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Na era da IA, por que a moda está correndo para o passado?
Em um mundo cada vez mais digital, a nostalgia ganha força como linguagem estética e inspira a moda a reinterpretarem clássicos para uma nova geração
Por Clarissa Palácio
“Quanto mais a tecnologia acelera a criação, amplia o acesso às referências e reduz o tempo de vida das tendências, maior é o desejo por produtos que transmitam identidade, permanência e significado”, disse Fernanda Yumi Fujiwara, executiva responsável pela liderança criativa da Anacapri, quando questionei por que a estética retrô ganhou tanta força na moda. É verdade. De acordo com uma pesquisa da Routledge, em 2023, 60% dos adultos da Geração Z gostaria de viver nos anos 90, que representa uma época com menor acesso à internet. Como a máquina do tempo ainda não foi inventada, o jeito é apelar para itens analógicos e simular uma vida menos tecnológica.
Como consequência, é nítido o retorno do sucesso de discos de vinil, câmeras descartáveis e jogos de tabuleiro como resposta à necessidade de passar algum tempo longe das telas. Mas não são só os rituais que passam por transformação: a moda acompanha essa tendência. Calças baixas, cintos largos, compras em brechós passam a marcar o cotidiano das jovens da GenZ. E foi olhando para essa novidade (não tão nova) que a Anacapri lançou o AC Retrô: tênis inspirado nos tênis esportivos das décadas de 1970 e 1980.
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A marca acredita a grande inspiração para seus produtos é o equilíbrio entre memória, inovação e estilo de vida. “Na ANACAPRI, enxergamos esse movimento como uma oportunidade de reinterpretar, e não de reproduzir. Buscamos compreender o que tornou determinadas silhuetas, materiais e detalhes tão duradouros e traduzir essa essência para a mulher contemporânea. O resultado não é um produto nostálgico, mas um design que conecta história e atualidade de forma natural”, afirma Fernanda.
Revisitar o passado a inventar o futuro
Foi Antoine Lavoisier quem afirmou que “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, se referindo à conservação das massas na natureza. Na moda, essa variável não é muito diferente. Fernanda acredita que , “na moda, poucas ideias surgem do zero. O verdadeiro exercício criativo está em reinterpretar referências culturais e estéticas à luz dos comportamentos e das necessidades do presente”. É por isso que a equipe da marca acredita que inovação não está em criar algo completamente inédito, mas em oferecer uma nova perspectiva sobre aquilo que continua relevante.
Foi inclusive com essa ideia em mente que eles perceberam que os modelos retrô voltaram a despertar desejo porque reúnem atributos que permanecem atuais: autenticidade, versatilidade e uma estética que atravessou diferentes gerações sem perder sua força. Mas, ao invés de apenas reproduzir o modelo antigo, a equipe buscou compreender quais códigos tornaram essas silhuetas atemporais e reinterpretá-los sob a ótica da Anacapri. “No fim, acreditamos que a inovação mais relevante é aquela que cria continuidade, e não ruptura. O AC Retrô nasce dessa visão: um sneaker que reconhece o valor da história da moda, mas encontra uma nova forma de fazer parte da vida da mulher contemporânea”, afirma Fernanda.
Esse equilíbrio, inclusive, marca uma visão muito relevante da marca: segundo a líder criativa, na visão deles, a nostalgia e inovação não competem entre si, mas se fortalecem. ” A nostalgia oferece repertório, identidade e conexão emocional; a inovação é o que mantém essas referências relevantes para a forma como vivemos hoje”, comenta. O processo da marca nasce da combinação entre pesquisa de comportamento, movimentos culturais e sensibilidade criativa. “Observamos as transformações da moda, mas entendemos que o papel de uma marca não é apenas refletir o que está acontecendo, e sim fazer uma curadoria dessas referências e traduzi-las de forma coerente com sua identidade”, completa.

