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IA no trabalho é regra. O difícil agora é aprender a conviver

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante no mundo corporativo. Hoje, ela já faz parte da infraestrutura cotidiana de trabalho em muitas empresas brasileiras, seja para redigir textos, analisar dados, organizar tarefas ou automatizar processos. O problema é que a adoção acelerada da […]

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A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante no mundo corporativo. Hoje, ela já faz parte da infraestrutura cotidiana de trabalho em muitas empresas brasileiras, seja para redigir textos, analisar dados, organizar tarefas ou automatizar processos. O problema é que a adoção acelerada da tecnologia não veio acompanhada, na mesma velocidade, de mudanças na forma como as organizações trabalham. O resultado é um cenário paradoxal: ferramentas cada vez mais sofisticadas convivem com equipes que ainda estão aprendendo a incorporá-las de forma estratégica.

Segundo o estudo Panorama de Sentimento das Lideranças 2026, realizado pela Newnew, cerca de 80% das empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial em algum nível. Apesar disso, apenas 11% das lideranças afirmam que a implementação “deu super certo”. A diferença entre adoção e resultado revela um ponto central da atual transformação digital: a tecnologia avançou mais rápido do que a capacidade das organizações de se adaptarem a ela.

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Para Mariana Achutti, CEO da Newnew, o dado evidencia que muitas empresas ainda estão em uma fase inicial de aprendizado. “A adoção não é transformação. Nos últimos três anos, as empresas entraram em um movimento muito rápido de experimentação com inteligência artificial. Muitas adotaram ferramentas para não ficarem para trás”, afirma.

O paradoxo da produtividade

A presença crescente da inteligência artificial no trabalho costuma ser associada a promessas de eficiência e ganho de tempo. Na prática, porém, muitas equipes relatam a sensação oposta: mais tarefas, mais pressão e menos espaço para pausa. O próprio Panorama mostra que 41% das lideranças apontam a saúde mental como a principal pressão atual dentro das organizações. O dado indica que o avanço tecnológico está acontecendo em paralelo ao aumento das exigências de produtividade.

Segundo Mariana, isso acontece porque tecnologias que aceleram processos tendem a elevar também as expectativas de desempenho. “A inteligência artificial aumentou a capacidade de produção, mas também aumentou a expectativa sobre o quanto uma pessoa deveria produzir”, explica.

Para ela, existe um descompasso estrutural entre tecnologia e adaptação humana. “Quando uma tecnologia acelera processos, a tendência natural das organizações é preencher o tempo ganho com mais demandas. O problema é que o ritmo de adaptação humana não acompanha a velocidade da tecnologia”, afirma.

Esse efeito fica ainda mais evidente em contextos de trabalho remoto ou híbrido. Ferramentas de IA integradas a plataformas digitais ampliam a quantidade de notificações, relatórios e tarefas simultâneas, criando uma sensação constante de urgência. “O resultado é um aumento de pressão cognitiva: mais informação para processar, mais decisões para tomar e mais expectativas de resposta rápida”, diz Achutti.

O gargalo não é tecnológico

Se a inteligência artificial já está disponível e relativamente acessível, por que tantas empresas ainda têm dificuldade de extrair valor real dela? De acordo com o estudo da Newnew, cerca de 70% dos principais obstáculos à implementação de IA são humanos e estratégicos e não técnicos. Ou seja, o problema raramente está na ferramenta em si. Na avaliação de Mariana, o primeiro erro recorrente é a ausência de direção clara. “Muitas empresas começaram a usar IA sem responder perguntas básicas: para quais decisões ela deve ser usada, onde gera vantagem competitiva e quais processos precisam mudar”, afirma.

Outro ponto crítico é a cultura organizacional. Segundo a executiva, equipes frequentemente recebem novas ferramentas sem orientação sobre como utilizá-las no cotidiano. “As pessoas sabem que precisam usar IA, mas não sabem exatamente como integrá-la no dia a dia do trabalho”, explica. Esse cenário cria o que ela chama de “experimentação dispersa”. Achutti afirma que, quando não há critérios claros, a tecnologia vira mais um projeto isolado, em vez de um motor real de transformação.

Para ela, tratar a inteligência artificial apenas como um projeto de tecnologia também limita seus resultados. “Na prática, ela é um projeto de transformação organizacional. Quando envolve liderança, estratégia, cultura e aprendizagem, começa a transformar de fato a forma como o trabalho acontece.”

Créditos: Divulgação/Newnew

Legenda: A capa do estudo Panorama de Sentimento das Lideranças 2026, realizado pela Newnew

A casa virou extensão da transformação digital

Se antes a digitalização do trabalho já impactava a rotina doméstica por meio do home office, a chegada da inteligência artificial amplia ainda mais essa integração entre tecnologia e vida cotidiana. Hoje, ferramentas de IA funcionam como verdadeiros copilotos digitais em tarefas comuns do trabalho: redigem textos, resumem reuniões, analisam planilhas, organizam agendas e sugerem decisões. Muitas dessas atividades acontecem fora do escritório: na mesa de casa, no notebook pessoal ou no celular.

Para Achutti, essa transformação muda não apenas a dinâmica das empresas, mas também o ritmo da rotina doméstica. “A IA amplia a capacidade técnica do trabalho, mas também aumenta o volume de informação e de decisões que as pessoas precisam administrar no dia a dia”, afirma.

Esse movimento é parte de uma tendência mais ampla do mercado. O Future of Jobs Report 2025, publicado pelo World Economic Forum, aponta que habilidades relacionadas a tecnologia, análise de dados e pensamento crítico estão entre as que mais devem crescer em importância nos próximos anos, justamente porque o trabalho passa a ser cada vez mais mediado por sistemas digitais e inteligência artificial. Com isso, o espaço doméstico deixa de ser apenas o local do descanso e passa a integrar também a infraestrutura do trabalho digital. A tecnologia que organiza reuniões, escreve relatórios ou analisa dados está, muitas vezes, operando a poucos metros do sofá ou da cozinha.

O próximo salto da IA será humano

Se a fase inicial da inteligência artificial nas empresas foi marcada pela experimentação tecnológica, a próxima etapa tende a ser definida pela capacidade das organizações de desenvolver habilidades humanas para lidar com essas ferramentas. Para Mariana , existe um risco crescente de dependência excessiva dos algoritmos. “Existe um risco silencioso que eu chamo de terceirização do pensamento”, afirma. Segundo ela, quando profissionais passam a delegar análise, síntese e argumentação à tecnologia, podem reduzir o exercício do julgamento crítico. “Organizações que delegarem totalmente esse processo ao algoritmo correm o risco de formar profissionais muito eficientes na execução, mas cada vez menos preparados para interpretar contextos complexos”, explica.

Por isso, o estudo da Newnew indica que as competências mais importantes no ambiente de trabalho mediado por IA tendem a ser justamente humanas. Entre elas estão pensamento analítico, pensamento crítico, alfabetização tecnológica e inteligência emocional. Na avaliação da executiva, empresas que conseguirem aprender mais rápido terão vantagem competitiva. “A empresa que aprende mais rápido terá vantagem. Esse é o novo jogo competitivo”, afirma.

O desafio, portanto, não é mais decidir se a inteligência artificial será usada no trabalho — porque ela já está presente. A questão central passa a ser outra: como reorganizar processos, expectativas e habilidades para que humanos e máquinas consigam trabalhar juntos sem transformar eficiência em sobrecarga.

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