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Ser mulher em tempos de IA: apoio, cobrança e autoimagem
Ela faz de tudo. É rápida, resolve cada demanda sem deixar nada pendente. Sabe as respostas, agiliza o tempo, facilita os dias de quem está por perto e ainda destrava problemas que parecem impossíveis. Fala na medida certa, nunca cansa e nunca falha; é praticamente […]
Ela faz de tudo. É rápida, resolve cada demanda sem deixar nada pendente. Sabe as respostas, agiliza o tempo, facilita os dias de quem está por perto e ainda destrava problemas que parecem impossíveis. Fala na medida certa, nunca cansa e nunca falha; é praticamente perfeita. Curioso é que eu estava falando de uma inteligência artificial. E, mesmo assim, a sociedade ainda espera que mulheres reais sejam exatamente isso: eficientes, incansáveis, prontas pra tudo. Como se fossem máquinas com coração — quando, na vida real, perfeição não existe.
Ser mulher já não é simples. É dar conta da casa, do trabalho, dos filhos, dos estudos, das relações. É estar bem apresentada, equilibrada, produtiva e ainda simpática. E quando essa conta já parecia alta demais, surge um novo agravante: a IA como hiperestímulo constante. Informação sem fim, padrões inalcançáveis, corpos editados, emoções fabricadas. Um campo fértil para comparações que desgastam e adoecem.
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Como resistir à pressão de sermos perfeitas — entre nós e diante da tecnologia? Para Virgínia Nowicki, atriz, apresentadora e palestrante sobre mulheres 50+ e manejo emocional, o gesto de resistência hoje é simples: lucidez. “É seguir em frente e aceitar o passar do tempo com mais naturalidade e gentileza. Eu me cuido, claro, e quero envelhecer da melhor forma possível. Mas isso é diferente de viver sob cobrança permanente. Precisamos de menos exigência e mais leveza”, afirma.
Para ela, a inteligência artificial pode gerar muita comparação e uma excessiva preocupação com a imagem entre mulheres, principalmente adultas – o que não é nada bom para saúde mental. Ela acredita que “se fizermos um recorte e formos falar especificamente das mulheres, acredito que a maturidade feminina começa quando a mulher ganha mais discernimento com relação à tecnologia. É quando ela volta a se perguntar “isso faz sentido para mim?” antes de perguntar ao algoritmo”. Esse raciocínio pode ser aplicado em diferentes áreas.
Tecnologia tem sentimentos?
Há uma tendência crescente de mulheres que buscam pela inteligências artificiais como um espaço de escuta emocional. De acordo com o estudo “Así somos: el estado de la adolescencia en España“, publicado pelo jornal El País em 2025, 1 em cada 4 meninas de 17 a 21 anos afirma que recorre a sistemas de IA como confidente, compartilhando “coisas pessoais” com segurança e sem julgamento. Para Virgínia, essa tendência é preocupante.
“Quando mulheres passam a buscar escuta emocional em uma máquina, isso não fala de um avanço afetivo, e sim de uma carência profunda de vínculos que deixaram de ser criados socialmente. As pesquisas já mostram: vivemos uma epidemia de solidão, especialmente entre mulheres que acumulam papéis, responsabilidades e silêncios. A tecnologia pode, sim, ajudar conexões, mas ela não substitui o olho no olho, o corpo presente, o toque, o sorriso vivido com a alegria de um momento real. Emoções não se regulam apenas pela palavra. Elas se regulam na troca, no contato físico”, comenta.
E não apenas a forma como lidamos com nossos próprios sentimentos está sendo afetada pela tecnologia: a especialista acredita que a IA reforça a cobrança de que sejamos emocionalmente disponíveis, compreensivas e resilientes. “Essa demanda sempre existiu. Mas, hoje, ela reaparece indiretamente vestida de eficiência emocional, autocontrole e performance constante. Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher “dê conta” de tudo, inclusive das próprias emoções, sem falhar. Isso é opressor. O desafio é recusar esse lugar e autorizar a mulher a ser real, não um algoritmo emocional. A sororidade cresce, mas o caminho de desconstrução ainda é longo”, completa.
O jeito “certo” de ser mãe
Se lidar com os próprios sentimentos já é um desafio, a experiência de balancear sua individualidade com os cuidados com um filho triplica a dificuldade – especialmente quando temos, na palma da mão, um artifício pronto para te lembrar que você não é tão boa mãe quanto aquela influencer da internet. Virgínia enxerga um limite delicado: quando a maternidade vira um campo de comparação e respostas prontas, aí a tecnologia deixa de acolher e passa a exigir.
