PolĂtica
Com Bolsonaro, Brasil vive a maior deterioração de dados sobre a violĂȘncia da histĂłria
Mortes violentas sem causas determinadas saltaram cerca de 70% no atual governo e podem indicar ocultação de homicĂdios
O Brasil atingiu a maior deterioração dos dados oficiais sobre violĂȘncia da histĂłria, segundo aponta o Atlas da ViolĂȘncia 2021, produzido pelo Instituto de Pesquisa EconĂŽmica Aplicada, o Ipea, e pelo FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica. O âapagĂŁoâ nos dados oficiais começou em 2018, conforme revelado pela edição anterior do documento, mas atingiu patamares nunca antes observados em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro.
Esta piora Ă© observada, por exemplo, pela discrepĂąncia nos Ăndices de homicĂdios registrados pelo MinistĂ©rio da SaĂșde em comparação com os boletins de ocorrĂȘncias produzidos pelas polĂcias civis nos estados.
Oficialmente, o governo federal contabiliza 45.503 homicĂdios. JĂĄ as polĂcias apontaram 47.742 mortes violentas intencionais. Uma diferença de 5%.
Levando em conta apenas os nĂșmeros do governo â registrados no Sistema de InformaçÔes sobre Mortalidade, o SIM â o Brasil teria registrado em 2019 uma queda de 22,1% neste Ăndice, alcançando uma taxa de 21,7 mortes por 100 mil habitantes, menor nĂșmero desde 1995. Devido Ă mĂĄ-qualidade dos dados, no entanto, tudo indica que essa queda nĂŁo reflete a real situação da violĂȘncia no Brasil.
âO Sistema de Mortalidade Ă© um patrimĂŽnio nacional. SĂł que este patrimĂŽnio estĂĄ em risco por uma deterioração muito grande da qualidade dos dadosâ, alerta Daniel Cerqueira, diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves, e um dos autores do Atlas.
Os problemas nos registros nĂŁo apenas dificultam o processo levantamento e comparação de dados, mas tambĂ©m indicam um provĂĄvel aumento na ocultação dos dados de homicĂdios na atual gestĂŁo do governo federal.
Isso porque, de acordo com o Atlas, embora os homicĂdios tenham diminuĂdo, houve tambĂ©m um salto de 69,9% no nĂșmero de mortes violentas por causa indeterminada (MVCI) em 2019. Ao todo, 16.648 morreram de forma violenta sem que o Estado fosse capaz de indicar uma motivação para o Ăłbito, bem distante dos 9.799 Ăłbitos sem causas determinadas registrados em 2017.
Outro dado que indica a provĂĄvel ocultação Ă© a quantidade de pessoas vĂtimas de armas de fogo incluĂdas no grupo de mortes com causas indefinidas. Segundo Cerqueira, nada menos do que 1.991 das mais de 16 mil MVCIs foram causadas por armas de fogo.
Historicamente, em mĂ©dia 73,9% das MVCIs entre 1996 e 2010 eram na verdade homicĂdios ocultos. âTomando essa estimativa como referĂȘncia, caso a proporção de MVCI em relação ao total de mortes violentas fosse a mesma observada em 2017 (6,6%), haveria cerca de 5.338 homicĂdios a mais registrados em 2019â, destaca a publicação.
âĂ um verdadeiro escĂąndalo, que nĂłs temos que botar o dedoâ, afirma Cerqueira. âSe a gente nĂŁo tiver um bom termĂŽmetro para medir a violĂȘncia, nĂŁo teremos um bom termĂŽmetro para pensar em diagnĂłsticos e medidas para evitar que novas mortes ocorram no futuro.â
Rio: homicĂdios caem, mortes violentas por causa indeterminada disparam
A deterioração nos dados, explica Daniel Cerqueira, estå localizada de forma mais grave em sete estados brasileiros onde as MVCIs correspondem a mais que 10% do total de mortes violentas. São eles: Rio de Janeiro (34,2%), São Paulo (19%), Cearå (14,5%), Bahia (12,6%), , Minas Gerais (11,7%), Pernambuco (11,7%) e Roraima (10,7%).
