existe uma droga capaz de reverter lesões medulares. “Se conseguirmos demonstrar sua eficácia, teremos uma droga revolucionária”, afirma, explicando que a polilaminina estimula o crescimento das fibras do sistema nervoso. Inicialmente, a substância foi testada em células isoladas, depois em animais de laboratório e cachorros. “Como se confirmou que ela realmente consegue regenerar os axônios, chegamos à proposta de um medicamento”, completa.
Sinal verde. Ao lado do ministro Padilha, o presidente da Anvisa, Leandro Safatle, anunciou a liberação dos estudos clínicos com o fármaco no início de janeiro – Imagem: Valter Campanato/Agência Brasil
Em 2021, a UFRJ iniciou um estudo clínico com humanos e os resultados foram surpreendentes. “Em todos os estudos realizados até então, a média de eficácia era de 10% a 15%. Entre os pacientes que receberam a polilaminina, a evolução chegou a cerca de 75%”, ressalta Rogério Almeida, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento do Cristália, acrescentando que, desde então, o laboratório assinou contrato com a UFRJ e passou a negociar com a Anvisa a autorização para a pesquisa clínica.
Na primeira fase do estudo clínico, o objetivo é avaliar a segurança do tratamento. Serão recrutados cinco pacientes, que receberão o medicamento e ficarão sob observação por seis meses. Se não houver eventos adversos relevantes nesse período, a pesquisa avançará para aferir a eficácia. “Na fase 2, vamos avaliar se a droga está realmente ajudando na recuperação da lesão, se o paciente começa a recuperar sensibilidade ou movimentação nos membros”, ressalta Almeida. Com resultados positivos, o laboratório poderá solicitar o registro junto à Anvisa, permitindo que o medicamento seja oferecido à população. A previsão é de que todas as etapas sejam concluídas em até três anos, com lançamento no mercado estimado para 2029.
A expectativa é que o medicamento também seja disponibilizado pelo SUS. Durante o anúncio da Anvisa sobre o início do estudo clínico, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a importância da ciência e das universidades públicas. “Cada avanço científico renova a esperança e reforça o compromisso do Ministério da Saúde com a pesquisa clínica. A aprovação de um estudo desenvolvido em universidade pública tem potencial para revolucionar o tratamento no SUS e no País”, afirmou. Em nota, a pasta informou que, apenas em 2025, investiu 380 mil reais em pesquisas sobre o tratamento de lesões medulares desenvolvidas pela UFRJ e que, caso o medicamento seja liberado pela Anvisa, ele será analisado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias para ser incluído no SUS, considerando sua eficácia, segurança e custo-efetividade.
“A polilaminina tem potencial para revolucionar o tratamento no SUS e no País”, avalia o ministro Alexandre Padilha
Para o neurocirurgião Andrei Fernandes Joaquim, professor da Unicamp e diretor da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, se a eficácia da polilaminina for comprovada, o medicamento representará um divisor de águas na medicina. “Estamos diante de um medicamento promissor, com grande potencial, mas ainda é preciso concluir todas as etapas da pesquisa”, afirma, preocupado com a enxurrada de liminares autorizando o uso antes do fim da pesquisa. “Além da cirurgia, não há outro tratamento eficaz. Várias substâncias foram testadas, como corticoide, minociclina e gangliosídeo, mas nenhuma funcionou. Se a polilaminina ajudar minimamente, será um avanço, mas é preciso ter cautela diante do uso indiscriminado.”
Os estudos indicam que, para apresentar resultados favoráveis, o medicamento deve ser aplicado em até 72 horas após o trauma, o paciente deve ter entre 18 e 72 anos e não pode apresentar comorbidades. A coluna vertebral não apenas sustenta o corpo, mas também protege um canal por onde passam fibras nervosas que transmitem os comandos do cérebro para os membros. “Quando o osso é quebrado, pode danificar esse tecido muito delicado, e a pessoa perde a capacidade de transmitir informações entre o cérebro e braços ou pernas”, explica Sampaio. “Se tivermos uma substância que faça esses fios crescerem e se reconectarem ao cérebro, teremos um avanço sem precedentes na medicina”, conclui. •
Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Reconexão neural’
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