Ela conta: “quando meu filho nasceu, eu não tinha a informação na palma da mão como hoje. E isso fazia com que a escuta do próprio corpo, da intuição e do vínculo tivesse mais espaço. Eu tive tempo de processar o que vivia a cada dia, as descobertas e as emoções novas. A verdade é que não existe um jeito “certo” de ser mãe. Não existe maternidade perfeita. Existe maternidade possível, real e viva”.

Créditos: Divulgação
Legenda: Virgínia Nowicki, atriz, apresentadora e palestrante
Vivendo, trabalhando e aprendendo
A essa altura, já não é (ou não devia ser) novidade para ninguém que o mercado de trabalho é absolutamente desigual para homens e mulheres. O relatório “Gender Equality at Work” da OECD (2025) apontou que mulheres têm taxas menores de participação e emprego, são mais propensas a trabalho em tempo parcial e em ocupações de baixo salário e têm menor probabilidade de serem empreendedoras com empregados e ganham, em média, menos que homens – e essa é apenas uma das tantas pesquisas facilmente rastreáveis. E o desafio aumenta quando a tecnologia entra na equação: a necessidade de adaptação constante à IA é uma pressão extra para mulheres maduras, que já enfrentaram outras revoluções e agora lidam com o medo de invisibilidade ou obsolescência.
“Precisamos aprender a navegar nessa onda, nos abrir para novas habilidades, afinal, o mundo mudou e estamos testemunhando essa transformação. Isso é atravessado por um etarismo muito real ainda, especialmente no Brasil”, diz Virgínia. E complementa: “Ao mesmo tempo, somos mulheres que já passaram por outras transformações profundas – pessoais, profissionais e culturais. Sabemos que viver é se adaptar. Eu me defino como uma lifelong learner, ou seja, aprender continuamente. Escolho olhar esse momento com consciência e otimismo, sem negar as dificuldades, mas sem me deixar reduzir por elas”.
Querer ser o que não existe
“A IA edita imagens, mas não edita a vida”. Essa fala da atriz, apresentadora e palestrante escancara um dos principais desafios do ser mulher na sociedade: corpos editados, fotos com filtros, o sonho de ser como alguém que não é real. E, apesar de essa tendência afetar a todas, sem diferença de idade, para mulheres mais velhas existe um agravante: mulheres que não são – ou não parecem ser – eternamente jovens caem no desgosto público.
” A ideia de um corpo “editável” é muito grave. Ele apaga marcas do tempo, como se envelhecer fosse algo que precisa ser corrigido. Isso alimenta comparação, inadequação. E o “envelhecer” deixa de ser vivido como processo e passa a ser tratado como falha. Precisamos ser mais gentis com a história que estamos construindo da nossa própria vida”, acredita Virgínia. Ela afirma que o corpo, o rosto e o tempo vivido passam a ser tratados como algo que precisa ser disfarçado.
“O problema é quando começamos a acreditar nisso. Quando deixamos de nos reconhecer e de nos respeitar para caber em imagens que não representam a vida real. Vira uma busca sem fim por algo que, na verdade, não existe na vida real, só na vida “editável”. A IA edita imagens, mas não edita a vida, e é nela que a beleza acontece”, completa.
Como ser mulher em tempos de IA?
Pode ser que haja quem acredite que lógica das métricas, dos dados e da otimização, tão presente na IA, seja incompatível com a experiência feminina, que sempre foi mais atravessada pelo imprevisível, pelo corpo e pela emoção. Virgínia não poderia discordar mais disso. “Porque essa rapidez e excesso de estímulos com certeza vai contra a natureza humana, não só das mulheres. A IA é uma ferramenta poderosa e irreversível: não há volta, há adaptação”, afirma.
Para ela, o desafio é não deixar que a rapidez, as métricas e o excesso de estímulos nos afastem do corpo, da emoção e da escuta interna. “Vamos sentir desconforto nesse processo, e isso também é aprendizado. Dosar o uso da tecnologia e resgatar espaços longe das telas será essencial para manter o equilíbrio emocional. Um pouco de distância das redes sociais, mais contato com natureza, meditação e uma dose de bom humor tem sido a minha receita de bem viver. Escolher presença seja, talvez, o ato mais revolucionário”, finaliza.
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