Editorial
O vaidoso STF
Diariamente enfrenta as câmeras da tevê. Peculiaridade nativa…
O Brasil, mais uma vez, fornece provas da sua capacidade em inovar ou mesmo criar na ausência de modelos internacionais. Refiro-me ao Supremo Tribunal Federal, o único no mundo a se exibir diariamente na televisão. Ninguém conhece o rosto dos juízes supremos dos mais importantes países do globo. Nós aqui temos, por exemplo, a oportunidade invulgar de perceber a alegria de um pele-vermelha americano que tivesse a ventura de tropeçar no escalpo glorioso do atual presidente do STF, Luiz Fux.
Já poderia causar sobressaltos íntimos o fato de que este mesmo Supremo, que digeriu com extrema tranquilidade os golpes praticados pela Lava Jato e pelo Congresso, continue a postos com a pompa habitual construída por discursos empolados e amplas togas. Continua a postos, contudo, como se os crimes cometidos no passado tivessem sido esquecidos ou perdoados. É a enésima peculiaridade do Brasil brasileiro. Como se não bastasse tudo mais que vem de cambulhada, a começar pela presença de um demente de hospício na Presidência da República.
Como de hábito, fingimos a normalidade, enquanto permanecem os problemas centrais: o desequilíbrio social monstruoso e a incapacidade de reação de um povo ignorante, jamais treinado para entender os vexames e as humilhações sofridos desde sempre, sem chance de revide. Até quando teremos, nós que alimentamos algumas crenças nos valores legados há cerca de 250 anos pela Revolução Francesa, de aceitar o atraso do País? Em compensação, recebemos
D. João VI, rei de Portugal, em fuga de Lisboa na iminência da invasão do general Junot, e a própria colonização portuguesa cuidou de propiciar o resto do desastre.
Ao deixar, finalmente, o Brasil, a rainha Carlota Joaquina bateu o salto contra a amurada do navio destinado a levá-la de volta ao país de origem, a significar seu arrependimento por ter vivido algum tempo nas nossas paragens e se livrar da poeira tropical. Caberia a nós dar, na ocasião, um suspiro de alívio. Mas já era tarde. Arrisco-me a dizer que, no Brasil, sempre é tarde. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1194 DE CARTACAPITAL, EM 9 DE FEVEREIRO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O vaidoso STF”
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