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Pegue um vinho e prepare-se: a IA quer te seduzir
Você começa uma conversa em um ambiente qualquer. Vamos imaginar que seja no trabalho. O início é um pouco difícil. As perguntas e respostas não se encaixam direito. Até que, de repente você nota que a conversa flui. Existe um ar de proximidade. Os vocabulários […]
Você começa uma conversa em um ambiente qualquer. Vamos imaginar que seja no trabalho. O início é um pouco difícil. As perguntas e respostas não se encaixam direito. Até que, de repente você nota que a conversa flui. Existe um ar de proximidade. Os vocabulários se aproximam e há um certo aconchego. Ao final de cada resposta você nota um interesse. Uma pré-disposição para conversar mais. As perguntas demonstram interesse e você quer continuar a falar mais. Depois do trabalho a conversa vai para casa e, quando você menos espera, até no metrô o papo continua. Há um jogo de sedução. E a inteligência artificial está fisgando você.
A inteligência artificial generativa vem sendo apresentada como ferramenta de trabalho, mas também como algo mais sutil: um sistema que aprende a falar conosco. Modelos generativos são treinados em grandes bases de dados de texto, imagem, áudio ou código para reconhecer padrões e, a partir deles, criar o conteúdo. Depois desse treino inicial, eles continuam sendo ajustados pela interação com usuários, por feedback explícito e por dados de uso, o que permite calibrar respostas a estilos, preferências e modos de perguntar específicos.
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Do ponto de vista técnico, isso é chamado de personalização: sistemas que coletam informações sobre comportamento, preferências e contexto do usuário para produzir respostas mais relevantes e fáceis de assimilar. Na prática, é como se a IA fosse montando um mapa implícito do que nos interessa, do vocabulário que usamos, do tom com que gostamos de ser abordados. Quanto mais um sistema se ajusta às expectativas do usuário, maior o engajamento, o tempo de uso e a sensação de que aquele conteúdo é único, compreensível e “fala comigo”. Se uma ferramenta de IA lê seu perfil nas redes sociais e estabelece os elementos centrais do que você gosta, o que curte, como fala, ela estará preparada para uma interação mais preparada. Quase que uma alma gêmea tecnológica. Isso é assustador.
Essa lógica, aplicada a assistentes conversacionais, cria algo parecido com um modelo mental compartilhado: quando perguntamos sequencialmente sobre um tema e vamos aprofundando nuances, o sistema registra contexto, infere prioridades e reorganiza a forma de responder. O alinhamento personalizado aprende a modular extensão do texto, nível de detalhe e até estrutura argumentativa de acordo com o que aquele usuário costuma preferir. A IA, assim, não aprende só sobre o mundo; aprende sobre nós – e passa a moldar o discurso para encaixar melhor no nosso modo de pensar.
Aqui começa o jogo da sedução. Seduzir vem de “se-ducere”: desviar do caminho. Sedução não é apenas desejo sexual, mas uma arte de atração que joga com aproximações, omissões, rodeios e gestos que criam um campo de encantamento, mais do que de confronto direto. A sedução é um jogo permeado por linguagens. Também é um jogo secreto entre os jogadores. Ambos sabem que jogam, mas não revelam a disputa. O que se busca é o envolvimento, a adaptação, o parecer ser para o outro. Busca-se ser o que o outro deseja.
Aplicada à IA generativa, a figura do sedutor ajuda a nomear algo que, em geral, aparece só como “boa experiência de usuário”. Sistemas de IA são desenhados para parecer amigáveis, cooperativos, com respostas claras e alinhadas ao estilo do interlocutor. À medida que aprendem a antecipar nossas preferências, os algoritmos tendem a oferecer não apenas o que julgamos “certo”, mas o que é mais assimilável, menos dissonante, mais confortável. O
Nesse ponto, temos um “jogo de sedução” algorítmico. A IA quer – no desenho de produto, nos KPIs de engajamento – ser mais amigável para você. Aprende quais tipos de resposta você tende a aceitar, que formulações geram menos rejeição, quais temas disparam atrito. E, assim, vai moldando um estilo que cria familiaridade e reduz inquietação. Menor atrito e mais fluidez.
A sedução pelos algoritmos soma-se ao maravilhamento do uso da tecnologia. Em um mundo de solidões dispersas em todas as camadas, a inteligência artificial disputa corações e mentes. Cria um universo imaginário em que o contato estabelece uma interação quase humana entre as partes (ao menos na visão de uma dessas partes). Não é estranho que usem as ferramentas para pedir conselhos, busquem respostas para impasses amorosos e conselhos dos mais variados. A inteligência rrtificial dará as respostas de nosso agrado. Nada mais sedutor do que isso.
A inteligência artificial generativa é dispositivo de sedução silenciosa, fundado na arte de falar como nós, até que a linha entre auxílio e acomodação fique borrada. Entre a promessa de produtividade e o conforto de sempre ter uma resposta “do nosso jeito”, é fácil esquecer que, em algum ponto, talvez fosse desejável que a máquina fosse “mais máquina”. E que cada um de nós compreende-se que nesse jogo de sedução alguém tem que ser humanamente responsável consigo. Coisa que nunca se deve esperar dos algoritmos.
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