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Quer entender como os EUA fazem suas guerras? Assista séries
Quando a Venezuela volta ao centro do noticiário global, a sensação não é exatamente de surpresa. É de déjà-vu. Você está em casa, o café esfriando, e o telejornal despeja palavras que parecem saídas de um trailer de ação: invasão, captura, crise geopolítica, petróleo e […]
Quando a Venezuela volta ao centro do noticiário global, a sensação não é exatamente de surpresa. É de déjà-vu. Você está em casa, o café esfriando, e o telejornal despeja palavras que parecem saídas de um trailer de ação: invasão, captura, crise geopolítica, petróleo e Conselho de Segurança da ONU.
É nesse momento que a ficção faz um truque curioso. Não o de prever o futuro, mas o de treinar nossos olhos para certos mecanismos de segurança nacional e estratégia política: quem manda, quem comunica, quem enquadra o vilão e quem se torna o “personagem necessário”. No streaming, isso gera audiência recorde; na vida real, gera vertigem.
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Enquanto a notícia roda, o gesto doméstico é banal: abaixar o volume para atender uma ligação ou pausar o vídeo para “entender direito”. É como se a realidade, complexa demais, também pedisse um replay.
Quem controla a versão, controla o país
Em séries de sucesso como Homeland (2011–2020), a crise nunca é apenas o evento explosivo. O foco é o “pós-evento”: versões em disputa, informação incompleta, ruído diplomático e o frio cálculo político. A pergunta que prende o espectador não é sobre a explosão, mas sim: “quem está contando essa história e por quê?”.
Na Venezuela, esse mecanismo de guerra de narrativas aparece com força em cada disputa de legitimidade. Governo, oposição e aliados internacionais falam ao mesmo tempo, tentando dominar o vocabulário. Termos como “transição”, “golpe”, “intervenção” ou “sequestro” mudam a percepção pública sem precisar alterar um único fato.
No thriller político, isso é trama; no mundo real, isso vira destino nacional.
O herói interventor: de Jack Ryan ao novo Superman
A série Jack Ryan (2018–2023) opera em um ritmo de ação tática, mostrando como crises nacionais atraem interesses estratégicos e sanções econômicas. Mas a cultura pop recente levou essa discussão para um nível ainda mais simbólico. No mais recente filme do Superman (2025), o debate sobre a intervenção em nações estrangeiras e a destituição de líderes autoritários ganha uma escala mítica.
O herói não apenas salva pessoas; ele confronta a soberania de um país para “fazer o que é certo”, removendo um ditador do poder. É a fantasia da solução rápida para problemas geopolíticos complexos. É nesse clima que se encaixa o episódio recente que dominou as manchetes sobre a invasão dos Estados Unidos na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro.
Quando a estética do blockbuster encosta no hard news, o público tende a processar a política como se fosse um filme de super-herói.
Vale lembrar que a própria série Jack Ryan já havia qualificado a Venezuela como uma “ameaça mundial” devido ao seu petróleo e minerais. O risco, porém, é o de sempre: tentar encaixar um país real no molde simplista de heróis e vilões. A vida real não respeita o arco dramático de Hollywood.
Política é gente, mas também é máquina
No universo da literatura de espionagem, John le Carré funciona como um antídoto contra a adrenalina barata. Em vez de “missões impossíveis”, ele entrega burocracia institucional. Livros clássicos como O Espião que Saiu do Frio lembram que o Estado não age como um herói de capa; age como uma máquina de interesses e descartes.
Já Frederick Forsyth (em obras como Cães da Guerra) mostra o lado mais incômodo da instabilidade política: ela pode ser tratada como engenharia logística. Financiamento, intermediários e discursos prontos para exportação. O “evento” não cai do céu; ele é construído por quem detém os recursos.
E aí voltamos para a sala de estar, para o volume do telejornal e para aquele comentário de canto de boca: “isso vai dar em quê?”. No fundo, a pergunta é doméstica porque as consequências da macroeconomia e da guerra sempre terminam na nossa mesa.
Pra fechar!
Talvez a cultura pop não tenha “antecipado” a crise na Venezuela. Talvez ela apenas tenha nos acostumado ao formato: instabilidade + propaganda + disputa de legitimidade, repetidos até parecerem normais.
A provocação que sobra é simples: quando um país real começa a soar exatamente como um roteiro de Homeland ou um filme do Superman, nós estamos finalmente entendendo o mundo ou apenas assistindo, passivamente, a quem ficou com o controle da narrativa?
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