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O exagero define a nova era dos casamentos

Depois de anos dominados pela estética clean, casamentos mergulham em identidades visuais autorais, narrativas afetivas e experiências desenhadas para circular entre convidados, câmeras e redes sociais

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Durante anos, bastava um convite bege, flores em tons neutros e uma cerimônia “clean” para que um casamento parecesse sofisticado. A lógica da padronização tomou conta do mercado de eventos, impulsionada principalmente pelas redes sociais e pela repetição de referências em plataformas como Pinterest e Instagram. Aos poucos, no entanto, a estética minimalista começou a produzir um efeito colateral inesperado: muitos casais passaram a sentir que os próprios casamentos pareciam intercambiáveis. Convites idênticos, paletas repetidas e cerimônias visualmente semelhantes criaram uma sensação de saturação estética. O “bonito genérico” começou a perder força justamente quando a personalização se tornou um dos principais valores do consumo contemporâneo.

Essa mudança de comportamento aparece de forma cada vez mais evidente com a derrocada do da estética “clean girl” em todas as frentes: moda, beleza, entretenimento, cultura e, claro, na indústria de casamentos. Em vez de esconder excessos, muitos casais passaram a buscar projetos visuais intensos, coloridos e emocionalmente carregados. Referências à cultura pop, ilustrações autorais, texturas, motion design, tipografias desenhadas a partir da escrita dos noivos, experiências digitais imersivas… tudo vale para substituir a neutralidade que dominou o setor na última década. O exagero, antes associado ao excesso e ao brega, passou a ser interpretado como autenticidade. Quanto mais pessoal e específico o casamento parece, maior tende a ser seu valor simbólico.

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Ao mesmo tempo, a transformação não é apenas estética. Ela também reflete uma mudança estrutural na maneira como os casamentos são concebidos. A cerimônia deixou de funcionar apenas como evento social e passou a operar como um projeto criativo completo, onde direção de arte, narrativa visual, tecnologia e memória emocional caminham juntas. Segundo o relatório “Pinterest Predicts 2025”, divulgado pela plataforma Pinterest, buscas relacionadas a casamentos maximalistas, paletas vibrantes e decorações inspiradas em estética vintage e Y2K cresceram globalmente entre usuários da geração Z e millennials. A tendência acompanha um movimento mais amplo da cultura digital contemporânea, em que identidade visual deixou de ser exclusividade de marcas e passou a fazer parte da forma como indivíduos constroem e apresentam suas histórias.

Do casamento ao conceito

Foi justamente percebendo essa lacuna que nasceu o Studio Exageradah!, criado inicialmente pela CEO e Diretora Criativa Ana Poweel e duas amigas da faculdade. Segundo ela, o estúdio surgiu a partir da percepção de que o mercado brasileiro de casamentos ainda operava dentro de uma estética extremamente homogênea. “Quando a gente jogava no Pinterest casamentos coloridos ou casamentos fora do óbvio, só aparecia aquele mais do mesmo, preto e branco. E quando tinha referências coloridas, todas eram de fora do país”, afirma Ana. Ela explica que a primeira proposta do estúdio era justamente importar referências visuais mais ousadas que já apareciam em mercados internacionais, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. A ideia inicial, segundo ela, era oferecer projetos visualmente mais expressivos para noivas que não se identificavam com o padrão tradicional.

Com o crescimento do estúdio, porém, a equipe percebeu que apenas a estética não sustentaria um diferencial de longo prazo. Segundo Ana, o foco deixou de ser somente criar casamentos “bonitos” para construir narrativas profundamente conectadas à personalidade dos casais. “Hoje, nossa diferença não é só a parte estética. Antes de ir para Pinterest ou qualquer coisa, a gente entende os princípios do casal, a personalidade, a história deles. É como um projeto de marca”, explica. O processo envolve reuniões longas de briefing, consumo das referências culturais dos noivos e um mapeamento detalhado da forma como eles enxergam amor, romance e memória. “A gente pediu para um casal listar filmes favoritos, livros que gostavam de ler. Passamos um fim de semana inteiro imersos nesses filmes para entender o que era magia para eles, o que era romance para eles”, conta.

