Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
As provadoras de Hitler
Filme de Silvio Soldini transforma a paranoia de Hitler em um conto feminino de sobrevivência
Novembro de 1943. Os bombardeios frequentes em Berlim levam Rosa Bauer a fugir para a casa dos sogros em Parcz, território polonês invadido por tropas nazistas e vizinho da “Toca do Lobo”, o principal quartel-general de Adolf Hitler. Rosa mal tem tempo de arrumar sua mala e descansar. Soldados da tropa alemã chegam à casa. Levam-na em um camburão, no qual outras seis mulheres aflitas se entreolham sem saber o que querem com elas e se acordarão no dia seguinte.
Em poucos minutos, uma cena as deixa ainda mais confusas: uma longa mesa impecavelmente posta com toalha de linho branco, garfos e facas de prata, e pratos meticulosamente arrumados. Há uma profusão de legumes e sobremesas. A princípio, não sabem o que fazer. Lá fora o conflito se arrasta, comer se tornou um artigo de luxo, impensável com tamanha fartura. Por que estão ali? Por que toda aquela comida?
A incerteza se desfaz quando um soldado ordena que se sentem e comam, revelando-lhes a tarefa patriótica: degustar o que é servido para Hitler. O chef, em seguida, explica: “Estou sempre de olho, mas não se pode ficar de olho todo o tempo”. Também diz que Hitler é vegetariano. O soldado então esclarece outro detalhe. Elas têm de comer todos os pratos à sua frente e esperar por uma hora, para saber se não contêm veneno e se o Führer pode comer.
Essa é a história central de As Provadoras de Hitler, filme de Silvio Soldini, um dos escolhidos do 20º Festival de Filmes Italianos no Brasil, que obteve três indicações e ganhou um prêmio do Nastri d’Argento, a principal premiação da crítica italiana.
O roteiro é ancorado no testemunho de Margot Wölk, que aos 95 anos, em uma entrevista à imprensa alemã, disse que foi uma das quinze jovens mulheres — e não sete, como na licença poética do filme — forçadas a provar cada refeição de Hitler por cerca de dois anos e meio.
Margot Wölk recordou que a comida era “muito boa”, com iguarias como aspargos brancos servidos com manteiga (um luxo em tempo de guerra), mas que não se podia apreciar. O sabor do medo do veneno imediato se combinava ao da espera agoniante pelo mal-estar, transformando cada garfada em um ato de roleta russa. Certas vezes, as mulheres irrompiam em choro, em sentimentos mistos de sobrevivência e pavor.
A rotina nesse ambiente de segurança máxima era dominada pelo ritmo desregulado de Hitler, que, atormentado pela insônia e pela guerra, passava a noite em reuniões e só ia dormir ao amanhecer, deixando o ambiente tenso e a área de serviço onde as mulheres cumpriam suas tarefas sob vigilância constante.
Essa história foi transformada em um livro de sucesso por Rosella Postorino e agora ganha os cinemas. Representa a primeira incursão do cineasta em um drama de época ambientado na Segunda Guerra Mundial, com uma história que tem trazido dúvidas a alguns historiadores. O jornalista e historiador Felix Bohr, que publicou um livro sobre os anos que Hitler passou na “Toca do Lobo”, afirmou que, por mais envolvente que seja a história de Wölk, não haveria evidências além de suas entrevistas de que ela seja verdadeira.
Polêmicas históricas à parte, o filme de Soldini foca na perspectiva feminina, explorando a comunidade, a violência sofrida e a resiliência dessas mulheres em face do terror. É uma poderosa metáfora sobre o abuso de poder contra as mulheres e sobre como a comida pode ser transformada em instrumento de opressão.
Quem visita o campo de concentração Dachau, o primeiro desse tipo criado pela Alemanha Nazista, se depara com uma frase de George Santayana: “Quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo.”
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