Sociedade

Alegoria de uma época, o astrólogo Olavo viveu tomado por um delírio de grandeza

O “filósofo” inspirou a guerra cultural levada a cabo aos trancos e barrancos pela tropa bolsonarista instalada em Brasília. Sua influência no governo diminui, no entanto, ao longo do mandato

Alegoria de uma época, o astrólogo Olavo viveu tomado por um delírio de grandeza
Alegoria de uma época, o astrólogo Olavo viveu tomado por um delírio de grandeza
(Foto: Reprodução)
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Dos tempos bicudos de astrólogo de jornais à glória de ser reconhecido como guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho escolheu a mistificação e o embuste como modo de sobrevivência.

Foi um longo caminho de aprendizagem.

Nos anos 1980, Olavo testou o atalho da religião. Liderou no Brasil a seita Tradição, fundada no Reino Unido e alvo de investigação da Polícia Federal por extorsão e contrabando, entre outros crimes. Em seguida, formou a sua própria congregação, inspirada no esoterismo islâmico. A experiência durou pouco. Infelizmente para o nosso personagem errante, fundar igrejas ainda não havia se tornado um negócio lucrativo.

Na década seguinte, Olavo decidiu pregar em outras paragens. Em 1996, seu livro O imbecil coletivo, crítica rasa e desconexa da cultura brasileira, recebeu elogios de Paulo Francis e levou o economista Roberto Campos a definir o autor como “filósofo de grande erudição”. A coluna na extinta revista Época, então dirigida pelo jornalista Augusto Nunes, lhe deu alguma projeção e virou a semente de uma praga que se alastraria pela mídia: bárbaros, em geral incultos e medíocres, contratados para investir contra os marcos civilizatórios sob o manto do combate ao “politicamente correto”.

O “original” Olavo, cercado por imitadores baratos, surfou a onda. Vieram novos livros, o canal no YouTube, os cursos online e a aproximação com o clã Bolsonaro. O “filósofo” inspirou a guerra cultural levada a cabo aos trancos e barrancos pela tropa bolsonarista instalada em Brasília.

Sua influência no governo diminui, no entanto, ao longo do mandato. Nos últimos tempos, andava ressentido e mandava recados da cabana em Richmond. Viveu até o fim tomado por um delírio de grandeza, mas não teve tempo de aprimorar o olavismo, arcabouço teórico com o qual pretendia superar os gregos e os modernos e iluminar o mundo, alicerçado em insultos, palavrões e obsessão fálica (traço em comum com o ex-capitão).

Na melhor das hipóteses, ficará para a história como uma nota de rodapé, alegoria de um período tenebroso. Aos 74 anos, deixa mulher, oito filhos, 18 netos, algumas armas e um enorme rebanho.

 

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