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Para conversar com Jesus, digite a sua senha
O texto a seguir merece uma rápida introdução. Sou ateu. A explicação é necessária para que haja compreensão de que a opinião abaixo é um exercício crítico de um problema que pode atingir milhões de pessoas que, em situação de vulnerabilidade, podem ser vítimas da mercantilização da fé. O fato de não ter crença religiosa não diminui a preocupação dos problemas que podem surgir com a mistura de Inteligência Artificial e crença religiosa
A Inteligência Artificial está perigosamente perto de romper o limite de ferramenta para se tornar objeto de culto. E o mais inquietante é que isso não está acontecendo em laboratórios futuristas, mas em apps na loja do seu celular: religiões lançadas em redes sociais, avatares de Jesus por assinatura, “bots” de Buda e encontros entre big techs e líderes religiosos tentando correr atrás de uma ética que já chegou atrasada.
Tomemos o caso da Just Like Me. A empresa lançou um aplicativo que oferece videochamadas com um avatar de Jesus Cristo gerado por IA, com dois minutos de teste e, depois, cobrança por minuto ou por pacote mensal. Esse Jesus digital foi treinado exclusivamente na Bíblia King James e em sermões cristãos, fala vários idiomas, lembra conversas anteriores e foi modelado visualmente a partir da aparência de um ator famoso por interpretar Jesus numa série de sucesso. É difícil imaginar uma síntese mais explícita do que acontece quando fé, entretenimento e modelo de negócios por assinatura se fundem numa só interface.
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O problema vai além da mercantilização da espiritualidade. A IA generativa é, por natureza, um sistema de adaptação. Ela imita linguagem, padrões emocionais, estilos de aconselhamento. Quanto mais conversa, mais o sistema refina o tom, a cadência, as respostas. É um simulador de intimidade. Quem está do outro lado da tela não enxerga vetores num espaço de probabilidades, mas alguém que escuta, responde e, o pior, aconselha. A tecnologia foi desenhada para parecer próxima. Quando a proximidade dialoga com a fé e mobiliza pelo algoritmo um desastre pode estar próximo.
O que poderia ser um acesso eficiente a uma teia de informações sobre um livro sagrado se transforma num bate-papo contínuo com a própria figura central da fé. A IA deixa de ser, por exemplo, ferramenta para localizar textos e ambientar historicamente as informações, para se transformar em um guia de direcionamento espiritual e de conduta. O usuário pode pedir conselhos sobre a vida conjugal, como lidar com problemas cotidianos, o que se deve perdoar e muitas outras dúvidas. A máquina responde com versículos, metáforas e voz calma. Não há fé do lado da IA, mas há projeção de fé do lado humano.
Nesse novo cenário a IA passa a ser o centro da experiência religiosa. O algoritmo se torna pastor, profeta e, às vezes, até “deus” implícito. É ele quem define o que o fiel vê, lê e ouve. Toca-se a mediação, temos substituição. Um novo templo digital na palma das mãos.
A plataforma de IA é, por definição, empática. Ela é construída para gerar vínculos semânticos que são entendidos como adesão afetiva. O diálogo flui. Quando toca em camadas mais profundas, como a fé, a adesão aumenta. Se alguém, em desespero, busca na crença um caminho e encontra na IA a interlocução, o desastre está perto. As consequências podem ser desastrosas e, diferente de um líder religioso, os algoritmos não têm que lidar com elas. Não serão destituídos, processados ou presos. Algoritmos não lidam com a culpa (alguns humanos também não, é bem verdade). Outro aspecto é que os avatares atuam contra o espaço de oração e estudo. Para que rezar se posso conversar? É muito mais divertido. Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil que me perdoe), ligo o celular e digito minha senha.
A construção de diálogos com figuras centrais de crenças religiosas é um campo tão perverso quanto a terapia pelas plataformas ou a criação de relações afetivas com personagens criados pelas máquinas. A relação é individual, do outro lado da tela não está nenhuma pessoa, não existe reciprocidade real. Mas as sensações, afetos e fé dizem o contrário. A linguagem não é o que o outro fala. A linguagem é o outro. Isso cria a falsa percepção do humano e do divino.
A farsa se transforma em cotidiano. O desejo de encontrar alento em um mundo em que enormes setores da juventude constroem relacionamentos sem contato físico e idosos não encontram espaço para o diálogo, a fuga para o algoritmo parece ser uma coisa boa. Não é. Eles trabalham para empresas que querem, de alguma forma, lucrar e vender algo. Nem que seja a sua alma.
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