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Caminhos para a escola ou a partir da escola?

por Ricardo Bresler — publicado 15/05/2013 12h19
Projeto europeu que estimula que criança vá a pé para a aula faz refletir sobre autonomia e a relação entre a educação e o espaço público
Espanha

Rua feita para ser ocupada: Iniciativa espanhola é inspirada em congêneres europeus que fortalecem o espaço público

Ricardo Bresler, professor da FGV-Eaesp, esteve como pesquisador 
visitante da Universidade Autônoma de Barcelona, com apoio da Capes, em 2012

O camí escolar é um projeto da Prefeitura de Barcelona para facilitar a mobilidade das crianças que vão a pé e sozinhas para a escola, estabelecendo trajetos seguros e criando pontos de apoio junto ao comércio local. Ao mesmo tempo que é um projeto simples e encantador, é também complexo pela reflexão que provoca, a partir dos espaços que uma escola ocupa na sociedade em que vivemos.

De forma simples, o camí escolar contribui para três efetivações importantes: a construção da autonomia por parte das crianças, o comprometimento com o entorno escolar por parte das famílias e a obrigação do poder público de se posicionar diante das demandas de uma comunidade.

A autonomia é fomentada pelo convite para que as crianças (geralmente em torno dos 8 anos de idade) caminhem, sem a supervisão dos pais, para a escola e de volta para casa. No começo é comum que o pai e a mãe vão soltando o laço aos poucos, isto é, saiam de casa poucos minutos após a criança ter partido e a encontrem já no meio do caminho. Pouco a pouco, o tempo entre o momento em que a criança sai e que os adultos a alcancem vai aumentando, até que um dia os adultos alcancem já diante do portão da escola, e então ela passa a fazer o trajeto sozinha ou acompanhada de outras crianças. Além das sinalizações viárias, a criança conta com o apoio de comerciantes que aderem ao projeto e, quase sempre, com a simpatia de pedestres que costumeiramente cruzam seu caminho no mesmo horário naquele espaço público.

Uma vez que uma escola ou comunidade se inscreve no camí escolar, inicia-se um processo de mobilização pelo qual representantes dos distritos do município entram em contato com a comunidade. São mapeados os principais caminhos utilizados e todos começam a diagnosticar o que pode facilitar o caminhar autônomo das crianças: em geral, as Ampas (associações de mães e pais de alunos) sistematizam as sugestões das famílias e encaminham para a administração municipal. Os comerciantes que aderem ao projeto são cadastrados, colocam um adesivo com o símbolo do projeto na sua fachada e disponibilizam seu estabelecimento para qualquer necessidade que a criança tiver em seu trajeto para a escola (usar banheiro, telefone etc.). Os familiares assumem um pouco mais a responsabilidade de olhar o espaço público daquela comunidade escolar.

No decorrer do ano letivo, as diferentes instâncias do poder público respondem às demandas que cada Ampa encaminha. Exemplo: contêineres para a coleta de materiais recicláveis foram reposicionados alguns metros adiante, pois na esquina em que estavam obstruíam a visão das crianças e dos motoristas; um ponto de táxi não foi realocado porque ainda não se encontrou outro espaço alternativo; foi colocado um semáforo que impede a conversão à direita, melhorando assim a segurança para cruzar uma rua de grande movimento; outro semáforo por hora não será instalado porque naquele local nenhum incidente foi registrado na última década... Independentemente da pertinência da sugestão encaminhada, nenhuma fica sem resposta: pode ser aceita e implantada e, no caso de negativa, uma explicação é apresentada pelo poder público.

O camí escolar de Barcelona é um ­projeto similar a outros congêneres implantados em outras cidades europeias fomentados pela rede eurocidades. O princípio é que as ruas da cidade foram feitas para ser ocupadas e que o melhor meio de locomoção é andar a pé, duas ideias básicas que contribuem para produzir espaços públicos, combater o sedentarismo, desenvolver o comércio local... Quanto antes a criança aprender a andar a pé por conta própria, melhor. E quanto antes uma sociedade perceber e assumir isso, melhor. A partir dessas premissas podemos pensar nas inúmeras sociabilidades e infraestruturas urbanas que queremos garantir e que pautariam o trabalho dos poderes públicos.

Pensar um paralelo brasileiro

A educação básica brasileira tem melhorado e isso é constatado a partir de qualquer parâmetro que se escolha: índices de matrícula, alcance das metas de desempenho, aumento do investimento, criação do piso nacional, mobilização da sociedade... Ainda temos muito a avançar, mas não podemos desconsiderar as conquistas. Apesar disso, para alguns, a escola é considerada a responsável por tudo de errado que existe. Nessa descabida crítica, alguns projetam na escola suas frustrações e atribuem aos profissionais da educação outras responsabilidades e afazeres: se fizermos isso com o camí, corremos o risco de entrar num beco sem saída.