Nesse novo cenário, identidade visual deixou de ser apenas convite, menu ou papelaria. O casamento passa a funcionar como um universo visual integrado, onde cada detalhe conversa com o restante da experiência. “Todos os projetos são pensados para que tudo converse, convite, menu, decoração”, afirma Ana. Segundo ela, a estética é consequência do estudo emocional e simbólico do casal. “Teve uma noiva muito intensa, então trouxemos uma cor de vermelho vinho mais intenso. O noivo era muito calmo, então veio um azul mais suave. Na paleta cromática, eles se complementavam.” O resultado é uma lógica muito mais próxima da direção de arte e do branding do que do modelo tradicional de organização de festas.

Créditos: Ana P. Kioshima e Tanise Gomes

Legenda: Ana Poweel, CEO e Diretora Criativa do Studio Exageradah!

Maximalismo emocional

A ascensão desse novo repertório visual também representa uma reação direta ao domínio do minimalismo. Para Ana Poweel, o crescimento de discursos sobre autenticidade nas redes sociais ajudou a acelerar essa mudança. “As noivas falam muito que recebem convites das amigas e não sabem de quem é quem, porque são todos iguais, todos brancos”, afirma. Segundo ela, a internet consolidou durante anos uma lógica estética baseada em fórmulas rígidas e tendências extremamente parametrizadas. Em resposta, muitos casais passaram a rejeitar aquilo que parecia genérico ou temporário. “Elas não querem mostrar para os filhos um convite que não representa nada. Querem mostrar algo que conte a história delas”, diz.

Dentro desse contexto, o exagero deixa de funcionar como excesso visual vazio e passa a operar como linguagem afetiva. “O exagero vem de um exagero de amor, um exagero de cuidado”, afirma Ana. Ela conta que o próprio nome do estúdio foi pensado a partir não só da intensidade emocional dos casais atendidos, mas de como a equipe do Exageradah! coloca intensidade na forma de pensar cada estética. “Você não fala ‘eu te amo’ uma vez só. Você fala várias vezes, de várias formas, e isso é um exagero. Mas a gente reassistir sete vezes a mesma reunião que fizemos com um casal para extrair o máximo da personalidade deles é exagero também.” Segundo a diretora criativa, mesmo projetos minimalistas podem carregar essa lógica de excesso emocional. “Cada tipografia, cada elemento, é proposital”, explica.

Esse maximalismo emocional também conversa diretamente com movimentos culturais contemporâneos. Elementos ligados à nostalgia digital, estética Y2K, cultura pop, memes, colagens visuais e referências hiper personalizadas passaram a aparecer com frequência nos projetos. Ana afirma que tipografias autorais e materiais com mais textura ganharam força nos últimos meses. “As noivas vieram muito com tons quentes, cores mais intensas, renda, texturas”, conta. Segundo ela, até a escrita manual dos próprios casais começou a virar matéria-prima para o design dos convites. “A gente está desenvolvendo um projeto em que a tipografia vem das letras dos próprios noivos.”

Casamentos pensados para a câmera

A influência das redes sociais nessa transformação é inevitável. Casamentos contemporâneos são frequentemente concebidos já considerando como serão fotografados, filmados e compartilhados online. A lógica da “instagramabilidade”, porém, mudou de perfil. Se antes o objetivo era reproduzir uma estética considerada elegante e universal, agora muitos casais buscam justamente diferenciação visual. “Algumas noivas chegam falando que querem que o casamento tenha destaque nas redes sociais, que ele seja mostrado”, afirma Ana. Segundo ela, isso exige que os projetos sejam construídos levando em conta experiência visual, circulação digital e interação dos convidados.

Na prática, isso significa criar materiais que funcionem tanto presencialmente quanto em imagem. “Se a noiva quer que as pessoas tirem foto no casamento, a gente pode trazer um espelho com adesivos da identidade visual para os convidados fotografarem”, explica. Ao mesmo tempo, o estúdio busca evitar reproduções diretas do que já circula massivamente nas redes. “A gente consome muito o universo daquela noiva no ambiente digital para tentar não repetir exatamente aquilo”, afirma Ana. Segundo ela, mesmo elementos tradicionais, como lágrimas de alegria ou convites físicos, precisam ganhar abordagens próprias.

