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Seu DNA sabe o que você deveria comer?
Da ascensão da nutrição personalizada aos limites do monitoramento constante da saúde, testes genéticos ganham espaço em uma era em que o corpo é tratado como um conjunto de dados em busca de otimização
Nos últimos anos, a ideia de saúde deixou de estar restrita ao consultório médico e passou a ocupar um espaço cada vez mais presente na rotina cotidiana. Relógios inteligentes monitoram sono e frequência cardíaca, aplicativos acompanham alimentação e exercícios, enquanto sensores e plataformas digitais transformam indicadores biológicos em informações acessíveis em tempo real. Nesse cenário, o próprio corpo passou a ser visto como uma fonte contínua de dados, capaz de revelar padrões antes invisíveis ao olhar humano.
Essa transformação acompanha uma mudança mais ampla dentro da economia do bem-estar. A personalização tornou-se uma das palavras mais valorizadas do setor, impulsionando o crescimento de tecnologias voltadas para a saúde individualizada. Segundo o relatório Nutrition for Healthspan Initiative Trends for 2026, publicado pelo Global Wellness Institute, a nutrição de precisão vem se consolidando como uma das principais tendências globais do wellness, apoiada pela integração entre inteligência artificial, dispositivos conectados, biomarcadores e testes biológicos capazes de adaptar recomendações às características de cada indivíduo.
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A lógica por trás dessa mudança é simples. Se duas pessoas podem reagir de formas completamente diferentes à mesma dieta, à mesma rotina de exercícios ou até ao mesmo nutriente, por que insistir em protocolos universais? É justamente nesse ponto que os testes genéticos aplicados à nutrição ganham relevância. A promessa não é apenas emagrecer, mas compreender de maneira mais profunda como cada organismo funciona, transformando a alimentação em uma estratégia construída a partir das particularidades biológicas de cada paciente.
O boom do wellness de precisão
A busca por soluções individualizadas reflete uma mudança importante no comportamento dos consumidores. Se durante décadas a saúde preventiva esteve associada a recomendações amplas para grandes grupos populacionais, hoje cresce o interesse por abordagens capazes de considerar diferenças metabólicas, genéticas e comportamentais. O próprio Global Wellness Institute aponta que o setor está migrando da personalização para a chamada “precisão”, conceito que utiliza dados biológicos para orientar decisões cada vez mais específicas.
Nã é surpresa, portanto, que a indústria acompanhe esse movimento. De acordo com a consultoria Grand View Research, o mercado global de nutrição personalizada e suplementos personalizados foi estimado em US$ 15,9 bilhões em 2025 e deve alcançar US$ 18,2 bilhões em 2026, impulsionado justamente pela demanda por soluções individualizadas.
A popularização da longevidade, do biohacking e da saúde preventiva também ajuda a explicar esse fenômeno. As 10 tendências de bem-estar para 2025 divulgadas pelo Global Wellness Summit apontam que consumidores estão cada vez mais interessados em compreender sua própria biologia, substituindo fórmulas genéricas por recomendações baseadas em dados pessoais e evidências científicas.
Quando o DNA entra no prato
Para Thifany Riçato, líder técnica de nutrição da Clínica Seven, a principal mudança dos últimos anos foi justamente a percepção de que resultados diferentes podem surgir mesmo quando duas pessoas seguem exatamente a mesma estratégia alimentar. “A gente começou a ver que dois pacientes podem fazer a mesma dieta e ter resultados completamente diferentes. O que mudou foi, de fato, entender que o que vale para um não vale para o outro e a vontade de buscar mais o que poderia levar a essa diferença”, afirma.
Segundo a especialista, os testes genéticos ajudam a compreender características metabólicas que não aparecem necessariamente em exames tradicionais. “A genética vem para ajudar a gente a entender as predisposições, as tendências genéticas específicas daquele paciente. É um paciente que tem tendência à compulsão alimentar? É um paciente que tende a ter um nível de fome mais aumentado do que outro? Como o corpo vai processar cada nutriente?”, explica.
Entre os fatores avaliados estão genes relacionados à obesidade, controle de apetite, sensibilidade à insulina, resposta metabólica aos carboidratos e gorduras, além de aspectos ligados ao sono e ao ritmo biológico. “Hoje, no nosso teste genético, a gente avalia genes relacionados à obesidade, controle de apetite, sensibilidade à insulina e resposta metabólica. Também avaliamos um gene associado ao sono e à regulação do ritmo biológico”, afirma Thifany.
