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O monumento invisível que ninguém mais atende
Você passa por ele todos os dias, mas provavelmente não o “vê” há anos. Ele serve de abrigo para a chuva, suporte para panfletos de “trago seu amor de volta” ou apenas como um obstáculo no caminho do pedestre apressado. O orelhão, com seu design […]
Você passa por ele todos os dias, mas provavelmente não o “vê” há anos. Ele serve de abrigo para a chuva, suporte para panfletos de “trago seu amor de volta” ou apenas como um obstáculo no caminho do pedestre apressado. O orelhão, com seu design de “ovo” cortado que já foi exportado para o mundo, virou um fóssil urbano. Mas, enquanto as prefeituras iniciam o desmonte final das cabines públicas, como mostra o noticiário recente, esse objeto vive uma estranha imortalidade na nossa imaginação.
O gesto de levar a mão ao ouvido, o barulho das fichas (ou o silêncio do cartão telefônico) e a privacidade precária de uma concha de fibra de vidro são elementos que a tecnologia digital ainda não conseguiu apagar totalmente. O orelhão morreu na calçada, mas virou um ícone cult.
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O Agente Secreto e a estética da vigilância nacional
O ponto de virada dessa “presença invisível” na cultura brasileira recente está no cartaz de O Agente Secreto. No filme de Kleber Mendonça Filho, ambientado nos anos 70, o orelhão não é um adereço de fundo; ele é o centro nervoso da trama. Ali, ele representa a comunicação analógica em tempos de repressão — o lugar onde segredos eram sussurrados e onde a vigilância se tornava física.
Na cultura pop nacional, o orelhão sempre foi o confessionário das ruas. Lembre-se das novelas clássicas ou de filmes como Central do Brasil, onde o telefone público era o único elo entre o sertão e a metrópole. Ele forjou uma identidade visual para o Brasil: aquela estrutura arredondada de Chu Ming Silveira é, talvez, o objeto de design brasileiro mais reconhecível do planeta, servindo como uma “escultura” que guardava as vozes de uma nação pré-internet.
Cabines transatlânticas: portais, heróis e alienígenas
Embora o nosso “ovo” de fibra seja único, a mística do telefone público é um fenômeno global. Se no Brasil ele é uma testemunha histórica, em outros países ele virou um dispositivo de ficção científica. Na Inglaterra, a TARDIS de Doctor Who é, essencialmente, uma cabine telefônica policial dos anos 60. Ela é maior por dentro, viaja no tempo, mas sua casca externa é um lembrete de que a comunicação pública é, por si só, um portal para o desconhecido.
Já nos Estados Unidos, a cabine telefônica clássica — aquela de vidro e metal — serviu por décadas como o vestiário oficial do Superman. O gesto de Clark Kent entrando em uma cabine para emergir como o Homem de Aço selou o destino desses objetos: eles são lugares de transformação. Quando o cinema e os quadrinhos usam a cabine, eles estão nos dizendo que aquele é um espaço onde a vida comum para e o extraordinário acontece. Sem orelhões ou cabines, onde os heróis de hoje trocam de roupa? No banheiro de uma cafeteria?
O charme do anacronismo e o fim do sinal de linha
O fim dos orelhões no mapa das cidades brasileiras marca o encerramento de um ciclo da telefonia pública. Hoje, eles são “monumentos fantasmas”. Mas há um charme inegável no seu anacronismo. Ver um orelhão em uma produção atual gera um efeito imediato de nostalgia estética, o chamado retro-tech.
Eles ajudam a criar personalidade em uma obra justamente porque nos lembram de um tempo em que a comunicação exigia um deslocamento físico, uma ficha no bolso e a coragem de falar em público. O orelhão era o nosso feed de notícias presencial, o lugar onde a vida da cidade acontecia em tempo real.
Pra fechar!
Talvez a gente não sinta falta de usar um orelhão — ninguém sente falta de cartões que acabam no meio da frase ou do cheiro duvidoso das cabines. Mas sentiremos falta da sua silhueta nas esquinas.
A pergunta que fica, enquanto as equipes de remoção levam as últimas conchas de fibra, é: agora que a comunicação é totalmente invisível e está no nosso bolso, para onde foram os segredos que só podiam ser ditos dentro de um orelhão? Será que a cultura pop vai conseguir inventar um substituto à altura para esse confessionário urbano?
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