Colunas
As cidades
A cidade dos meus sonhos tinha o asfalto como um tapete, as lixeiras nos lugares e nenhum fio exposto
Quando pus os pés em Brasília pela primeira vez, a cidade ainda não existia. Só via tratores amarelos rasgando a terra vermelha, abrindo largas avenidas, imaginava eu que seriam avenidas.
Mas o que mais me encantou foram as curvas de Oscar Niemeyer que iam aparecendo a cada dia em novos prédios, novos monumentos, e aquela grama verdinha que só existia na 214 Sul.
Menino ainda, passou pela minha cabeça fazer arquitetura. Em blocos de papel quadriculado do Ministério da Agricultura, que meu pai levava para casa, eu ia desenhando a cidade dos meus sonhos, focando na 405 Sul, a minha quadra, ainda em obras.
Quando deixei Belo Horizonte e cheguei no planalto central do País, comecei a sonhar com as cidades, seus espaços, seus movimentos, problemas e soluções, mesmo não sabendo que a palavra correta era urbanismo.
A Belo Horizonte que deixei pra trás era uma cidade ainda meio provinciana, mas já com todos os defeitos de uma cidade dita maravilhosa. Engarrafamentos, buracos nas ruas, lixeiras destruídas, guimbas no chão, calçadas tortas e a avenida principal já sem as frondosas árvores, criminalmente cortadas pelo prefeito Amintas de Barros.
A cidade dos meus sonhos tinha o asfalto como um tapete, as lixeiras nos lugares, nenhum fio exposto, acesso para os cadeirantes, ciclovias, muitos parques, muitos jardins, muito verde.
O transporte urbano para todos, circulando tranquilamente em seus corredores. Mesmo sem me preocupar muito com a emissão do CO2, os ônibus da minha cidade dos sonhos eram elétricos já naquela época, os trólebus.
Guardas de trânsito, elegantemente vestidos, controlavam o trânsito que fluía, sem um pingo de estresse. Ninguém buzinava, ninguém cortava pela direita, ninguém colava a frente do carro na bunda do seu, ninguém avançava o sinal vermelho. Era incrível.
Um dia voei mais de 24 horas, cheguei a Tóquio e me belisquei para ter certeza de que não estava sonhando.
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