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Sabe aquele acontecimento inesperado? Esqueça
A Inteligência Artificial integrada a objetos do cotidiano coloca uma camada invisível na vida. O que parece uma solução de conforto pode se transformar no fim do que pode surpreender. E criar uma camada de tédio em que nos escondemos dos pequenos deslizes que podem ser maravilhosos para a vida
Por Adalberto Viviani
A frase que antes era título de filme de suspense hoje descreve, com desconfortável precisão, a relação entre nós, a inteligência artificial e os objetos conectados. A casa, o carro, o celular, o relógio, a TV e até a geladeira sabem o que você fez no verão passado – e ontem à noite também. Não apenas lembram: aprendem, preveem e devolvem o seu próprio comportamento embalado como serviço de conveniência.
No plano técnico, a lógica é simples. Cada dispositivo coleta dados: horários de saída e chegada, rotas, hábitos de sono, compras repetidas, programas assistidos, músicas ouvidas, temperatura escolhida no ar-condicionado. Esses dados alimentam sistemas de Inteligência Artificial que identificam padrões, constroem perfis e antecipam ações prováveis. Em seguida, a IA generativa entra como narradora: transforma cálculo em linguagem, estatística em “cuidado”, sugestões em frases aparentemente íntimas.
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É nesse ponto que a Internet das Coisas (IoT) deixa de ser apenas um conjunto de gadgets e vira uma camada invisível sobre a vida diária. A geladeira percebe que você sempre compra o mesmo iogurte e avisa quando o estoque acaba, sugerindo adicionar o item ao carrinho. O aplicativo de navegação, ao notar que toda quinta de manhã você faz o mesmo trajeto, oferece automaticamente a rota para o trabalho, como se lesse seus pensamentos. A casa conectada replica, noite após noite, o mesmo cenário de luz, temperatura e som que você “gosta”. Tudo isso é vendido como conforto, automação, praticidade.
Mas há um custo embutido nessa comodidade permanente. Quando um sistema é treinado para prever o que você fará e se aperfeiçoa ao acertar essa previsão, ele tende a reforçar o passado. Para os algoritmos, a surpresa é ruído. Existencialmente, é justamente ela que rompe o tédio. Se o Waze insiste na rota de sempre, você quase nunca experimenta o caminho que passa pelo bairro vizinho, pela praça em que nunca reparou. Se a lista automática de compras repõe eternamente o mesmo iogurte, você perde o momento banal – mas criativo – de olhar a prateleira, ler um rótulo novo, tropeçar num sabor inesperado.
A IA integrada ao cotidiano faz algo mais profundo do que organizar tarefas: ela estreita o campo do possível. Ao reduzir o esforço de decidir, também reduz o espaço de improvisar. Os pequenos deslizes, como errar a rua, esquecer um item da lista, escolher um prato ao acaso, sempre foram fontes de risco, mas também de descoberta. Uma nova paisagem surge quando você erra o retorno. Um novo lugar favorito aparece porque você entrou num café sem saber por quê. Um novo gosto nasce quando você compra o que não estava planejado. Quando tudo é previsto, sugerido e lembrado por um sistema, esse tipo de acaso fica cada vez mais raro.
O perigo é confundirmos duas formas de encantamento muito diferentes. A primeira é o maravilhamento tecnológico. A sensação de espanto diante de um algoritmo que acerta seu destino, sua fome e seu sono. A segunda é o maravilhamento da vida: aquele susto bom de encontrar o que você não estava procurando, conhecer alguém por acidente, gostar de um sabor que nunca teria escolhido se um filtro estivesse no comando. A IA generativa e o IoT são excelentes em produzir o primeiro tipo de espanto ao mesmo tempo em que corroem, silenciosamente, o segundo.
Quando tudo ao nosso redor aprende quem somos para nos devolver versões cada vez mais refinadas de nós mesmos, a existência corre o risco de virar um loop altamente personalizado. Rota personalizada, feed personalizado, playlist personalizada, dieta personalizada, rotina personalizada e a vida se transforma em uma redundância infinita. Em nome do conforto, aceitamos uma espécie de vigilância amigável que organiza o dia para que nada fuja do script.
A tecnologia é uma ferramenta útil. Mas ela deve nos obedecer, nunca o contrário. Quando até a surpresa passa a vir em forma de recomendação, corremos o risco de transformar o mundo em uma vitrine infinita de versões ligeiramente diferentes da mesma coisa, cuidadosamente calibradas para não nos tirar demais do lugar.
A observação essencial agora, para a vida cotidiana, não é sobre o poder da tecnologia e da Inteligência Artificial. A questão é se estamos dispostos a deixar que ela decida o que vale viver. Em algum ponto, será preciso dizer não ao trajeto esperado, ao produto sugerido ou ao padrão repetido. É uma forma simples de dar espaço para o inusitado e uma chance ao banal que se transforma em surpreendente.
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