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Temos que pegar? O cabo de guerra entre a Casa Branca e os videogames
Imagine que você é o gestor de uma das marcas mais valiosas do mundo, como Pokémon. Seu objetivo é a universalidade: ser amado por crianças e adultos, em São Paulo ou em Nova York, independentemente de inclinações políticas. De repente, você acorda e vê a […]
Imagine que você é o gestor de uma das marcas mais valiosas do mundo, como Pokémon. Seu objetivo é a universalidade: ser amado por crianças e adultos, em São Paulo ou em Nova York, independentemente de inclinações políticas. De repente, você acorda e vê a sua mascote — um símbolo de união e amizade — sendo usado como trilha sonora para vídeos de deportação ou campanhas divisivas. O pesadelo do branding moderno tem nome: sequestro de neutralidade.
O recente protesto formal da Pokémon Company contra o governo dos Estados Unidos pelo uso não autorizado de suas imagens acendeu um alerta global. Não se trata apenas de direitos autorais. Trata-se da luta das marcas para não serem arrastadas para o campo de batalha da polarização.
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A linha do tempo: do anúncio à apropriação
Para entender o peso do que está acontecendo agora, precisamos olhar para o retrovisor. A entrada da política nos games não é uma invenção de 2026, mas a forma como ela ocorre mudou drasticamente:
- O marco de 2008 (Barack Obama): o registro histórico mais marcante de uma campanha presidencial em games ocorreu com Obama. A estratégia foi institucional e transparente: a compra de espaços publicitários (outdoors virtuais) em títulos como Burnout Paradise e Madden NFL. Era publicidade tradicional em um novo suporte, respeitando as regras das desenvolvedoras e o contrato com o jogador.
- A participação de 2020 (Joe Biden): Durante a pandemia, a campanha de Biden adotou o modelo “opt-in”. Ao criar uma ilha oficial em Animal Crossing: New Horizons, o governo convidava o eleitor para o seu espaço. O jogador escolhia interagir ou até colocar um adesivo da campanha em seu quintal virtual. Era uma presença suave, autorizada e integrada à mecânica pacífica do jogo.
- A guerrilha de 2026 (Donald Trump): O cenário atual rompe com a etiqueta anterior. Não há pedido de autorização ou parceria. A tática é a apropriação estética via memes e IA generativa. Ao “vestir” o presidente com a armadura do Master Chief (Halo) ou usar a tipografia de Pokémon, o governo pratica uma espécie de pirataria de reputação, pegando carona no afeto que o público tem pela franquia para suavizar mensagens divisivas.
O dilema da neutralidade sob ataque
Para empresas como Nintendo, Microsoft ou Activision, reagir a esse movimento é um campo minado. Se decidem processar o governo, correm o risco de alienar a parcela de consumidores que apoia a gestão. Se silenciam, permitem que sua marca seja associada a ideologias que podem ferir sua imagem global a longo prazo.
O protesto da Pokémon Company é um movimento de autodefesa de marca. Ao afirmar que sua missão é “unir o mundo”, a empresa tenta erguer um muro de contenção. No entanto, na era dos memes e da IA generativa, as marcas perderam o controle sobre como seus ativos são recombinados. O “Gotta Catch ‘Em All” (Temos que pegar, em português), ressignificado para o contexto de imigração, é um exemplo brutal de como o contexto pode assassinar o conceito original de uma marca.
A reputação na era do “Meme-Estado”
A análise desse cenário revela uma mudança profunda de paradigma. A comunicação governamental descobriu que a estética dos games funciona como uma “camada de invisibilidade” para a crítica. Afinal, torna-se muito mais complexo atacar uma política pública quando ela vem embalada em um meme divertido ou em uma referência nostálgica da infância.
O risco para a sociedade, contudo, é a banalização do impacto real. Quando transformamos a guerra ou a segurança interna em um nível de Call of Duty, ocorre uma dessensibilização do olhar. A política corre o risco de deixar de ser sobre vidas humanas para se tornar uma métrica de score, skins e engajamento digital.
Pra fechar!
O embate entre o Pikachu e a Casa Branca é o capítulo mais recente da morte da neutralidade. Em um mundo hiperconectado, não existe mais “espaço seguro” para as marcas.
A provocação que fica para esta semana é: até que ponto devemos permitir que os nossos refúgios de lazer e fantasia sejam transformados em ferramentas de propaganda? Se até o Master Chief foi recrutado sem alistamento, quem será o próximo? O jogo político mudou, e agora, ele não aceita mais o botão de pause.
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