Créditos: Divulgação
Legenda: O tênis AC Retrô, da Anacapri
Tudo ao mesmo tempo em lugar nenhum
A relação da Geração Z com a nostalgia é muito diferente da das gerações anteriores por não nascer da memória, mas do repertório. Décadas, estilos e referências convivem simultaneamente nas redes sociais, tornando o passado tão acessível quanto o presente. Para Fernanda, é por isso que o retrô deixou de ser uma lembrança para se tornar uma linguagem estética. “Ao escolher uma silhueta inspirada nos anos 70 ou 80, essa consumidora não está tentando reviver uma época, mas apropriando-se de códigos culturais para construir uma identidade própria. A autenticidade, nesse contexto, não está em viver uma referência, mas em reinterpretá-la”, afirma.
As redes sociais marcam não só a relação da GenZ com outras gerações, mas também na forma como a moda é consumida. “Elas deixaram de ser apenas canais de descoberta de tendências para se tornarem grandes curadoras de repertório”, diz Fernanda. E esse movimento transformou também o comportamento dos consumidores. O desafio deixa de ser acompanhar a velocidade das redes, e passa a ser o desenvolvimento de um olhar capaz de distinguir o que é apenas um fenômeno momentâneo daquilo que realmente se tornará parte da cultura.
Entre esses movimentos, entra o desejo, que deixa de ser por itens apenas novos, mas que carreguem algum tipo de significado, e é por isso que a Anacapri defende que as reinterpretações não sejam literais. “Não buscamos reproduzir uma década, mas compreender quais elementos tornaram aquelas referências atemporais e reinterpretá-los para a mulher de hoje. O resultado é um produto que reconhece o valor do passado, mas pertence ao presente”, adiciona.
Quando a IA e a moda se encontram
É inegável que a inteligência artificial torna o processo de criação de uma nova coleção mais eficiente, acelera análises e amplia o repertório de referências. Mas algo que ela não consegue fazer é atribuir significado a essas informações. “É justamente aí que entra o papel da equipe criativa”, conta Fernanda. “Mais do que identificar tendências, nosso trabalho é entender por que elas surgem, quais mudanças de comportamento refletem e como podem ser traduzidas de forma autêntica para a identidade da marca. Criar não é apenas conectar dados; é fazer escolhas, estabelecer prioridades e construir uma visão”.
Para eles, o futuro da moda não será determinado por quem tiver acesso às melhores ferramentas, mas por quem souber transformá-las em cultura, identidade e conexão. “Acreditamos que os produtos mais relevantes não nascem da soma de referências, mas da capacidade de transformá-las em algo coerente, desejável e emocionalmente significativo. A tecnologia nos ajuda a enxergar possibilidades; a criatividade humana é o que define quais delas merecem existir”, complementa.
Mas, para o leitor, pode parecer estranha a relação entre IA e nostalgia. Na Anacapri, essa dicotomia é falsa. Fernanda afirma que “a tecnologia não representa o fim do passado — ela, na verdade, amplia nosso acesso a ele. Nunca tivemos tanto repertório disponível ao mesmo tempo. Hoje, conseguimos navegar por décadas de referências em poucos segundos, e isso faz com que o passado deixe de ser um lugar distante e passe a fazer parte do presente”.
É a partir dessa visão que a equipe da marca não enxerga o retorno do passado como uma tendência finita. Ela, na verdade, responde à necessidade de um mundo cada vez mais acelerado e homogêneo, em que as pessoas buscam elementos que transmitam identidade, permanência e autenticidade. O retrô cumpre esse papel porque carrega códigos culturais que atravessam gerações. “No fim, talvez o maior paradoxo seja justamente esse: quanto mais a tecnologia avança, mais as pessoas valorizam aquilo que parece genuíno, emocional e humano. E acredito que é exatamente nesse encontro entre inovação e autenticidade que a moda continuará encontrando sua relevância”, finaliza.
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