A assinatura criativa do estúdio, segundo a diretora, está justamente na recusa de repetir fórmulas prontas, ainda que os casais compartilhem interesses parecidos. “Nenhuma história é igual à outra”, afirma. Ela cita como exemplo dois casais que gostavam de jogos, mas receberam soluções completamente diferentes. Em um projeto, o casamento virou um jogo de mistério. Em outro, referências a jogos de memória e ao universo de “Onde Está Wally?” foram incorporadas à narrativa visual. “As tendências vêm e vão. O que fica é a forma de contar histórias”, diz. Em um dos projetos mais recentes do estúdio, o hábito do noivo de dar flores semanalmente à noiva foi usado de forma criativa pela equipe Exageradah!: foi criado um convite interativo para padrinhos e madrinhas, que montavam um buquê personalizado a partir de ilustrações impressas.





Tecnologia como ferramenta criativa

A transformação visual dos casamentos também depende diretamente da evolução das ferramentas tecnológicas disponíveis para designers e criativos. Softwares como Adobe Illustrator, Adobe After Effects e Procreate passaram a ocupar um papel central na construção dessas experiências visuais integradas. Convites animados, motion design, sites personalizados e experiências digitais interativas deixaram de ser exceção para se tornar parte recorrente dos projetos contemporâneos. Segundo dados divulgados pela plataforma The Knot Worldwide em relatórios de tendências para 2026, casais têm investido cada vez mais em experiências híbridas, que unem presença física e narrativa digital contínua.

Ana afirma que o digital hoje faz parte da jornada emocional do convidado. “A gente tenta criar uma experiência 360”, explica. Segundo ela, músicas importantes para o casal, referências a filmes, séries e objetos pessoais são incorporados tanto aos materiais impressos quanto aos digitais. “A ideia é imergir o convidado”, diz. Isso inclui save the dates animados, sites interativos e peças em motion design pensadas para circular em aplicativos de mensagem e redes sociais. “Hoje, 99% das noivas não fazem mais convite impresso”, afirma.

Apesar da incorporação tecnológica crescente, Ana afirma que o estúdio ainda evita depender diretamente de inteligência artificial na criação estética final. “A gente não abre mão de fazer as ilustrações e o design internamente”, diz. Segundo ela, a IA aparece mais como ferramenta operacional e de apoio do que como substituição criativa. “O lado negativo é o imediatismo. As pessoas acham que tudo pode ser feito rápido.” Ela também aponta preocupação crescente com plágio e reprodução automatizada de projetos visuais. “A gente já sofreu muito com isso. Por isso, hoje só publica projetos depois do casamento e criou certificado de autenticidade.”

O novo luxo é ser único

Essa valorização extrema da personalização também revela uma mudança importante no comportamento de consumo ligado ao mercado de luxo. Em vez de priorizar apenas ostentação material, muitos casais passaram a investir em conceito, narrativa e exclusividade simbólica. O casamento deixa de ser apenas uma cerimônia sofisticada e passa a funcionar como uma experiência curada, quase como uma direção de arte afetiva da relação. Segundo Ana, isso exige um modelo de trabalho mais lento e profundamente artesanal. “A gente entendeu que o problema do mercado era volume e falta de atenção. Então decidimos trabalhar com menos projetos e mais cuidado”, afirma.

Esse movimento também muda a relação emocional entre fornecedores e clientes. Ana afirma que o processo frequentemente cria vínculos intensos entre equipe e casais. “A gente fica muito triste quando termina o casamento, porque se apega muito ao processo”, conta. Segundo ela, muitas reuniões terminam em choro, tanto dos noivos quanto da equipe criativa. “A gente quer atingir pessoas que vão mandar áudio contando ideia nova, que vão chorar falando da história de amor delas.” O exagero, nesse caso, deixa de ser um recurso visual e passa a funcionar quase como filosofia emocional.

Para Ana, a tendência não deve desaparecer tão cedo justamente porque responde a uma necessidade mais profunda de expressão individual. “Pessoas exageradas sempre existiram”, afirma. Segundo ela, o diferencial agora é que essas emoções passaram a ocupar espaço legítimo dentro da estética dos casamentos. “As pessoas começaram a usar ‘exagerado’ como adjetivo do relacionamento delas. Falam que estão exageradamente apaixonadas.” Em um mercado cada vez mais marcado pela repetição de imagens e tendências aceleradas, talvez o verdadeiro luxo contemporâneo esteja justamente naquilo que não pode ser replicado: a história específica de cada casal.

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