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Não olhe para cima. Quem sabe a onda da IA não te pegue

O que os olhos não vêem o coração não sente. Essa é uma das maiores mentiras açucaradas contadas durante décadas e que, ainda hoje, frequenta as frases feitas de livros de cabeceira de autoajuda. O mais impressionante é que muita gente acredita nisso. E sucumbe. […]

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O que os olhos não vêem o coração não sente. Essa é uma das maiores mentiras açucaradas contadas durante décadas e que, ainda hoje, frequenta as frases feitas de livros de cabeceira de autoajuda. O mais impressionante é que muita gente acredita nisso. E sucumbe.

A mente humana é pródiga em construir cenários de autopreservação, fazendo uma brincadeira entre a razão e o desejo absurdo de que o óbvio não aconteça. Recentemente a Microsoft divulgou um relatório sobre as principais profissões que serão impactadas pela inteligência artificial. A pesquisa “Working with AI: Measuring the Occupational Implications of Generative AI”, mapeou 40 profissões com maior sobreposição entre suas tarefas e o que a IA generativa já consegue fazer. O foco é o mercado americano, mas os autores destacam que os padrões podem se repetir em outros países.

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Segundo o estudo, as ocupações mais expostas são aquelas centradas em linguagem, informação e tarefas digitais repetitivas: tradutores e intérpretes, escritores e autores, jornalistas, redatores técnicos, revisores, cientistas de dados, desenvolvedores web, analistas de gestão, representantes de atendimento ao cliente, telemarketing, entre outros. A pesquisa reforça que “alta aplicabilidade” não significa substituição total, mas já admite que a pressão recai primeiro sobre funções de entrada e camadas mais operacionais dessas carreiras.

As tarefas focadas na linguagem cotidiana são as mais impactadas por um modelo de trabalho. Muitas delas são pródigas em produzir manuais. Surpresa: um manual é muito semelhante a um prompt. Um manual determina parâmetros e constrói modelos para os resultados de texto. Ou seja: mais manuais, mais regras a serem implantadas nas ferramentas e melhores tendem a ser os resultados. Isso vale para algumas atividades do jornalismo. Empresas jornalísticas têm manuais de redação. Regras claras, hierarquia de informações, padronização de termos e outras coisas mais. A IA não mata a reportagem. Mas se torna um auxiliar na redação das matérias. Com um manual implantado, a possibilidade de textos produzidos pela inteligência artificial de acordo com o manual é maior a cada uso. A linguagem é aprendida.

O estudo, no entanto, apresenta uma contraposição. Um conjunto profissões entre as menos impactadas, marcadas por forte componente físico, manual ou de contato direto com pessoas em situações objetivas: trabalhadores de construção e pavimentação, operadores de equipamentos pesados, auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, massoterapeutas, auxiliares de cirurgias, trabalhadores de manutenção de rodovias, lavadores de louça, operadores de máquinas de embalagem, reparadores de pneus, entre outros. Nessas atividades, a combinação de corpo, contexto e improviso ainda é algo que a IA, sozinha, não consegue replicar.

Essa observação merece destaque. Quanto mais complexas as operações que envolvem decisões combinadas entre corpo e improviso, mais distante é o uso de inteligência artificial na ação final. Nesses casos, a IA entra na gestão, da divulgação, nas atividades de administração. Por enquanto, não na massagem. Mas, então, o mundo seria dos artesãos? Em parte sim. Reafirmo: por enquanto.

O estudo deixa algumas lições. Se você atua em uma área de linguagem (incluindo números) é melhor se preocupar. E sorrir. O uso da IA nessas atividades está começando. Isso quer dizer que a grande maioria está no mesmo patamar em habilidades de uso. É uma oportunidade. Claro que podemos – (devemos) ser críticos e não achar que o mundo cor de rosa se abriu. Postos de trabalho estão em risco. Será preciso correr e se adaptar. A implantação da IA no mercado de trabalho não depende de você. Sua vontade não é determinante para controlar e evitar seu uso. Computadores gráficos entraram em agências de publicidade há décadas. Alguns diretores de arte sucumbiram. Outros permaneceram usando a tecnologia como ferramenta. Computadores entraram nas redações de jornais. Não era possível defender que, na época, manter as máquinas de escrever, apesar do barulho inspirador das teclas, era uma decisão individual. Informação entra na linha de produção. E, nessa, o tempo é moeda corrente. O debate sobre ser ou não uma bolha vale para investidores, não para os profissionais usuários.

Em todas as atividades que envolvem linguagem existe um espaço que a inteligência artificial não entra. Na opinião, na crítica, na análise profunda e relacional e na criatividade. Por isso é preciso usá-la no que é simples, repetitivo e banal. E não no que requer elaboração e requinte intelectual.

Você, certamente, quando criança, ao brincar de esconde-esconde, colocava a mão sobre o rosto e achava que estava escondido do bicho papão. Crianças fazem isso hoje com uma sensação de que, ao não ver, não são vistas. Estariam protegidas. É um exemplo infantil do filme Não Olhe para Cima. Astrônomos descobrem que um meteoro vai se chocar com a Terra. Por uma série de motivos, da imbecilidade à ganância, a recomendação final dos chefões  é :não olhe para cima.

Claro, não olhar para cima não evita o impacto e a extinção quase que total da humanidade. Não olhar para a IA terá o mesmo efeito. Você será esmagado pelos acontecimentos. Tire as mãos do rosto. Olhe para cima. Você ainda tem tempo de usar a IA a seu favor.

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