A especialista relata que alguns resultados ajudam a esclarecer sintomas que muitas vezes parecem desconectados da alimentação. “Muitos pacientes chegam até a Seven e falam que têm muita distensão abdominal, ficam muito inchados e têm muitos gases. Quando fazemos um teste genético, por exemplo, percebemos que ele tem uma sensibilidade aumentada ao glúten. Isso pode ajudar a explicar sintomas que, até então, não tinham explicação para o paciente”, diz.
O exame em si é relativamente simples. De acordo com Thifany, a coleta é realizada por meio de um swab aplicado na parte interna da boca, semelhante aos utilizados em alguns testes de Covid-19. O material é enviado para análise laboratorial e, posteriormente, interpretado por profissionais especializados. “O teste genético é super simples de ser feito. O paciente pega esse swab e passa durante 60 segundos na mucosa interna da boca. Depois fecha o material e leva ao correio”, explica.
Na avaliação da nutricionista, a era das dietas universais tende a perder cada vez mais espaço. “Eu espero que sim. A gente não pode olhar para você como se o seu metabolismo fosse igual ao meu ou ao da Cristiane. Não tem como olhar para o paciente e entregar uma dieta padronizada. Precisamos ter esse olhar individualizado”, afirma.
Quando o wellness vira vigilância
Se a personalização representa uma promessa atraente, ela também levanta questionamentos importantes. Em um ambiente cada vez mais orientado por dados, cresce a sensação de que toda decisão relacionada à saúde pode, ou deve, ser medida, monitorada e otimizada. O corpo deixa de ser apenas um organismo biológico e passa a funcionar como uma espécie de painel de controle alimentado por métricas.
A própria evolução tecnológica reforça essa lógica. O relatório do Global Wellness Institute sobre tendências para 2026 aponta que a nutrição de precisão está se tornando cada vez mais dependente da integração entre genética, biomarcadores, dispositivos vestíveis e sistemas capazes de atualizar recomendações em tempo real.
Para Thifany, porém, a coleta de informações é uma ferramenta necessária quando utilizada com critérios clínicos. “Precisamos de dados concretos para conseguir fazer mudanças que, muitas vezes, não aparecem em exames de sangue nem nos sintomas relatados. Esses dados servem para guiar e orientar o paciente para que ele tenha, de fato, mais qualidade de vida”, afirma.
Ainda assim, a expansão desse modelo provoca uma discussão mais ampla sobre autonomia. Quanto mais informações biológicas se tornam disponíveis, maior é a tentação de transformar qualquer escolha alimentar, comportamento ou hábito em um cálculo baseado em indicadores. A questão deixa de ser apenas entender o corpo e passa a envolver até que ponto decisões cotidianas estão sendo transferidas para algoritmos, exames e métricas.
O paradoxo da hiperotimização
A busca por respostas precisas também traz riscos. Especialistas em comportamento e saúde mental vêm observando que o excesso de monitoramento pode estimular ansiedade, especialmente quando indicadores corporais passam a ser interpretados fora de contexto ou sem acompanhamento profissional. O desafio não está necessariamente nos dados, mas na forma como eles são consumidos.
Na experiência da Clínica Seven, a interpretação dos resultados ocorre sempre com acompanhamento especializado. “O laudo tem cerca de 47 páginas. Quando o laboratório finaliza a análise, o resultado não é enviado diretamente ao paciente. Ele é enviado para nós. Fazemos questão de receber primeiro essas informações e avaliá-las junto com o paciente”, explica Thifany.
Segundo ela, um dos equívocos mais comuns é acreditar que o teste genético oferece respostas absolutas ou soluções instantâneas. “O erro mais comum é a expectativa equivocada. Muitos acreditam que o teste genético vai resolver todos os problemas. Na realidade, o que ele traz são predisposições. E, a partir dessas predisposições, precisamos trabalhar”, afirma.
A nutricionista ressalta ainda que existe uma diferença importante entre predisposição e diagnóstico. “Hoje vemos muitas pessoas que transformam algo simples em algo extremamente complexo. Precisamos lembrar que o teste genético não é um diagnóstico. É possível modular esses fatores. Por isso, precisamos ter muita cautela ao indicar exames e ao comunicar resultados”, finaliza.
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