Como se vĂȘ, a situação mais dramĂĄtica Ă© a do Rio de Janeiro em que a taxa de homicĂdios caiu 45,3% de 2018 para 2019, ao passo em que a taxa de mortes violentas sem causa determinada disparou 237,2%.
Segundo Cerqueira, uma hipĂłtese para o aumento na taxa de MVCIs em algumas destas regiĂ”es pode ser o crescimento das milĂcias. O pesquisador alerta, no entanto, que o Atlas ainda nĂŁo possui dados para comprovar essa hipĂłtese.
âA gente ainda nĂŁo sabe elucidar essa relação com a ocultação de homicĂdios, mas algo que sabemos que existe Ă© essa presença de milĂcias formadas por policiais ou ex-policiais treinados e que sabem como fazer desaparecer corpos. EntĂŁo nos lugares onde a presença de milĂcias Ă© maior, certamente terĂĄ mais cemitĂ©rios clandestinos e desaparecimentos que foram homicĂdios, mas que possivelmente nunca saberemos ao certoâ, afirma.
Samira Bueno, diretora-executiva do FĂłrum Brasileiro de Segurança PĂșblica, explica que a organização tem evitado fazer grandes anĂĄlises sobre essa possĂvel queda de homicĂdios entre 2018 e 2019. âJustamente porque o nĂșmero de mortes sem causa definida Ă© tĂŁo alto que fica difĂcil fazer grandes afirmaçÔes nestes estados.â
Essa conclusĂŁo Ă© detalhada no prĂłprio Atlas, que conclui: âPela dimensĂŁo desse crescimento [MVCIs], nĂŁo estĂĄ invalidada, por exemplo, a conclusĂŁo de que houve uma queda da taxa de homicĂdios no Brasil em 2019, mas reduz-se a precisĂŁo da magnitude dessa diminuição.â AlĂ©m disso, essa diferença pode impactar tambĂ©m nas anĂĄlises especĂficas de mortes entre negros, mulheres, indĂgenas e de pessoas com deficiĂȘncia.
AlĂ©m do âapagĂŁoâ, polĂticas bolsonaristas colocam em risco futuro de paz no Brasil
O futuro do processo de pacificação do Brasil estĂĄ em risco com as polĂticas bolsonaristas. Ă no que acredita Cerqueira ao projetar uma possĂvel escalada da violĂȘncia no futuro prĂłximo com o aumento das permissĂ”es e incentivos para armas e muniçÔes no PaĂs.
âForam mais de 30 dispositivos sancionados com posturas extremamente permissivas de armas de fogo e muniçãoâ, relembra o diretor. âSaiu, por exemplo, do controle do ExĂ©rcito as mĂĄquinas de recarga de muniçÔes. Com isso liberou-se que pessoas e clubes de tiro comprem pĂłlvora para fazer recarga de munição, o que fez com que sĂł no ano passado 54 toneladas de pĂłlvora fossem vendidas, suficientes para produzir 39 milhĂ”es de muniçÔes de calibre 9mm.â
Dados recentes comprovam que a preocupação com a escalada da violĂȘncia fomentadas pelas polĂticas armamentistas de Jair Bolsonaro nĂŁo sĂŁo infundadas. O incentivo ao porte de armas entre ruralistas, por exemplo, fez com que os conflitos no campo saltassem para o maior Ăndice dos Ășltimos 10 anos. Ao todo, foram cinco conflitos por dia registrados no campo em 2019, resultando em 32 assassinatos, sendo a maior parte das vĂtimas eram indĂgenas, sem-terra, assentados e lideranças agrĂĄrias.
Os conflitos durante operaçÔes policiais tambĂ©m registraram aumento em 2020. Neste ano, segundo o AnuĂĄrio Brasileiro de Segurança PĂșblica 2021, tambĂ©m produzido pelo FBSP, foram mortos 6.416 civis por intervençÔes de policiais civis e militares da ativa, contra 194 policiais vitimados fatalmente. Segundo os estudiosos, casos como os da chacina de Jacarezinho poderiam ter sido evitados com uma polĂtica sĂ©ria de desarmamento.
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