Pantagruélicas
Ideias e memĂłrias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Peixes da AmazĂ´nia
Nas férias de inverno, a região Norte, que sediará a COP30 em novembro, tem como atrativos a temperatura alta e a sua culinária
No fim dos anos 1990, o depĂłsito de bebidas de Francisco Castanho, em BelĂ©m do Pará, passou a ser alvo constante de assaltos. Os ladrões reduziram o estoque, o caixa secou e a renda da famĂlia começou a desaparecer. Para driblar a crise, o filho Thiago sugeriu um novo rumo: o pai, acostumado a cozinhar nos fins de semana, devia começar a vender pizzas feitas na cozinha de casa, porta a porta, pelo bairro.
Seu Chicão topou. Foi até o carro e levantou o tapete do assoalho, onde costumava esconder algum dinheiro. Encontrou apenas 70 centavos. Foi até o supermercado. Comprou presunto e queijo. A farinha, por sorte, já havia na despensa. A primeira pizza saiu para um amigo — e logo chamou a atenção de um vizinho.
Com as duas primeiras vendas e quase cinco reais, conseguiu criar novos recheios. Multiplicaram-se os pedidos. A notĂcia se espalhou pela vizinhança. AtĂ© que alguĂ©m sugeriu uma mudança no cardápio: que tal moqueca que ele fazia e todo mundo comentava? Ele topou o desafio. Aos poucos, a farinha deu lugar ao peixe. O que era improviso virou vocação e lugar para o filho, Thiago, suceder o pai e criar novas receitas.
Da junção de pai e filho surgiu o Remanso do Peixe. Desde 2011, Ă© considerado um dos melhores lugares do Brasil para comer peixe, com receitas que celebram os sabores e os ingredientes regionais. Um destaque Ă© a piraĂba, peixe conhecido popularmente por filhote, uma das maiores espĂ©cies de couro da Bacia AmazĂ´nica, podendo alcançar trĂŞs metros de comprimento e 150 quilos.
No mercado Ver o Peso, às margens do rio Guamá, em Belém, o visitante pode se deparar com sabores locais. Designado como patrimônio histórico e e uma das maiores feiras livres da América Latina, o espaço permite tomar sucos de frutas, conhecer especiarias, tomar um açaà ou conhecer os peixes que tanto sucesso fazem entre brasileiros e estrangeiros.
A culinária também chama a atenção da menos midiática Rondônia, cujos peixes ganharam projeção no primeiro governo Lula, em 2003, quando se discutia o licenciamento ambiental das hidrelétricas do rio Madeira. Temiam-se impactos sobre a migração de uma espécie de bagre.
A autorização para as obras das usinas hidrelĂ©tricas de Santo AntĂ´nia e de Jirau foi concedida. As hidrelĂ©tricas saĂram do papel e geram eletricidade há mais de uma dĂ©cada. Os peixes continuam nos cardápios.
Ă€s margens do rio Madeira, em Porto Velho, no bairro de SĂŁo CristovĂŁo, está o ArigĂł, cujo destaque Ă© um bufĂŞ com comidas regionais e um tambaqui na brasa cujo frescor indica que a pesca Ă© diária. Para beber, suco de cupuaçu ou de outras frutas tĂpicas.
Na hora da digestĂŁo, ainda dá para andar alguns quarteirões e visitar o Complexo da Estrada de Ferro Madeira-MamorĂ©, parte do Tratado de PetrĂłpolis, firmado entre o Brasil e a BolĂvia para encerrar o conflito sobre o territĂłrio que hoje Ă© o Acre.
A ferrovia, que Ă© o ponto de partida da histĂłria de RondĂ´nia, tambĂ©m Ă© um capĂtulo da histĂłria do Brasil. ConstruĂda no fim do sĂ©culo XIX, teve a intenção de contornar o rio Madeira e escoar a produção de borracha entre Brasil e BolĂvia, marco do primeiro ciclo de crescimento da regiĂŁo Norte.
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