Nos primeiros passos que dei ao retornar à escola como pesquisador, aprendi com Jorge Adilson Candido (então diretor da EMEF Tarsila do Amaral) uma lição e tanto. Comentávamos sobre experiências de escolas do campo, como a da EMEF Hermínio Pagotto, que se tornaram centros em torno dos quais a comunidade gravitava e, a partir delas, a estrutura era pensada, criada e regulada. Jorge, ao mesmo tempo que compartilhava nosso encantamento, se perguntava por que raios estávamos a falar disso se o nosso propósito era outro: e se jogam essa responsabilidade para dentro da escola?

Os diretores já assumem a responsabilidade sobre o que acontece dentro da escola. Para isso têm de estar atentos ao entorno da escola, das famílias, das condições da sociedade, dos conflitos... Tudo isso já entra na escola e os diretores têm a responsabilidade de mediar esses interesses que chegam. Assumir a responsabilidade sobre o que acontece fora seria isentar o Estado de ser Estado.

Apesar de o camí escolar encantar a quase todos em Barcelona, muitos diretores e diretoras de escolas são cautelosos em relação ao projeto, enfatizando que a responsabilidade pelo sistema viário e pela segurança dos pedestres é do Estado e não da escola. A ressalva faz sentido, é justa, e permite manter o foco da escola nas atividades escolares ao mesmo tempo que permite que outros atores (órgãos estatais, famílias...) assumam o seu papel em relação ao que impacta na escola e a partir da escola.

No caso das cidades brasileiras, essa ressalva é ainda mais relevante porque elas não foram projetadas para que as pessoas caminhem, porque as calçadas daqui não são calçadas, porque ao longo do tempo se construiu um pseudoconsenso que clama por tirar as crianças das ruas etc.

Já o camí escolar reforça o espaço público de uma cidade como Barcelona, que convida as pessoas a saírem às ruas: por todo lado se vê gente que caminha, pedala, patina, anda de skate e patinete. As escolas estão bem distribuídas pela malha urbana e toda a infraestrutura é pensada a partir do se locomover a pé (por exemplo, sabe-se que hoje ninguém anda mais de 20 minutos entre sua residência e a biblioteca pública mais próxima).

Desafios que emergem

A partir do camí escolar encontramos inspiração para expressar alguns dos desafios da educação pública brasileira que, tal como o camí escolar, dependem menos das ações encetadas pela escola e seus profissionais e mais de ações fora da escola que podem fortalecer ou enfraquecer o potencial da ação de quem se encontra dentro das salas de aula.

Enquanto diante de muitas escolas privadas as autoridades viárias ainda se esforçam para educar os familiares sobre os malefícios da “fila dupla”, a maior parte dos estudantes acessa a escola por outros meios, muitas vezes enfrentando a precariedade de calçadas, a ausência de faixas de pedestres e semáforos e a falta de gentileza de boa parte dos motoristas brasileiros. Investir nos acessos é algo que melhora a escola e é responsabilidade de quem não está na escola.

Para dimensionar os meios e o tempo dos deslocamentos, as ações e os investimentos necessários, seria importante que o Censo Escolar (um ótimo instrumento para se pensar e administrar a educação) mapeasse no campo “Tipo de transporte escolar” (no “Cadastro de aluno”) de todos os alunos e não só dos que utilizam o transporte escolar oferecido pelo poder público.

Não é papel da escola criar um caminho escolar. A escola – especialmente nos espaços em que há interação entre as mães e os pais – pode incentivar alunos e familiares a usarem o espaço público. O uso do espaço público, por sua vez, é um princípio da escola (e também deveria ser da escola privada). Caminhar pela rua ao ir para a escola é sair de verdade da redoma. Quem anda pela rua protegido por um carro ou um adulto que o impede de ver, sentir, cheirar, tomar decisões e interagir, segue num espaço privado, e algumas famílias parecem insistir para que a escola também seja essa extensão da casa.

Escolas públicas, no sentido mais profundo do termo, por sua vez, contribuem para reduzir o impacto no encontro de mundos apartados – o dos que se locomovem blindados em seus veículos e o dos que caminham a pé pela cidade: tal qual um aluno pode querer parecer menos infantil ao andar autonomamente para a escola, outro que ia de carro poderia cogitar ir a pé, caso alguns de seus colegas assim o fizessem. Aqui a utopia é de uma escola pública capaz de comportar no seu interior a diversidade de perfis familiares que encontramos na sociedade, incluindo a minoria das classes mais abastadas que hoje se encontra privada de andar a pé.

Os caminhos da escola revelam que o desafio maior é continuar a aumentar a valorização e o investimento no profissional da educação da escola pública. O camí revela a importância de clarear e separar os papéis e responsabilidades. Nesse trajeto, podemos pensar sobre como fomentamos autonomias, quais espaços nossas cidades destinam para as escolas e a educação, um meio para pensar que cidade queremos construir. Se o camí propicia isso, já abriu um bom caminho.